Friday, May 22, 2026

O espelho de Alcácer

O ruído da espuma dos dias nos noticiários cansa-nos, avassala-nos e, não raras vezes, anestesia-nos a alma. Por isso, a nossa primeira reação perante o "massacre" mediático que rodeia o caso dos dois miúdos franceses de 3 e 5 anos, abandonados à beira da estrada para os lados de Alcácer do Sal, pode ser a da saturação. Queremos mudar de canal, fechar o jornal, fugir do horror. No entanto, que este assunto teime em não sair da agenda mediática é, paradoxalmente, um bom sinal por duas razões.

Primeiro, porque a nossa indignação prova que a barbárie ainda nos choca. Num mundo saturado de imagens de violência instantânea, onde a tragédia corre no ecrã do telemóvel à mesma velocidade que o entretenimento mais fútil, o espanto vale como um salvo-conduto moral. Se este abandono brutal continua a ser manchete, se a opinião pública recusa digeri-lo à pressa, é porque tal aberração permanece rara - é contra-natura. O dia em que olharmos com indiferença para duas crianças deixadas à sua sorte numa berma, pelos seus próprios pais, será o dia em que a nossa civilização terá falido definitivamente. O choque que ainda sentimos é o sistema imunitário da nossa decência a funcionar.

Em segundo lugar, este acontecimento, de tão monstruoso, obriga a nossa humanidade a olhar-se ao espelho. Naquela berma alentejana, fomos confrontados com os dois extremos daquilo que somos capazes de ser. Por um lado, espreitámos o abismo, os limites duma crueldade que desafia as leis mais sagradas da natureza e do sangue. Por outro, quase como um milagre que brota do asfalto, fomos também nós salvos pela ternura, pelo comprometimento do padeiro de Monte Novo, que recolheu e acolheu os miúdos entre os seus, e os confortou com a simplicidade duns gelados e brinquedos. E chegou-nos também pela comovente força silenciosa daquele amor fraternal dos dois meninos, logo após o traumático sobressalto: agarrados um ao outro, eles foram a resistência contra o abandono.

No fundo, esta notícia que insistimos em acompanhar já não é apenas sobre um crime ou uma falha parental. Este acontecimento fala, essencialmente, de todos nós. Lembra-nos do pior que habita o ser humano, mas também da beleza que nos salva. 

Thursday, May 21, 2026

O império do vitimismo

 O Ocidente enfrenta uma das suas mais subtis e devastadoras crises culturais: a institucionalização do vitimismo. Se outrora a civilização se erguia sobre a celebração do herói que batalha pelo seu destino, a praça pública contemporânea transformou a vulnerabilidade permanente num valioso (e perverso) capital social e político. Ser uma vítima — de injustiças reais ou de microagressões quotidianas — tornou-se um salvo-conduto moral que isenta o indivíduo do fardo mais pesado da existência: a responsabilidade individual.

Esta mentalidade opera através de uma profunda alienação psicológica e social, onde o indivíduo projecta as suas incapacidades na criação obsessiva de adversários absolutos. Vive-se na vertigem de lutas imaginárias contra inimigos ficcionados — moinhos de vento ideológicos, conspirações sistémicas ou preconceitos invisíveis —, enquanto se ignoram as ameaças reais à nossa segurança e liberdade. Esta fixação em dinâmicas de "nós contra eles" inverte o bom senso: em vez de pacificar a mente, o sujeito é treinado para ver perigo e malícia em cada interacção, alienando-se da realidade concreta.

O erro trágico desta tendência é o desmantelamento da autonomia da vontade face à adversidade. Ao gastar energias a combater inimigos imaginários e traumas do passado, reais ou inventados, abdica-se da liberdade suprema de escolher a própria atitude diante das circunstâncias. O vitimismo contemporâneo procura a inocência através da acusação perpétua do outro, muitas vezes abstracto. É uma fuga deliberada à maturidade, como que uma escolha pela paralisia confortável do ressentimento ao desconforto da resiliência.

