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Tuesday, January 10, 2023

O hino nacional e a necessidade dos símbolos

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É um assunto recorrente, à falta de melhor, alguma personalidade pública vir à praça pôr em causa os símbolos nacionais. Desta vez foi o cantor luso-cabo-verdiano Dino D’Santiago que, numa certamente bem frequentada conferência por causa dos 50 anos do Expresso, contestou o hino nacional português que reclama ser demasiado bélico. O tema, que em tempos tinha sido levantado com a mesma sofisticação teórica pelo maestro Vitorino de Almeida, pegou como fogo em palha seca nas redes sociais, donde nos últimos dias emerge um irresistível debate que venho seguindo com interesse. No Facebook alguém reclamava que o nosso hino não era grande coisa, que os mais bonitos eram o americano e a Marselhesa. Eu confesso que, mesmo gostando muito de música, os hinos não me atraem grandemente. Detentor duma relativamente numerosa discoteca, só sou feliz possuidor de dois hinos: o brasileiro, inserido numas Variações de Louis Moreau Gottschal (Grande Fantasia Triunfal) e uma impressão de 1906 ou 1907 em ebonite 78 rpm de "A Portuguesa", uma “canção de intervenção” adoptada pelos republicanos em 1891 como na sequência do ultimato britânico, quando eles se pretendiam fazer ao mar para heroicamente enfrentarem a armada britânica. Pena que não o tenham feito, todos juntos dentro cruzador Adamastor, adquirido pelos próprios através da “grande subscrição” patriótica. Não se tinha perdido grande coisa.


Na empolgante discussão sobre os deméritos de “A Portuguesa”, não foram poucos os que assumiram preferir o hino da Maria da Fonte, que os republicamos terão certamente ligado aos miguelistas. O facto é que hinos e marchas não entusiasmam a minha veia melómana, mas evidentemente prefiro qualquer um à Marselhesa, um descarado exemplo de xenofobia e belicismo. Os hinos soviético e americano são musicalmente interessantes, mas essa afeição talvez esteja relacionada com o número de vezes que os ouvi na infância e juventude a ver os Jogos Olímpicos na TV. Na verdade, os “símbolos nacionais” são uma invenção da sanguinária Revolução Francesa, na ânsia da consolidação do Estado Moderno como religião laica. Mesmo havendo quem afiance que “A Portuguesa” teria sido inicialmente dedicado por Alfredo Keil ao Príncipe Dom Miguel exilado na Austria, a verdade é que foram os republicanos de 1910 que o aproveitaram para primeiro hino nacional, na forma como entendemos actualmente o conceito. O Himno da Carta, era apenas o Hino da Carta, como o Hino da Restauração ou o Hino da Maria da Fonte. O pior a moda dos “símbolos nacionais” foi a bandeira verde-rubra com que nos castigaram os revolucionários numa exibição de extremo mau gosto, e em cuja genealogia encontramos os símbolos da bandeira dos terroristas carbonários. A ela se referiu assim Fernando Pessoa: “contrária à heráldica e à estética, porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português – o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que, por direito mental, devem alimentar-se”. Valham-nos as armas reais, mesmo decapitadas lá no meio, que se foram impondo pelos nossos reis ao longo dos séculos, e cuja versão actual procede das armas de Dom João II com a Esfera Armilar de D. Manuel I.


Não me incomoda grandemente que se discutam os "símbolos nacionais”, pois não foi com “símbolos nacionais” que se construiu a nossa pátria. Portugal foi-se constituindo como Estado Nação ao longo da história numa adesão espontânea, de dentro para fora - aqui e ali com a ajuda dos ingleses, é certo. Para isso não foi preciso o rei aparecer periodicamente na televisão, nem bandeiras às janelas, ou hinos antes dos eventos internacionais. A nossa unidade política foi sendo construída desde o início à volta do rei, da cruz de Cristo, e duma língua, como um milagre espantoso; uma "improbabilidade" histórica como escreveu D. Manuel Clemente. Na verdade, estou convencido de que Portugal, ainda hoje é dos países do mundo que menos necessita da sacralização dos "símbolos nacionais", exacerbados sempre por países em formação ou nacionalidades pouco consolidadas. Aqui chegados, nós os portugueses há muito que nos habituámos a viver como habitualmente, e, de revolução em revolução, a aceitar um medíocre destino. O hino de Portugal decididamente não é o pior que nos impingiram e até homenageia os nossos egrégios avós. Agora aquela bandeira... 


