Friday, June 5, 2026

Cascais, Chaimites, a revolução, e os Genesis


Esta reportagem do saudoso Jorge Lima Barreto de Maio de 1975 publicada na Revista Música & Som aquando da actuação dos Genesis noseu auge com a apresentação integral do álbum The Lamb Lies Down on Broadway em cascais em pleno PREC é uma delícia: “A luta à droga faz-se na prática revolucionária e não na perseguição paranóica da polícia.”

Ora leiam esta peça de museu: 

GENESIS EM CASCAIS

A recente vinda do grupo «Genesis» a Portugal foi, indubitavelmente, o melhor e maior acontecimento de música pop no nosso país.

Anteriormente apenas tinham vindo escórias de música ligeira aparentada com a pop e apresentadas como sendo produtos válidos internacionalmente. Desta vez, porém, a Organização trouxe da autêntica pop.

Como tal o espectáculo foi inédito. Porque revelou um novo sistema de actuação, porque instruiu sobre o mercado da pop e porque se desenrolou musicalmente impecável.

No primeiro aspecto: novo sistema de actuação: o grupo Genesis procurou, dentro de conceitos gerais de pop-art, sistematizar o espectáculo musical com novas estruturas: o ritual de Peter Gabriel (os seus gestos paradigmáticos, os seus fatos fantásticos, a sua mise-en-scène dionisíaca: movimentos dum solista de bailado exótico, referenciado a mundos fabulosos da droga: mitologias ingénuas, inovações Kitsch, mas sempre autenticamente pop.

O cenário era feérico: luzes estroboscópicas em permanente alteração cromática, projecção de slides (isto sim: a selecção era do melhor gosto, as fotos de nível inatacável, a oportunidade da sua projecção sobre três panos digna dum verdadeiro artista).

Os movimentos lumino-dinâmicos sempre num complemento rigoroso do desenvolvimento musical.

Explosões de granadas de luz, mudança fenomenal de cenários, contaminação psicadélica, mas:

Segundo aspecto: o mercado pop:

O grupo actuou para vender o seu novo LP, os Genesis mostraram aderir alienadamente à especulação bárbara dos produtores discográficos, à loucura capitalista da reprodução mercantil — e isto sem contestação: nada no seu show indicava a mínima revolta contra este estado de coisas. Os Genesis cumpriram tudo o que uma sociedade burguesa esperava deles: divertir, alienar, dar-nos prazer idealista, para isso:

Terceiro aspecto: a sua actuação musical foi, como disse, esmerada: técnicos hábeis, de melodias cativantes, histórias genuínas no panorama da pop-art, sem qualquer erro a imputar-lhes: o que a repetição exaustiva comprovou tratar-se de produto duma estrutura tecnocrática: mercado para consumir. Se bem que perguntemos: a música não serve afinal, e apenas, o prazer? Não nos deram os Genesis um imenso prazer? Um aspecto suplementar deste concerto. Mostrou como 20 mil jovens da classe média e/ou trabalhadora preferem música a mixórdias sonoras que as opressões políticas pretendem inculcar. Vimos como era insustentável a qualquer vedeta da «pop» baladeira nacional apresentar-se àquele público.

É que na Arte a qualidade é primordial. Outro erro calamitoso de certo controle opressivo que os partidos pretendem fazer é o da imprensa:

Os diários lisboetas diziam: «Onda de violência em Cascais, Um soldado morto, Destruição no recinto» — tudo mentira, falsidade, blasfémia. Que os politiqueiros não gostem de música é uma coisa, mas deturpar as notícias é típico do fascismo.

O soldado morreu de acidente de viação próximo de Cascais. Não houve uma única cena de violência no pavilhão: as cadeiras partiram-se porque 10 mil pessoas por noite não cabiam no recinto: eram elas ou as cadeiras (a propósito: porque não se acaba de vez com as cadeiras, os lugares marcados, a discriminação de bilhetes?) — o público senta-se no chão à medida que entra.

Outra novidade era: a droga. Talvez existisse, mas se existia qual é o moralista da judiciária que pode combater tal facto? A droga existe porque as condições sociais assim o permitem e facultam — não é a repressão judiciária (à maneira fascista) que inverte esta situação — bem pelo contrário.