A consequência desta armadilha psicológica reside na total abolição do perdão e da desistência da redenção, conceitos sem os quais nenhuma biografia ou civilização se pode sarar, andar em frente. Ao eternizar o papel de lesado, o indivíduo recusa perdoar os outros — fixando-os perpetuamente na categoria de carrascos — e por consequência recusa perdoar-se a si próprio, preferindo o apego mórbido à sua própria fragilidade. No entanto, o perdão é a única força capaz de quebrar o determinismo do passado e a irreversibilidade da história. Sem a coragem de perdoar o erro alheio e de redimir os próprios fracassos através do esforço transformador, o sujeito condena-se a um purgatório sem saída. A redenção exige acção; o vitimismo apenas exige audiência.

Substituir a liberdade, o perdão e o mérito pela conveniência da autocompaixão pública não expande a justiça; apenas fragmenta o tecido social em tribos em guerra por feridas auto-induzidas. O verdadeiro progresso nasce do resgate do protagonismo individual sobre o caos exterior – para isso Deus nos deu o livre-arbítrio.

Resta ao Ocidente decidir se quer continuar refém desta alienação paranóica contra moinhos de vento ou se recupera a lucidez para enfrentar os seus desafios reais, encontrando no perdão a força para se levantar sem pedir licença ao tribunal do “coitadismo” civilizacional.

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Saturday, May 2, 2026

O Rei Fala, os Pares Saem

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Muita gente ficou surpreendida com o discurso do Rei Carlos III no Congresso dos EUA. O que terá causado essa surpresa não foi tanto a pertinência do seu conteúdo — os alertas, as apreensões ou os apartes bem-humorados e eruditos —, mas a liberdade que o mesmo comporta. Uma simples pesquisa permite-nos saber que o discurso foi elaborado pelo Rei e pela sua equipa pessoal, nomeadamente Sir Clive Alderton, seu secretário privado e redactor, em natural sintonia com o governo britânico.

Esta percepção de liberdade confere a Carlos III uma relevância singular: a de um prestígio que provém, precisamente, do poder que o monarca não exerce. Isto faz toda a diferença no confronto com a autoridade de que o governo nem sempre beneficia. O Primeiro-Ministro Keir Starmer jamais seria recebido no Congresso daquela maneira. Foi uma clara demonstração da utilidade da Coroa e de uma legitimidade histórica que poucos Chefes de Estado podem ainda ostentar. Como referia Roger Scruton “as instituições que inspiram lealdade raramente são aquelas que criamos do zero, mas sim aquelas que herdamos”.

Vêm estes parágrafos iniciais a propósito do fim do sistema dos pares hereditários, em vigor há 700 anos no Reino Unido, decretado pelo governo trabalhista em 2024 e que entrou em vigor no passado dia 29 de Abril. Trata-se da maior reforma constitucional britânica numa geração.

A Câmara dos Lordes (ou Câmara dos Pares) actua no sistema bicameral britânico como um contrapeso aos poderes legislativo e executivo. Um pouco como a nossa Presidência da República e o Tribunal Constitucional, as suas funções são a análise e a sugestão de alterações à legislação enviada pela Câmara dos Comuns, o escrutínio do Governo e respectivas medidas — através de debates e comissões de inquérito —, a proposta de legislação e o embargo, mesmo que temporário, de diplomas com que não concorda.

Deste modo, a câmara passa, a partir deste mês, a ser composta apenas por membros nomeados — os pares vitalícios — cujos títulos não passam para os seus herdeiros. Assim, neste mês de Maio, desaparecem desta histórica instituição os últimos 92 membros que ainda a ocupavam em consequência da sua ascendência familiar. O processo de “democratização” foi gradual: começou em 1911 com a perda do poder de veto permanente; em 1958 criaram-se os pares vitalícios, nomeados pelo governo por suposto mérito; em 1999 o governo de Tony Blair expulsou quase todos os pares hereditários, tendo permanecido os 92 agora eliminados.

Percebo que, na vertigem democrática racionalista, seja difícil entender o que está em causa com esta reforma. Mas acontece que um modelo, mesmo que mitigado, da tradicional Câmara dos Pares constituiria um contrapeso mais eficaz ao poder executivo devido à sua independência absoluta face ao patrocínio político-partidário. Ao contrário dos pares vitalícios agora em funções, que devem os seus lugares ao favor do Primeiro-Ministro, os hereditários não possuíam dívidas para com partidos. Afinal de contas, a sua remoção pode, paradoxalmente, enfraquecer a democracia ao permitir que o governo “encha” a câmara alta com aliados seus, retirando-lhe imparcialidade — o que não é de somenos importância num órgão de fiscalização.