Thursday, December 15, 2022

Trincheiras

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Chamou-me a atenção no passado sábado (sim, continuo a ler o Expresso aos sábados) o artigo da Eugénia Galvão Teles que fazia referência aos resultados de um estudo de uma equipa de economistas sobre a importância do “Capital Social” (a rede de relações) feito através da análise das amizades de 72 milhões de americanos no Facebook publicado na revista “Nature”. Acredito que com gráficos coloridos e números minuciosos a evidência da relevância do meio que cada um frequenta para o seu sucesso ganhe outro brilho, no caso um “fundamento científico”. É sob esse mote que a autora reclama a legitimidade das famosas quotas no acesso ao ensino superior para as escolas dos bairros desfavorecidos. Ainda na área do ensino, que é supostamente o principal campo de batalha para a mobilidade social (não caí no erro de escrever luta de classes), a cronista bate-se na defesa dum ensino público interclassista, porque “os mais prejudicados com o desaparecimento dos mais ricos da escola pública são os mais desfavorecidos”. Nada mais verdadeiro: em termos práticos quer dizer que urge promover, portanto, a liberdade de escolha no ensino. Ao contrário, tudo o que a marca socialista nas nossas políticas tem feito nas últimas décadas em Portugal vai no sentido da consolidação dessa estratificação social, dividindo os mais pobres e os menos pobres entre escola publica e privada. É disso exemplo a extinção progressiva dos contratos de associação do Estado com as escolas privadas, que as tornava acessíveis aos mais desfavorecidos – uma bandeira do governo da geringonça.


Essa estratificação social tem-se vindo a agravar de tal forma que suspeito que para muita gente com menos de quarenta anos seja difícil de acreditar que eu, um autêntico “menino família”, no final dos anos sessenta tenha frequentado a 1ª e 2ª classe na Escola da Câmara n. 6 em Campo de Ourique (paredes meias com o Casal Ventoso) e a 3ª e 4ª classe na Escola n.º 68 da Rua da Bela Vista à Estrela. Isto pela altura da reforma do ministro Veiga Simão, quando há muito a primária era obrigatória e estava universalizada, se não em Portugal, pelo menos em Lisboa. Escusado será dizer que isso acontecia com bastante normalidade no meu meio social, solução vista nas grandes famílias como uma forma de nos preparar para a “vida real”. O bem que me fez e os amigos que ganhei.


Outra instituição de particular importância na “miscigenação” social que também não é muito querida dos poderes em voga é a Igreja Católica, que ao contrário de algumas caricaturas sempre foi um espaço interclassista e intercultural. Nas paróquias, toda a sorte de actividades, desde a catequese aos retiros espirituais, passando por peregrinações ou campos de férias, sempre me pareceram espaços profundamente interclassistas, duma mistura saudável de diferentes sensibilidades e vivências. Sendo também possivelmente do desconhecimento das actuais elites nas suas bolhas, nos dias de hoje, no nosso país, à frente de algumas comunidades paroquiais, podemos encontrar padres de diferentes etnias, africanas ou orientais, espelho de uma diversidade social e étnica que se estende aos fiéis que as frequentam. De resto, todos os grupos de interesses, mais ou menos formalmente associados, continuarão sempre a tudo fazer para subir a escadaria do poder, favorecendo relacionamentos endogâmicos. Por exemplo, não conheço grupo social mais estratificado e preconceituoso que o académico, mas será injusto não referir muitos outros, sejam de advogados ou economistas, que cuidadosos nas suas ligações pessoais se promovem mutuamente, na ânsia de reconhecimento ou promoção social – é da natureza humana.


O que me parece certo é que em Portugal é difícil encontrar pessoas descomplexadas e descomprometidas com os corredores do poder – somos pobres e mal-habituados. E o pior é que neste nosso mundo hedonista existem cada vez menos pessoas que percebam qual é o poder que realmente conta e verdadeiramente liberta. Esse problema não se resolve com enfáticas denúncias, decretos ou medidas ortopédicas. Só através da mudança do coração de cada um. Para explicar isto não são necessários gráficos e dados estatísticos, talvez baste perceber o verdadeiro sentido Natal.


Tenho pena que o artigo da Eugénia Galvão Teles, que é uma pessoa civilizada, não tenha ido por aí.