A luta à droga faz-se na prática revolucionária e não na perseguição paranóica da polícia.

De resto havia os tanques e os carros de assalto à volta do recinto que «garantiam» a melhor «ordem».

O aparato militar conciliou-se perfeitamente com o pacifismo dos espectadores. Uma lição: a boa música pop é inofensiva e não provoca distúrbios. Os militares presentes em Cascais podem testemunhá-lo.

É absolutamente útil e desopilante a continuação deste tipo de espectáculos. A Arte e a Liberdade são os melhores amigos...

J. L. Barreto

Wednesday, June 3, 2026

Os heróis do dia

Periodicamente, o país real tem de suportar com estoicismo uma greve geral – acho até que já escrevi vários textos parecidos com este. É como uma punição que temos de sofrer, uma penitência que vem directamente das calendas revolucionárias, um resquício do domínio comunista da revolução, devidamente consolidado e protegido nos sindicatos que tomaram conta da função — ou melhor, da corporação — pública e das empresas do Estado.

Chegados a este estágio da nossa democracia, assistimos a uma ironia modernamente bizarra: a conivência dos “fascistas” do Chega com este bloqueio. Unidos pelo oportunismo, todas as corporações profissionais privilegiadas dedicam-se a encerrar transportes públicos, tribunais, escolas e hospitais – porque podem. O objectivo é claro: boicotar a actividade do país precário, o país produtivo, a esmagadora maioria das pessoas que precisam, efectivamente, de trabalhar, de pôr comida na mesa ao fim do dia.

Esses milhões, sim, são os heróis do dia. Aqueles que, contra ventos, marés e grevistas, marcaram presença nos seus empregos. No sector privado, convém lembrar, apenas 7% dos trabalhadores são sindicalizados. Ali, o privilégio de parar não existe.

Um olhar empírico na minha zona, além de me mostrar o liceu aberto, revelou o comércio e os serviços em pleno funcionamento. E no pouco tempo que estive na rua, para desespero dos profetas do caos, ainda vi passar um comboio em direção ao Cais do Sodré.

Apesar da punição imposta, apesar do folclore habitual dos grevistas — devidamente amplificado e mimado pelos média ao serviço —, a realidade é o que é e teima em desmentir os comunicados sindicais: a esmagadora maioria do país hoje foi trabalhar.

Os sindicatos e a extrema-esquerda deram, é certo, a sua habitual prova de vida, em contraciclo com a sua representatividade eleitoral. E continuaremos, infelizmente, reféns desta minoria ruidosa, que se comporta como um verdadeiro frúnculo na nossa democracia.

Novas greves? Haverá em breve, tão certo quanto o Natal ser em Dezembro. Até lá, só pedimos uma coisa: deixem-nos trabalhar.

Monday, June 1, 2026

A pegada que deixamos

 Vivemos na ditadura do instantâneo. Entre o desejo e a sua satisfação, o mundo moderno, vergado ao niilismo, vai eliminando o espaço do compasso de espera, necessário à busca de um sentido mais profundo e fértil da existência. No entanto, há uma verdade desconfortável que o tempo teima em nos sussurrar ao ouvido: do gozo que fruímos sós, não fica nada. Os prazeres mundanos, as paixões que nos consumiram, os banquetes, as experiências sensuais e os muitos troféus que o ego anseia não deixam rasto: desvanecem-se como fumo, evaporando-se no ar assim que a luz se apaga.

As paredes da casa de que nos orgulhamos, decorada com esmero anos a fio, um dia apenas reflectirão o eco do vazio. As sofisticadas bibliotecas e as colecções que juntámos — de discos, de porcelanas —, metodicamente erguidas com o fetiche da posse, serão amanhã desmanteladas pelos nossos extremosos, desleais e indiferentes filhos. Acontece que o prazer individual não gera legado; extingue-se em si mesmo. Que o diga o alfarrabista, que sabe, como poucos, que dias após a morte de um bibliófilo será contactado pelos herdeiros.