A somar a este argumento está o valor da memória institucional e da experiência prática. Os membros hereditários veem-se, frequentemente, focados em questões de longo prazo, como a agricultura ou o ambiente, conferindo uma continuidade geracional que transcende os ciclos eleitorais de quatro anos. Exemplo disso são os valiosos contributos de comissões especializadas, onde a ausência de ambição política permite um escrutínio mais rigoroso e menos mediático.

Por último, do ponto de vista constitucional, a defesa dos tradicionalistas baseia-se na preservação da “constituição prescritiva”. Para estes, a legitimidade britânica nasce do hábito e do precedente; questionar a hereditariedade no Parlamento abre um precedente lógico que, no futuro, poderá ameaçar a própria Monarquia. Esta reforma não democratiza o sistema tanto quanto centraliza o controlo nas mãos do governo. Para os críticos, a qualidade de uma segunda câmara deve ser medida pela eficácia do seu escrutínio e não pela origem burocrática dos seus membros, vendo na diversidade orgânica dos pares hereditários um elemento de legitimidade histórica irreplicável por nomeações de conveniência.

No final, resta-nos a ironia: ao tentar purificar a democracia de um suposto anacronismo, o sistema arrisca-se a criar uma câmara de ecos, povoada por quem deve o cargo à caneta do poder de turno e não ao acaso da biologia. Se o Rei Carlos III pôde falar com tal liberdade e prestígio no Congresso americano é precisamente porque a sua autoridade não depende de uma nomeação política ou de um ciclo de notícias. Ao extinguir os últimos pares hereditários, o Reino Unido abdicou de uma independência que não se compra nem se elege. Resta saber se, ao substituir o “sangue” pela “conveniência”, a democracia britânica ficou mais sólida ou se, simplesmente, ficou mais órfã de quem a ouse contrariar sem medo de perder o lugar.

Em Portugal sabemos bem como funciona o sistema, subjugado à luta partidária, afunilado por uma suposta racionalidade revolucionária que com violência substituiu tradições experimentadas por muitos séculos. Em termos de desenvolvimento humano e económico, os resultados estão à vista.

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Tuesday, April 14, 2026

Esqueletos no armário

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Apenas um curto comentário ao debate entre André Ventura e Pacheco Pereira: Ventura poderia ter ganho a disputa de forma invicta se se tivesse cingido ao argumento de que o 25 de Abril não trouxe apenas cravos e rosas, mas deu lugar ao prenúncio de um regime que seria bem mais repressivo do que o Estado Novo. No auge do PREC, no continente, registaram-se quase dez vezes mais presos políticos do que no final do regime anterior. Além disso, a fazer-se uma comparação que inclua o contexto ultramarino, os presos do Estado Novo teriam de ser comparados com as posteriores detenções e execuções sumárias ordenadas pelos movimentos independentistas durante o processo de descolonização às quais Portugal fechou os olhos e virou as costas.

De resto, não faz sentido Ventura pretender relativizar a malignidade da persistência de uma ditadura face a um sistema parlamentar liberal, com liberdades cívicas, eleições livres e rotatividade no poder sem sangue ou violência. São questões de princípio, não de estatísticas de corrupção ou de outra ordem.

No que diz respeito à questão da corrupção execrada por Ventura (e por toda a gente), convém lembrar que, ao tempo do Estado Novo, o exercício do poder servia para distribuição de cunhas e lugares aos "amigos" — algo que hoje chamamos precisamente de corrupção. Pretender que a corrupção é um fenómeno exclusivo da democracia é um erro: trata-se da natureza humana, e hoje temos muito mais consciência disso do que no tempo de Salazar. Actualmente, o tema já não é tabu; pelo contrário, é profusamente explorado na disputa política e na comunicação social. De nada me consola o facto do ditador nunca ter tirado proveito pessoal directo disso.