Desenho de Pawel Kuczynky, daqui

Wednesday, July 27, 2022

Apropriação cultural

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O 40º festival Womad criado em 1982 por Peter Gabriel decorre a partir de amanhã até Domingo como habitualmente em Charlton Park, em Wiltshire. Com o objectivo de promover a pluriculturalidade e a tolerância entre culturas através da linguagem universal que a música e a dança comportam, este festival será para muitos um chocante exercicio de apropriação cultural, a ser cancelado. De facto, existe um movimento universal promovido por homens de boa vontade que preza a paz e o diálogo entre culturas, que resulta em colaboração interétnica ou interracial. Na música isso chama-se fusão. Esperamos que a cultura woke, cujo único objectivo é acicatar as rupturas e salientar as fracturas entre os indivíduos e povos seja combatida com pragmatismo – a batalha contra o racismo e outras formas de preconceito tem muitos séculos e heróis e há-de continuar a existir enquanto houver humanidade – o “Imagine” de Lennon só é possível eliminando da equação o factor humano, as pessoas, e pela  mesma razão as pessoas e as comunidades estão condenadas a pedir desculpa umas às outras pelos erros que incorrem dada sua natureza.  A alimentar este delírio colectivo temos o outro lado da moeda, expresso no identitarismo étnico dos nacionalistas de direita, bem expresso nas recentes declarações de Viktor Orbán, Primeiro-ministro da Hungria, dizendo que “a mistura de raças destrói as nações”. Estão bem uns para os outros, incapazes duma cultura de perdão. Interessante é verificar, numa ronda pelos seminários e paróquias de Portugal, numa altura de crise de vocações, o número de jovens padres oriundos dos mais diversos países de língua portuguesa a serem formados ou a exercerem a sua vocação apostólica em tantas igrejas.  “Não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3)
É assim a vida desde Adão e Eva, e assim continuará a ser, o confronto entre dois movimentos antagónicos, o da ruptura e o da unidade – o mal e o bem, o feio e o belo, o erro e o perdão. Eu pelo meu lado sei bem onde me posicionar, de que lado está a harmonia, ou “a vontade de Deus”.
Que pena tenho eu de não poder estar este fim de semana em Wiltshire. Em compensação irei ouvir Peter Gabriel, um dos exemplos mais geniais de fusão musical.


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Manifestantes negros na avenida Paulista
no passado mês de Novembro, na defesa do ultranacionalismo étnico,
ou "racismo cientifico".

Thursday, October 24, 2019

Joacine, ou uma máquina de fazer racistas


Não serei a pessoa mais indicada para defender a estética da bandeira nacional que nos legou a revolução republicana mas o ponto não é esse. Admito que talvez se não devesse valorizar este vídeo com um energúmeno a tecer considerações ofensivas sobre os símbolos que a nossa bandeira ostenta – o que de melhor nela se aproveita, porque reflecte a nossa História como comunidade com quase de 900 anos de caminho. Mas o facto é que este discurso, proferido na manifestação que juntou uma multidão de 50 apoiantes (mais ou menos o número de amigos que reúno no meu aniversário no pico de Agosto) de Joacine Katar Moreira em São Bento há dias, é intolerável e deve deixar-nos apreensivos com que o que aí vem em matéria de ruído e distracção com o novo parlamento. Perante afirmações como estas: “uma bandeira que exalta uma determinada forma de encarar o mundo racista e imperialista, (…) falamos das quinas que representam supostamente as chagas de uma determinada entidade que me escuso de referir (…) o império representado pela Esfera Armilar que representa a exaltação da conquista que na perspectiva de milhões e milhões de homens e mulheres assassinados significou destruição da civilização”… depois digam-me que o grande problema em Portugal é André Ventura - que ao lado destes marginais a instigarem o ódio e a fractura afinal é um menino.  


E não, não me parece que haja razões para rir, desconfio que nesta nova legislatura vai ser difícil o bom senso e a moderação fazerem-se ouvir, lá isso vai.