Não se trata de menosprezar o bom convívio, a alegria quotidiana, os nossos hobbies — entretenimentos que nos enfeitam a existência. Eles constituem-nos, equilibram-nos na corda bamba de uma vida de exigências que pede tréguas. Mas não tenhamos ilusões: são só distracções. O que realmente faz história, o que deixa um sulco na terra, é a caligrafia do esforço, da doação. 

É na tese que nos roubou noites, na família que teimámos (contra ventos e marés) em manter unida, no livro que escrevemos ou na descoberta científica que falhou — mas que abriu caminho para o passo seguinte — que nos tornamos verdadeiramente humanos. A obra maior exige o suor do treino persistente para o recorde, a dor do cansaço, a teimosia da superação. É o serviço que nos realiza, na dádiva, às vezes sacrificada, dos nossos dons aos outros ou a uma causa. É a partilha com os outros que atribuirá valor àqueles bens que, afinal, não são para nós. Daqui não levaremos nada. É na comunhão que nos é legítimo sentir uma ponta de orgulho na vida que construímos, nos dons que nos foram outorgados.

Esta resistência ao efémero encontra o seu eco teológico e antropológico mais recente na encíclica papal Magnifica Humanitas. Num mundo saturado de gratificação instantânea — onde o algoritmo nos entrega o desejo antes mesmo de o formularmos —, o Sumo Pontífice resgata um conceito esquecido: o do prazer diferido. 

 A encíclica recorda-nos que a verdadeira grandeza humana (magnifica humanitas) não se mede pela nossa capacidade de consumir o presente, mas pela nossa audácia em semear o futuro. O “prazer diferido” não é uma punição ou uma autonegação masoquista; é a chave da transcendência. É a capacidade de abdicar do gozo imediato em nome de uma catedral que talvez nunca vejamos concluída, mas onde os nossos filhos e netos se abrigarão. 

 Como disse um dia o Papa Bento XVI, “O mundo oferece-vos o conforto, mas vós não fostes feitos para o conforto. Fostes feitos para a grandeza.” No final, a história não guarda registo dos nossos momentos de conforto. Guardará, talvez, a memória dos nossos combates. É no cuidado desafiante do outro e na entrega desinteressada que deixamos de ser apenas sobreviventes para nos tornarmos construtores. O esforço dedicado a algo maior que nós é o que nos poderá imortalizar. O resto é cinza, como bem sabemos. 

Publicado também aqui

Friday, May 29, 2026

O 28 de Maio contado aos totós

 


O Alexandre Borges, na sua crónica de opinião de ontem, escreve que o 28 de Maio passou ao lado de muita gente e que o pronunciamento que marca o fim da Primeira República deveria fazer-nos pensar. O artigo todo reflecte um mar de ambiguidades, que me levam a acreditar que a história da revolução republicana passou ao lado do Alexandre Borges, ou que os seus preconceitos são mais firmes do que os factos acontecidos naqueles tenebrosos tempos.

O que levará o autor a afirmar que o 28 de Maio significou a queda da “república livre e democrática” que promoveu “a laicização do Estado, o projecto de alfabetizar, enfim, a população, iniciativas valorosas na saúde e no ensino superior” fracassando na intenção de “implantar em Portugal um regime determinado pelos portugueses, os portugueses “reais”, que não os da realeza, o povo, os indivíduos, as classes trabalhadoras, sem privilégios de classe”?

O facto é que o caderno de encargos dos republicanos portugueses de cultura jacobina e anticlerical continha um projecto burguês (nunca foram postas em causa as questões de propriedade) de criação de um "Homem Novo", liberto do obscurantismo da coroa e do altar, que traria a Portugal as delícias do progresso. Entender tal projecto como benigno, ou achar que ele seria possível sem muita repressão e violência, é de uma ingenuidade comovente. Já acreditar que os projectos de alfabetização alguma vez passaram do papel é, simplesmente, falta de informação.