Também esteve mal Pacheco Pereira ao relativizar o terrorismo de extrema-esquerda que emergiu em Portugal na democracia; este fenómeno denuncia as suas origens políticas maoistas, ainda não completamente resolvidas. Finalmente, o seu anticolonialismo é pouco menos que infantil. Se ele é um historiador, não o parece: finge desconhecer a emergência da moda do colonialismo em toda a Europa no século XIX, que em Portugal teve particular incidência na 1.ª República. Tal como as restantes nações ocidentais, o nosso país tentou preservar e expandir as suas possessões — lembremo-nos da crise do Mapa Cor-de-Rosa, que deu lugar aos populismos que liquidaram a Monarquia Constitucional. Não há nada que moralizar: o colonialismo foi fruto duma época e os soldados chamados a defenderem as colónias, fosse em Portugal ou em França, foram heróis nacionais.

Concluindo: a virtude deste debate foi o olhar para a história recente de Portugal sem preconceitos ou tabus. Mal anda um regime se, passados 50 anos, ainda receia ver-se ao espelho e necessita de diabolizar o passado para se justificar. Há que tirar definitivamente os esqueletos do armário. 

Thursday, April 9, 2026

O poder da palavra

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Já escrevi sobre este tema aqui mais do que uma vez, mas lá vai ele de novo: um dia destes, numa esplanada, sentou-se um grupo de jovens brasileiras, talvez universitárias. Notei, com algum incómodo, a profusão de palavrões e "alhos" a cada frase, ditos para serem ouvidos sem qualquer pudor. Garantem-me, fora da minha bolha, que o cenário é igual na mesma geração de jovens portugueses, rapazes e raparigas das melhores origens sociais. O linguajar da estiva e da construção civil subiu às universidades e aos gabinetes dos executivos, tal como nas séries americanas.

Já repararam como os diálogos repletos de palavrões, ao pior estilo das prisões, são agora o normal nos filmes mainstream sobre advogados, crime ou política? Até as séries inglesas se converteram à nova moda. Com muita pena minha, o chamado "inglês BBC" caiu definitivamente em desuso e suspeito que hoje seja até malvisto. Favorecem-se os regionalismos, o calão e os palavrões insistentemente repetidos, capazes de fazer corar um tripeiro…

É curioso como, nestes tempos de gente psicologicamente tão sensível, ninguém reclame disto. Parece-me estranho que a vulgaridade se esteja a tornar a norma. Nada contra o calão; não me chocam minimamente os palavrões mais duros, desde que usados em contexto. Eles são uma afirmação de força e possuem propriedades libertadoras quando usados com parcimónia.

Embora o uso do palavrão possa projetar uma imagem imediata de poder e crueza, ele é, na maioria das vezes, uma "força de curto prazo". Com o tempo, o excesso esvazia o sentido da palavra. A verdadeira força talvez resida na capacidade de escolher quando ser rude e quando ser elegante, mantendo o controlo total sobre o impacto que se quer causar.

Houve tempos em que se educavam as pessoas para um vocabulário rico, onde a fala exibia sofisticação e nobreza de sentimentos — era uma forma de elevação social. Numa sociedade que valoriza o polimento, quem fala "grosso" está a dizer: "Eu sou mais forte do que as tuas regras morais". É uma tentativa de demonstrar que se está acima das convenções, o que projeta uma imagem de autonomia e poder bruto.

Acontece que o vernáculo agressivo simplifica o mundo. Em vez de nuances e argumentos complexos, usa-se a força da palavra para intimidar. É uma exibição de força monológica — onde não há espaço para o outro responder. É o "soco na mesa" transformado em vocábulos. Receio que estejamos a assistir passivamente ao nivelamento da linguagem e da sua riqueza; mas por baixo, ao nível da lama.

Talvez que a profusão de palavrões, em determinados contextos, fique vazia de significado e constitua apenas um código de grupo. Entendo que a linguagem deva evoluir, mas gostava que não perdesse a sua função mais nobre: a expressão da riqueza e complexidade humana. Precisamos de uma linguagem que valorize não só a espontaneidade, mas que respeite a essência das palavras pois, no final de contas, a forma como nos expressamos molda a maneira como nos relacionamos com o mundo e uns com os outros. O que está em jogo não é apenas a linguagem, mas a própria comunidade que queremos construir.

O que me parece perigoso não é apenas a anuência acrítica face à vulgaridade, mas a adesão generalizada da indústria do entretenimento que, através da televisão, nos entra pela casa adentro.