Wednesday, May 21, 2014

Do ódio

No outro dia em conversa com a minha filha de 13 anos tentava contrariar a sua ingenuidade maniqueísta explicando-lhe a complexidade das múltiplas interacções de mais ou menos legítimos interesses e motivações que tantas vezes conduzem o ser humano à mais cruel violência e à guerra fratricida. Na altura ainda não tinha visto este vídeo lançado pelos Mão Morta de Adolfo Luxúria Cabral que vem corroborar a ideia da minha filha: é verdade que o ódio circula livremente da forma mais primária, personificada em seres de trevas, à espreita da possibilidade de se manifestar em forma de enorme tragédia. Não sei se isto é legal ou ilegal, mas do que estou certo é que não é poesia nem arte, é apenas um exemplo de patológico exibicionismo e pura malvadez.  

Sunday, August 18, 2013

Fracturas expostas

As touradas agora fazem-se no exterior da praça e sem touros. Faz falta uma organização humanitária que defenda as pessoas do ridículo.

Monday, December 5, 2011

Ao menino não nascido


 


A 28 de outubro de 2011, foi inaugurado na Eslováquia, o monumento ao menino não nascido, obra de um jovem escultor daquele país. O monumento expressa não só o pesar e arrependimento das mães que abortaram, mas também o perdão e o amor do menino por nascer para com a sua mãe.


A cerimónia de inauguração contou com a presença do ministro da Saúde do País. A ideia de construir um monumento aos bebés por nascer veio de grupo de mulheres jovens mães muito conscientes do valor de toda a vida humana e do mal que se inflige também à saúde da mulher.

Friday, October 10, 2008

E o direito à diferença?


Enquanto esta manhã no parlamento o Partido Socialista executava mais uma hábil pirueta e promovia o “casamento” homossexual a imperativo debate nacional, ao mesmo tempo, a opinião regimental era doutrinada nas avassaladas rádios e televisões nacionais.


A Grande Parada está a começar, e o Grande Irmão prepara as mentes ignotas para mais uma fracturante revolução de costumes, rumo aos píncaros da civilização. É neste espírito que o programa Opinião Pública da SIC Notícias convidava esta manhã  o “insuspeito” Rui Tavares para comentar tão suculento tema. Coadjuvado pela apresentadora de serviço, o virtuoso pregador (necessita urgentemente de aulas de dicção, mas isso não interessa nada) escuta complacente o povo ignorante que teima não entender o sentido profundo da igualdade: que afinal o casamento de dois indivíduos do mesmo sexo se equipara por exemplo ao casamento de um homem e de uma mulher de raças diferentes.

Admitindo como inevitável a promulgação do “casamento” gay a breve trecho, apenas desejo realçar, como lamentavelmente a discussão nos grandes meios está inquinada, feita mera propaganda ou sound bite. Apequenando o pensamento e minando a democracia. Eu, em oposição ao simplismo igualitário, perfilho antes a causa do direito à diferença.

Monday, September 15, 2008

Outra vez as gravatas...


A Fernanda Câncio descortina aí nas ruas uma revolução a despontar, com garridas t-shirt, punhos no ar e "havaianas" (!) nos pés.  Depois, insurge-se contra a gravata, “resquício persistente da massificação e do totalitarismo vestimentar, do medo de sair da norma, da obediência cega à convenção”. Uma grande maçada. A jornalista, como é seu timbre, enfrenta com firmeza o diabo ou tão só os seus fantasmas (em sentido figurado, pois bem sabemos como estas figuras vão contra as suas arreigadas crenças). Uma vez mais bate-se pela sua nobre causa: enquanto Portugal inteiro não trajar inteirinho como na noite do Agito ali ao Bairro Alto, a moça não vai desarmar.


Atendendo à sua angústia das gravatas, apenas lhe digo que o preconceito é uma coisa tramada, que tolda a liberdade de escolha. Além disso a idade ensinou-me que esse sentimento promove o rancor, turva a vista e estorva o pensamento. Enfim, também faz mal à pele.

Eu nada tenho contra uma original t-shirt ou chinelas de “meter o dedo”, nem vislumbro obscuros sentidos num piercing malandro ou numa madeixa pintada. E passados já muitos anos sobre a minha adolescência, aceito conformado e com bonomia que andamos por cá principalmente para servir os outros. E mal andarei eu quando ambicionar o contrário. Com ou sem gravata.


 


Imagem: Mulher com gravata preta, por Amadeo Modigliani

Sunday, September 14, 2008

Toleimas dum inconformado conservador

Vulgarizados no nosso quotidiano,  alguns artifícios tecnológicos empobrecem e alienam os nossos preciosos sentidos. Fascinantes tempos modernos estes que nos oferecem favas e uvas durante todo o ano, temperatura normalizada e uma omnipresente música de fundo.