Ao Alexandre Borges aconselho a leitura do livro As Causas do Atraso Português, de Nuno Palma, que descreve os resultados trágicos dos delírios revolucionários de Pombal, dos Liberais e dos republicanos — com gráficos e tudo, para facilitar. Pretender que a monarquia constitucional, na passagem do século, era a causa do atraso económico e social em Portugal é, no mínimo, desonestidade intelectual ou apenas preconceito ideológico. Não enquadrar a realidade sociocultural dessa época com o que se passava no resto da Europa também não ajuda. O facto é que as monarquias europeias que não perderam guerras tornaram-se, numa evolução natural ao longo do século XX, nos regimes mais democráticos e prósperos do mundo.

Quanto às repúblicas que vingaram, desiluda-se o autor da crónica: os regimes trataram rapidamente de criar as suas próprias aristocracias e distinções honoríficas. É da natureza humana — algo que as democracias devem preservar e respeitar.

Talvez um dia o Alexandre Borges, porque tem boa cabeça para isso, perceba que contrariar a natureza humana e sociológica das comunidades, forçando um “progresso” idealizado por algumas cabeças iluminadas instaladas à força nas cadeiras do poder, dá maus resultados e é contraproducente. Mesmo quando não significa extrema violência e opressão, que foi, aliás, o resultado da revolução republicana em Portugal — à qual o povo respondeu com a adesão a Fátima e continua católico, Graças a Deus.

Finalmente, termino com a convicção contrária à do Alexandre Borges de que em 1926 quem “falhou” não fomos “todos nós” – nada disso! Foram os utópicos aventureiros revolucionários, que em dezasseis anos nos iam dando cabo do país.

Friday, May 22, 2026

O espelho de Alcácer

O ruído da espuma dos dias nos noticiários cansa-nos, avassala-nos e, não raras vezes, anestesia-nos a alma. Por isso, a nossa primeira reação perante o "massacre" mediático que rodeia o caso dos dois miúdos franceses de 3 e 5 anos, abandonados à beira da estrada para os lados de Alcácer do Sal, pode ser a da saturação. Queremos mudar de canal, fechar o jornal, fugir do horror. No entanto, que este assunto teime em não sair da agenda mediática é, paradoxalmente, um bom sinal por duas razões.

Primeiro, porque a nossa indignação prova que a barbárie ainda nos choca. Num mundo saturado de imagens de violência instantânea, onde a tragédia corre no ecrã do telemóvel à mesma velocidade que o entretenimento mais fútil, o espanto vale como um salvo-conduto moral. Se este abandono brutal continua a ser manchete, se a opinião pública recusa digeri-lo à pressa, é porque tal aberração permanece rara - é contra-natura. O dia em que olharmos com indiferença para duas crianças deixadas à sua sorte numa berma, pelos seus próprios pais, será o dia em que a nossa civilização terá falido definitivamente. O choque que ainda sentimos é o sistema imunitário da nossa decência a funcionar.

Em segundo lugar, este acontecimento, de tão monstruoso, obriga a nossa humanidade a olhar-se ao espelho. Naquela berma alentejana, fomos confrontados com os dois extremos daquilo que somos capazes de ser. Por um lado, espreitámos o abismo, os limites duma crueldade que desafia as leis mais sagradas da natureza e do sangue. Por outro, quase como um milagre que brota do asfalto, fomos também nós salvos pela ternura, pelo comprometimento do padeiro de Monte Novo, que recolheu e acolheu os miúdos entre os seus, e os confortou com a simplicidade duns gelados e brinquedos. E chegou-nos também pela comovente força silenciosa daquele amor fraternal dos dois meninos, logo após o traumático sobressalto: agarrados um ao outro, eles foram a resistência contra o abandono.

No fundo, esta notícia que insistimos em acompanhar já não é apenas sobre um crime ou uma falha parental. Este acontecimento fala, essencialmente, de todos nós. Lembra-nos do pior que habita o ser humano, mas também da beleza que nos salva. 

Thursday, May 21, 2026

O império do vitimismo

 O Ocidente enfrenta uma das suas mais subtis e devastadoras crises culturais: a institucionalização do vitimismo. Se outrora a civilização se erguia sobre a celebração do herói que batalha pelo seu destino, a praça pública contemporânea transformou a vulnerabilidade permanente num valioso (e perverso) capital social e político. Ser uma vítima — de injustiças reais ou de microagressões quotidianas — tornou-se um salvo-conduto moral que isenta o indivíduo do fardo mais pesado da existência: a responsabilidade individual.