Sunday, April 5, 2026

Tempo de gratidão

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Na Semana Santa que por estes dias vivemos, fomos convidados a percorrer simbolicamente o caminho de Jesus Cristo até ao Calvário, impulsionados pela esperança na Luz da Ressurreição, em que acreditamos. Este percurso espiritual é também uma oportunidade para homenagearmos, em modo de Acção de Graças, aqueles que discretamente, num quotidiano sobrecarregado de urgências e aflições, encarnam os valores do Evangelho — os nossos padres, religiosos e religiosas.

Sem ignorar a importância da hierarquia eclesiástica, é no clero diocesano português que ainda hoje se encontra o nosso primeiro porto seguro. São eles que, com simplicidade e inexcedível dedicação, sustentam a vida comunitária e espiritual das paróquias, qual rede invisível de amor que se estende para além das capacidades do Estado e das famílias. Ao contrário do que clama a cultura anticlerical, ou a simples má-língua, o padre é, na comunidade, aquele que conhece os seus paroquianos e pelo nome trata cada pessoa, principalmente a mais vulnerável, praticando uma “mística do encontro” como Jesus ensina. Nada que estranhar: a palavra Padre deriva do latim pater, que significa literalmente “pai”.

Destaco, com admiração, o trabalho incansável de resgate de homens e mulheres vítimas das dependências e outras misérias. Recordo, as casas de acolhimento e recuperação, onde a droga cede espaço à dignidade, e o padre com a inspiração em Cristo e por Amor de Deus, devolve, com ajuda de profissionais, a cada ser humano o protagonismo na reconstrução da sua humanidade plena, como se um obreiro da liberdade se tratasse. Uma batalha infindável e desgastante porque feita de entrega, de derrotas e vitórias, a levantar gente do chão. A salvação desses acontece por um Amor que não está nos romances, porque é de outra espécie. Basta um sucesso para valer a pena.

Um abraço especial aos sacerdotes que, sobrecarregados, são autênticos “pastores da estrada”. Eles percorrem quilómetros e quilómetros por regiões envelhecidas, garantindo que, em aldeias remotas, não falte uma missa, um baptismo, um funeral, ou o conforto da Extrema Unção. Correndo entre paróquias ameaçadas de extinção, ou mesmo na grande urbe, ainda encontram tempo para guiar grupos de movimentos, organizar retiros de casais, de jovens e escuteiros, e oferecer acompanhamento espiritual a quantos o reclamam.

Importa também reconhecer a excelência das escolas católicas que, contra ventos e marés, insistem em formar mentes e corações para o saber e para a liberdade, bem como o testemunho silencioso dos consagrados e consagradas, que são o pulmão de oração da Igreja. O seu compromisso, muitas vezes invisível, sustenta a vida espiritual e educativa das nossas comunidades.

Não esqueçamos as periferias do mundo, onde as congregações missionárias levam a luz do Evangelho aos ambientes mais hostis, marcados pela guerra e pela pobreza radical. Das muitas congregações com diferentes carismas, destaco os Combonianos e Espiritanos, na linha da frente da promoção humana na América Latina ou em África; os Missionários da Boa Nova, congregação portuguesa; os Oblatos Beneditinos e os Salesianos, incansáveis na educação dos jovens na selva laica das nossas cidades; ou os Jesuítas, abrindo sempre novos caminhos na cultura e na justiça social.

Na força feminina da missão, curvo-me perante as Missionárias da Caridade, que acolhem os marginalizados; as Franciscanas, que servem com alegria; as Missionárias de Nossa Senhora de África, construindo pontes de diálogo em terras inóspitas, ou as Irmãzinhas dos Pobres, cuja nobre missão é acolher idosos, “aqueles mais pobres entre os mais pobres”, para um fim de vida com dignidade. Estes são apenas alguns exemplos. Como se pode cumprir esta missão sem inspiração divina?

É assim que eu, homem do mundo, profissional de comunicação, marido e pai de dois filhos e dois enteados, nesta Páscoa quero agradecer a todos vós, que insistis em ser o rosto inspirador de Cristo nesta terra.  O facto é que, contra todas as expectativas e adversidades do tempo, ainda hoje mantêm viva a chama da nossa identidade cristã. Estou grato por nos mostrarem que a Ressurreição é possível e que ela acontece todos os dias através das vossas mãos.