É assim que no escritório nos arriscamos a passar literalmente ao lado deste Verão algo atípico, às vezes a tiritar com o obstinado ar condicionado, sempre desagradavelmente ressequido. Não satisfeitos, alguns colegas ainda tapam as orelhas com os fones a bombar os ritmos da moda, em estéreo e com “bass reflex”.

Eu por mim, que não tenho um espírito espartano, recuso-me a dar demasiada importância às contingências meteorológicas: tirando as condições extremas, convivo em paz com o clima. Depois, gosto demasiado de música para enfiá-la o dia todo pelos ouvidos como se duma transfusão de soro se tratasse.

Wednesday, August 27, 2008

Não é obrigatório casar III

Independentemente da lei que o reja, tendo em conta a vulgarização do divórcio e a generalizada ineficácia dos tribunais, em especial os de família, pergunto-me quais as consequências disto tudo, principalmente nas crianças. Por mim, fico apreensivo com o estabelecimento progressivo duma pretensa moral darwinista e com a divinização de uma irreprimível liberdade individual. Quanta dor, quanta solidão e desespero pairarão, envergonhados e oprimidos, nesta selva de instintos, ilusões e quimeras.  Não estamos nós cegamente a destruir, numa geração, uma fórmula de estruturação social que levou séculos a desenvolver-se? O homem evoluiu assim tanto?

Saturday, July 5, 2008

O implacável "progresso"


 


Um verdadeiro incómodo para quem como eu detesta mudar os hábitos: o Diário de Notícias está cada vez mais inóspito para mim - no Sobe e Desce semanal (não assinado)  Manuela Ferreira Leite tem classificação negativa por ter um entendimento de casamento e de  família distinto do da fidalguia  bem pensante do regime. Depois, com destaque de capa na revista DN Sábado temos um despudorado e amoral testemunho de um aborto legal vivido por uma jornalista, que sintomaticamente nem o assina.


E não é que eu perdi mesmo o comboio do "progresso"?

Thursday, July 3, 2008

A coragem de Manuela


Numa época de assumpção plena do relativismo dos valores fundadores da nossa sociedade, sempre em benefício do imediato interesse do mais forte, o casamento civil vem sendo progressivamente esvaziado dos seus frágeis fundamentos. Transformado num precário acto burocrático e muitas vezes pretexto para burlescos regabofes à moda de Las Vegas, decadentes  exibições de intemperança, a admissão de pares do mesmo sexo na mesma caldeirada será a prazo a machadada fatal na instituição. Assim se vai afirmando ao mundo o Ocidente, berço da civilização, hoje terra da opulência e da ganância, cada vez mais agrilhoada a um decadente hedonismo.  


Porque não acredito na inevitabilidade dum caminho para a História, porque não creio que o progresso tenha um sentido obrigatório, acho importante a assumpção do contraditório face ao progressivo pensamento único instalado nas nossas pseudo-elites. Assim, considero que Manuela Ferreira Leite foi corajosa ao afirmar claramente as suas reservas quanto ao casamento entre homossexuais. MFL exprime e reflecte uma opinião legítima que é partilhada por muitos portugueses ainda não subjugados à propaganda da moderna inquisição.

De resto, insisto que o respeito pelas pessoas e suas diferenças é antes de mais um acto concreto da relação. É uma aprendizagem de berço e não é legislável.

 

Thursday, May 22, 2008

Mentes mesquinhas

A polémica causada pelos lugares de estacionamento “rosa” do Centro Comercial 8ª Avenida em S. João da Madeira ainda me consegue espantar. Para quem não saiba, refiro-me a quatro lugares exclusivos para mulheres, mais à larga e estrategicamente posicionados para um fácil estacionamento automóvel. Após denúncia do Bloco de Esquerda à Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, que deu razão aos queixosos, a Sonae, proprietária do espaço comercial, prepara-se para repor a normalidade, ou seja, lugares iguais para todos - informa-nos o Diário de Notícias de hoje. Graças aos queixosos, os "queixinhas" do costume, a injustiça flagrante é devidamente reposta.