Esta mentalidade opera através de uma profunda alienação psicológica e social, onde o indivíduo projecta as suas incapacidades na criação obsessiva de adversários absolutos. Vive-se na vertigem de lutas imaginárias contra inimigos ficcionados — moinhos de vento ideológicos, conspirações sistémicas ou preconceitos invisíveis —, enquanto se ignoram as ameaças reais à nossa segurança e liberdade. Esta fixação em dinâmicas de "nós contra eles" inverte o bom senso: em vez de pacificar a mente, o sujeito é treinado para ver perigo e malícia em cada interacção, alienando-se da realidade concreta.

O erro trágico desta tendência é o desmantelamento da autonomia da vontade face à adversidade. Ao gastar energias a combater inimigos imaginários e traumas do passado, reais ou inventados, abdica-se da liberdade suprema de escolher a própria atitude diante das circunstâncias. O vitimismo contemporâneo procura a inocência através da acusação perpétua do outro, muitas vezes abstracto. É uma fuga deliberada à maturidade, como que uma escolha pela paralisia confortável do ressentimento ao desconforto da resiliência.

A consequência desta armadilha psicológica reside na total abolição do perdão e da desistência da redenção, conceitos sem os quais nenhuma biografia ou civilização se pode sarar, andar em frente. Ao eternizar o papel de lesado, o indivíduo recusa perdoar os outros — fixando-os perpetuamente na categoria de carrascos — e por consequência recusa perdoar-se a si próprio, preferindo o apego mórbido à sua própria fragilidade. No entanto, o perdão é a única força capaz de quebrar o determinismo do passado e a irreversibilidade da história. Sem a coragem de perdoar o erro alheio e de redimir os próprios fracassos através do esforço transformador, o sujeito condena-se a um purgatório sem saída. A redenção exige acção; o vitimismo apenas exige audiência.

Substituir a liberdade, o perdão e o mérito pela conveniência da autocompaixão pública não expande a justiça; apenas fragmenta o tecido social em tribos em guerra por feridas auto-induzidas. O verdadeiro progresso nasce do resgate do protagonismo individual sobre o caos exterior – para isso Deus nos deu o livre-arbítrio.

Resta ao Ocidente decidir se quer continuar refém desta alienação paranóica contra moinhos de vento ou se recupera a lucidez para enfrentar os seus desafios reais, encontrando no perdão a força para se levantar sem pedir licença ao tribunal do “coitadismo” civilizacional.

Publicado também no Observador

Saturday, May 2, 2026

O Rei Fala, os Pares Saem

Camara dos pares.jpg

Muita gente ficou surpreendida com o discurso do Rei Carlos III no Congresso dos EUA. O que terá causado essa surpresa não foi tanto a pertinência do seu conteúdo — os alertas, as apreensões ou os apartes bem-humorados e eruditos —, mas a liberdade que o mesmo comporta. Uma simples pesquisa permite-nos saber que o discurso foi elaborado pelo Rei e pela sua equipa pessoal, nomeadamente Sir Clive Alderton, seu secretário privado e redactor, em natural sintonia com o governo britânico.

Esta percepção de liberdade confere a Carlos III uma relevância singular: a de um prestígio que provém, precisamente, do poder que o monarca não exerce. Isto faz toda a diferença no confronto com a autoridade de que o governo nem sempre beneficia. O Primeiro-Ministro Keir Starmer jamais seria recebido no Congresso daquela maneira. Foi uma clara demonstração da utilidade da Coroa e de uma legitimidade histórica que poucos Chefes de Estado podem ainda ostentar. Como referia Roger Scruton “as instituições que inspiram lealdade raramente são aquelas que criamos do zero, mas sim aquelas que herdamos”.

Vêm estes parágrafos iniciais a propósito do fim do sistema dos pares hereditários, em vigor há 700 anos no Reino Unido, decretado pelo governo trabalhista em 2024 e que entrou em vigor no passado dia 29 de Abril. Trata-se da maior reforma constitucional britânica numa geração.