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Fotografia: pormenor da Missa Crismal, cerimónia que reúne todos os anos  na 5a Feira Santa centenas de sacerdotes e religiosos num momento de unidade da Igreja em torno do seu bispo. Daqui

Friday, April 3, 2026

Artemis, sinal de esperança

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Receio que o conflito no Irão não vá acabar exactamente ao gosto de qualquer democrata idealista, num consistente e duradouro projecto de paz para a região, mas não pelas razões comumente apontadas, a imprevisibilidade e desvario das comunicações de Donald Trump. Sim, em defesa das minhas virtudes, tenho a declarar que também sou dos que estranha que tal figurão tenha ascendido a presidente do mais poderoso país do Mundo. O problema é que Trump tem funcionado para a generalidade da opinião pública portuguesa como um foco de luz, que como acontece com as traças, atrai os olhares cegando-os para tudo o mais à volta. Talvez por influência do jornalismo de esquerda e da velha tradição terceiro-mundista dos “não alinhados”, muita gente ainda tem dificuldade de perceber que, apesar dos muitos e complexos problemas que enfrenta, os EUA continuam a ser a terra da liberdade e das oportunidades. Olhem só para os problemas que os sucessivos governos vêm enfrentando com a imigração…

Ora acontece que, como a maior parte dos meus leitores sabem, Trump não é um marinheiro bêbado ao leme dum navio desgarrado. O presidente dos EUA tem poderes limitados devido ao sistema de freios e contrapesos entre os poderes Executivo, Legislativo e Judicial. Além disso, a autonomia dos estados federados também restringe acções presidenciais, pois cada estado controla áreas como educação, saúde e impostos. Para implementar políticas nacionais, o presidente precisa negociar com o Congresso, com o Supremo Tribunal, com governadores e legisladores estaduais, que asseguram a descentralização do poder e o processo democrático.

Quanto à guerra e política internacional Donald Trump também se defronta com bastantes limites. A maior parte dos seus dichotes à entrada ou saída daquele esplêndido helicóptero verde, servem apenas para consumo mediático – um pouco à maneira de Marcelo que era mais inconsequente. Saibam que para decisões importantes na política externa norte americana é necessária aprovação do Congresso, responsável por tratados e sanções. Mais, apesar de ser comandante das Forças Armadas, o presidente depende do Pentágono e do Congresso para definir estratégias e orçamentos militares. Decisões militares são obrigatoriamente partilhadas com conselheiros e há fiscalização constante, de modo a evitarem-se poderes unilaterais.

Onde eu quero chegar é à conclusão de que os EUA, ainda são um país extraordinário. Quem assistiu na noite de um de Abril (até parecia mentira) à partida do foguetão Artemis II rumo à órbita lunar com quatro tripulantes a bordo, tem um sinal nesse sentido.

Senão vejamos: a missão Artemis II tem como objectivo testar a nave Orion no espaço profundo, levando quatro astronautas num voo pela órbita lunar para preparar a alunagem prevista para a missão Artemis IV. A Orion dispõe de um habitáculo mais espaçoso e tecnologias modernas, incluindo computadores mais rápidos e sistemas avançados de suporte de vida. O lançamento é efectuado pelo foguetão SLS, que permite a trajectória directa até à Lua. O projecto destaca-se também por envolver uma forte cooperação internacional, com especial relevo para os Estados Unidos, o Canadá e a ESA (Agência Espacial Europeia), além de empresas como a Lockheed Martin, Boeing, Northrop Grumman, Airbus e Aerojet Rocketdyne. Países como Portugal, o Brasil e o Reino Unido são signatários dos Acordos Artemis. Cada lançamento custa cerca de 4 mil milhões de dólares, enquanto o investimento total está estimado entre 90 e 100 mil milhões.

Quando em 2028, se tudo correr como previsto, a missão Artemis IV pousar na Lua, sendo ou não Donald Trump o presidente dos EUA, estarei em frente à TV a torcer pelo seu sucesso. O mesmo é dizer pelo sucesso desse grande país, terra de liberdade e oportunidades, onde ainda se privilegia a criatividade e empreendedorismo. Apesar de tantas sombras e nuvens negras, e do seu actual presidente.  

 

O espelho de Alcácer

O ruído da espuma dos dias nos noticiários cansa-nos, avassala-nos e, não raras vezes, anestesia-nos a alma. Por isso, a nossa primeira reaç...