Desde sempre que me ensinaram a discriminar positivamente a mulher, atitude que interiorizei precocemente. Através de persuasivos castigos, meus pais reprimiram-me de pequeno os meus instintos agressivos para com as minhas três irmãzinhas indefesas. “Nem com uma flor”, troçavam elas, do alto do seu privilegiado estatuto. Restava-me implicar com o meu irmão, com resultados deveras desencorajadores.  E foi à força de muitos ralhetes e alguns calduços que, quase como um reflexo condicionado, adquiri o hábito de conceder sempre a precedência às senhoras.


Hoje, ajo por convicção: considero que não é em vão que as mulheres deveriam ser sempre acarinhadas e favorecidas; sabemos bem como seríamos todos mais afortunados com mulheres mais felizes e realizadas... Com mais disponibilidade interior para exercerem a actividade mais encantadora da sua existência: serem amorosamente femininas. Como se sabe essa disposição, preciosa para a harmonia global, é constantemente frustrada pela bestialidade humana e pelas contingências da vida, com os trágicos resultados que se conhecem. Isso quanto a mim justifica toneladas de discriminação positiva: com o miúdo pela mão, carregada de sacos de compras, latas, legumes, pacotes, fraldas e algum capricho que seja, depois de um dia de trabalho, o mínimo que a minha mulher merece é um lugar mais fácil para estacionar o carro. Pelo menos enquanto eu não a presentear com o céu que um dia lhe prometi.

Neste frémito moralista instituído pelos modernos Calvinos da esquerda estabelecida e anafada, a única meta é nivelar a existência das pessoas tão baixo quanto as suas vidas frustradas e rancorosas. Mas isso já eu tinha entendido.

Tuesday, May 6, 2008

Os anormais



Imperdível este datadíssimo desenho animado produzido pela RTP nos obscuros anos 70 e que ditava o recolher obrigatório da miudagem. Suspeito que isto só acontecia com a cumplicidade da polícia de costumes - e dos meus pais que também estavam feitos. Estes Meninos Rabinos que antes de dormir se atreviam a “rezar a Jesus”, hoje, no mínimo seriam rotulados de ignorantes ou marginais... Ecos de uma época cinzenta e triste em que era possível conceber um família com cinco filhos, qui sas fruto dum deficiente planeamento familiar. Uma cambada de infelizes pois então.

Monday, May 5, 2008

Luta de classes



No Porto, um Jaguar desrespeitou o sinal vermelho e embateu na parte dianteira do metro, fazendo-o descarrilar contra o muro.

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Imagem daqui

Monday, April 21, 2008

Em nome da Liberdade

O que significa a indiferença global, perante esta carta de Rosa Coutinho a Agostinho Neto nos sombrios anos revolucionários? Não deveria o documento originalmente publicado no livro “Holocausto em Angola”, da autoria de Américo Cardoso Botelho (Edições Vega 2007) e divulgado por António Barreto num jornal de referencia nacional, originar um séria investigação e debate nacional? Atente-se nas palavras que transcrevo da dita carta: “ Após a última reunião secreta que tivemos com os camaradas do PCP, resolvemos aconselhar-vos a dar execução imediata à segunda fase do plano. Não dizia Fanon que o complexo de inferioridade só se vence matando o colonizador? Camarada Agostinho Neto, dá, por isso, instruções secretas aos militantes do MPLA para aterrorizarem por todos os meios os brancos, matando, pilhando e incendiando, a fim de provocar a sua debandada de Angola. Sede cruéis sobretudo com as crianças, as mulheres e os velhos para desanimar os mais corajosos. Tão arreigados estão à terra esses cães exploradores brancos que só o terror os fará fugir. A FNLA e a UNITA deixarão assim de contar com o apoio dos brancos, de seus capitais e da sua experiência militar. Desenraízem-nos de tal maneira que com a queda dos brancos se arruíne toda a estrutura capitalista e se possa instaurar a nova sociedade socialista ou pelo menos se dificulte a reconstrução daquela”.

Em 1975, com catorze anos, eu militei como podia e sabia, contra o impetuoso processo revolucionário totalitarista que se desenrolava sob a liderança do PCP. Durante a ponte aérea daquele quente Verão de 75, no convívio com os retornados que acolhíamos distribuindo bens de primeira necessidade à chegada a Lisboa, muitas e desesperadas denuncias nos eram sussurradas com desespero. Assim, nenhum destes casos denunciados me é totalmente estranho.