A Câmara dos Lordes (ou Câmara dos Pares) actua no sistema bicameral britânico como um contrapeso aos poderes legislativo e executivo. Um pouco como a nossa Presidência da República e o Tribunal Constitucional, as suas funções são a análise e a sugestão de alterações à legislação enviada pela Câmara dos Comuns, o escrutínio do Governo e respectivas medidas — através de debates e comissões de inquérito —, a proposta de legislação e o embargo, mesmo que temporário, de diplomas com que não concorda.

Deste modo, a câmara passa, a partir deste mês, a ser composta apenas por membros nomeados — os pares vitalícios — cujos títulos não passam para os seus herdeiros. Assim, neste mês de Maio, desaparecem desta histórica instituição os últimos 92 membros que ainda a ocupavam em consequência da sua ascendência familiar. O processo de “democratização” foi gradual: começou em 1911 com a perda do poder de veto permanente; em 1958 criaram-se os pares vitalícios, nomeados pelo governo por suposto mérito; em 1999 o governo de Tony Blair expulsou quase todos os pares hereditários, tendo permanecido os 92 agora eliminados.

Percebo que, na vertigem democrática racionalista, seja difícil entender o que está em causa com esta reforma. Mas acontece que um modelo, mesmo que mitigado, da tradicional Câmara dos Pares constituiria um contrapeso mais eficaz ao poder executivo devido à sua independência absoluta face ao patrocínio político-partidário. Ao contrário dos pares vitalícios agora em funções, que devem os seus lugares ao favor do Primeiro-Ministro, os hereditários não possuíam dívidas para com partidos. Afinal de contas, a sua remoção pode, paradoxalmente, enfraquecer a democracia ao permitir que o governo “encha” a câmara alta com aliados seus, retirando-lhe imparcialidade — o que não é de somenos importância num órgão de fiscalização.

A somar a este argumento está o valor da memória institucional e da experiência prática. Os membros hereditários veem-se, frequentemente, focados em questões de longo prazo, como a agricultura ou o ambiente, conferindo uma continuidade geracional que transcende os ciclos eleitorais de quatro anos. Exemplo disso são os valiosos contributos de comissões especializadas, onde a ausência de ambição política permite um escrutínio mais rigoroso e menos mediático.

Por último, do ponto de vista constitucional, a defesa dos tradicionalistas baseia-se na preservação da “constituição prescritiva”. Para estes, a legitimidade britânica nasce do hábito e do precedente; questionar a hereditariedade no Parlamento abre um precedente lógico que, no futuro, poderá ameaçar a própria Monarquia. Esta reforma não democratiza o sistema tanto quanto centraliza o controlo nas mãos do governo. Para os críticos, a qualidade de uma segunda câmara deve ser medida pela eficácia do seu escrutínio e não pela origem burocrática dos seus membros, vendo na diversidade orgânica dos pares hereditários um elemento de legitimidade histórica irreplicável por nomeações de conveniência.

No final, resta-nos a ironia: ao tentar purificar a democracia de um suposto anacronismo, o sistema arrisca-se a criar uma câmara de ecos, povoada por quem deve o cargo à caneta do poder de turno e não ao acaso da biologia. Se o Rei Carlos III pôde falar com tal liberdade e prestígio no Congresso americano é precisamente porque a sua autoridade não depende de uma nomeação política ou de um ciclo de notícias. Ao extinguir os últimos pares hereditários, o Reino Unido abdicou de uma independência que não se compra nem se elege. Resta saber se, ao substituir o “sangue” pela “conveniência”, a democracia britânica ficou mais sólida ou se, simplesmente, ficou mais órfã de quem a ouse contrariar sem medo de perder o lugar.

Em Portugal sabemos bem como funciona o sistema, subjugado à luta partidária, afunilado por uma suposta racionalidade revolucionária que com violência substituiu tradições experimentadas por muitos séculos. Em termos de desenvolvimento humano e económico, os resultados estão à vista.

Publicado também aqui

Cascais, Chaimites, a revolução, e os Genesis

Esta reportagem do saudoso Jorge Lima Barreto de Maio de 1975 publicada na Revista Música & Som aquando da actuação dos Genesis noseu au...