A crónica de Ferreira Fernandes hoje no Diário de Notícias tocou-me como um violento soco na barriga: porque eu próprio a aceitei como falsa “porque sim"? Porque de facto a indiferença foi generalizada. A “intelligenzia” dominante criou e alimenta os seus Tabus, Vacas Sagradas e Bodes Expiatórios. Quando nos preparamos para celebrar uma vez mais o 25 de Abril, convém lembrar que sem a verdade não há efectiva Liberdade: sobram a alienação e o oportunismo que, alimentadas pelos poderes, constituem a mais vil das opressões.

 

 

 

Saturday, April 12, 2008

Cortinas de fumo


Um amigo meu há uns dias na caturrice gabava-se da sua veia esquerdista ao defender a liberalização das drogas “leves”. Perguntei-lhe se tinha consciência dos efeitos dessas substâncias nos miúdos, como a perda de concentração, auto-segregação e declínio no rendimento escolar. Finalmente indaguei se tinha adolescentes em casa. Confirmou-me que não.

Com quarenta anos de propaganda mais ou menos explícita na industria do espectáculo direccionada aos adolescentes, as drogas, mais ou menos pesadas, continuam a fazer vítimas e danos na nossa sociedade, já de si em rápida mutação e crise de valores. Impotentes perante o flagelo, as sociedades liberais ensaiam soluções, incluindo a liberalização. Não sou crente em teorias da conspiração, mas a quem interessa este estado de coisas? À colossal indústria de estéreis terapêuticas da toxicodependência, e às grandes farmacêuticas e seus incipientes paliativos?

Reconhecendo a complexidade do problema, a questão da proibição ou liberalização das drogas leves ou pesadas, mais do que a sua real eficácia legal, é para mim uma questão de ética. O sinal emanado pela lei não me parece uma questão menor: nalguns dos princípios promovidos na ordem doméstica, eu prefiro ser apoiado pela legislação do meu país.

De resto, se para algumas favorecidas luminárias da nossa praça o consumo de droga significa apenas uma caprichosa  diversão de circunstância, tal não altera o seu cariz desestruturante e funesto para a generalidade dos indivíduos.


Friday, February 8, 2008

Tributo

Fazia hoje setenta e um anos, o meu pai. Deixou saudade e obra também.

Luiz de Lancastre e Távora (1937 – 1993) dedicou-se largos anos à investigação histórica, com especial incidência nos campos da Genealogia, Heráldica e Sigilografia. Possuindo um elevado número de trabalhos publicados, duas das suas obras mereceram ser galardoadas, uma delas com um prémio internacional. Fez parte do corpo docente encarregado de ministrar os cursos de Iniciação à Genealogia e Heráldica iniciativa levada a cabo pelo I.P.P.C. através do Instituto Português de Heráldica e com o patrocínio das Universidades Clássica e Nova de Lisboa. Funcionário da Biblioteca da Assembleia da Republica, foi destacado para a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, onde, a par de outras funções, dirigiu as actividades do Projecto Arquivos de Família. Sócio efectivo do Instituto Português de Heráldica, da Associação Portuguesa de Genealogia, da Sociedade de Geografia de Lisboa, e da Associação dos Arqueólogos Portugueses. Galardoado com os prémios General França Borges (A.A.P.) e Salazar y Castro (Academia Internacional de Genealogia e Heráldica, com sede em Madrid).

Nota: Esta foi a entrada (seguida da respectiva bibliografia que me escuso aqui detalhar) criada por mim para inserção na Wikipédia. O conteúdo foi considerado sem "interesse enciclopédico" e aconselharam-me a tentar de novo seis meses mais tarde, mas sem referencias à Nobiliarquia sendo Portugal uma república. Parece-me extraordinário como o preconceito político mais básico ainda se impõe tão impunemente na escrita da História. Para que conste, aqui se encontra o registo da correspondência trocada com um editor Relações Públicas da Wikipédia.
Ironicamente existe referência a Luiz de Lancastre e Távora nesta enciclopédia, no âmbito da genealogia, ou seja, sem qualquer suposto “mérito” que o justifique. Daqui a uns meses, conforme permite o regulamento, tentarei de novo editar o texto, na expectativa de que prevaleça então alguma sobriedade e justiça dos Srs. editores.

Ironias da vida

Após o terramoto, com Lisboa de pantanas ainda a cheirar a queimado, o ambiente político e social degradava-se de dia para dia, pesado. Pomb...