(In "O mal sobre a terra - História do grande terramoto de Lisboa", por Mary del Priori - Objectiva 2020)
João Távora
Sunday, September 27, 2026
Ironias da vida
(In "O mal sobre a terra - História do grande terramoto de Lisboa", por Mary del Priori - Objectiva 2020)
Friday, September 25, 2026
Tudo o que gostaria de saber sobre o amor e nunca teve coragem de perguntar
Toda a gente gostava de saber o que é o verdadeiro amor, e eu estou cá para ajudar.
Há dias lia uma reflexão que me ficou a ecoar na mente como
um relógio antigo: o amor exige um desprendimento cirúrgico do ego. Exige
conhecer o outro não pela moldura do Instagram, mas pela textura da pele, pelas
curvas e contracurvas da alma, pelo odor dos dias cinzentos e pelas fraquezas
que guardamos no fundo da gaveta trancada das nossas vaidades. É uma entrega
incondicional, um sacrifício glorioso.
Nestes dias supersónicos, contudo, confunde-se facilmente
uma "relação fantástica" com o amor. É perfeitamente possível manter
um excelente contrato de convivência, recheado de química e conveniência, sem
que haja uma gota de amor real ali dentro. E é precisamente aí que entra o
grande vilão mascarado de herói: o ciúme.
Porque há quem defenda, com uma ingenuidade perigosa, que o
ciúme tempera a relação, que acende o rastilho, que excita, reaviva. Tolice.
Enaltecer o ciúme é o equivalente a celebrar uma discussão violenta só pela
promessa lúbrica da reconciliação que se segue. Patologia danosa. O ciúme não é
tempero; é veneno de acção lenta. É a parte da história onde o amor capitula
perante a proeminência de um umbigo. É o rugido de um predador ferido dentro de
nós, que age como um paliativo existencial que mascara a mortal e gritante
solidão que nos espreita a existência.
David Mourão-Ferreira, com a precisão dos poetas que melhor lêem
as entrelinhas da vida, escreveu que um amor feliz não tem história. Isto dito
num romance é um paradoxo. As grandes histórias da literatura vivem do
obstáculo, do drama, do desencontro. O que seria se Romeu e Julieta tivessem
casado com a bênção das famílias e envelhecido a discutir a decoração da casa
ou o casamento dos filhos?
Mas na vida real de cada um não se quer uma tragédia. E no
fundo, bem no fundo, não ter história é a melhor coisa que nos pode acontecer.
O amor feliz sabota o enredo dramático porque escolhe a paz. A sua história não
se escreve nos picos de febre do ciúme ou nas sensações bombásticas de uma
paixão efémera. Escreve-se no silêncio fecundo do dia a dia. É um amor que não
faz barulho, mas que frutifica numa boa acústica.
No final das contas, o amor que vale a pena não precisa de
efeitos especiais. Basta-lhe a beleza desarmante de dois olhares que se
conhecem por inteiro e que, apesar de todas as curvas e contracurvas do
caminho, decidem manter o rumo. Sem drama, porque a música é boa.
Afinal, não terá sido o romance que veio dar cabo do amor?
Tuesday, September 22, 2026
Reflexões sobre a portugalidade
Negar a identidade católica de Portugal vem sendo uma tarefa ingrata para todos aqueles que o tentam há mais de trezentos anos – e não se entenda identidade como unanimidade, mas como traços genéricos. Com a incerteza duma vida trágica ombro a ombro com a morte, os portugueses, oscilando entre a pobreza e a fortuna, construíram ao longo da História neste recanto periférico da Europa o seu bastião, um porto seguro. Do seu catolicismo, de Jesus Cristo e de Nossa Senhora, colheram a razão de ser da sua persistência na luta contra toda a sorte de adversidades — fossem as tempestades no mar, a fome nos campos ou as epidemias nas cidades. E se o mundo iluminista preferiu apelidar esta profunda religiosidade de ignorância e superstição, enganou-se rotundamente – como se sabe o problema maior veio sempre dos fundamentalistas recém-convertidos à religião da novidade. Quem não acredita em Deus está disposto a acreditar em qualquer coisa.
A velha tese do "atraso português", tantas vezes
alimentada por um olhar estrangeirado e condescendente (quantas vezes imbuído
de sentimentos obscuros de inveja), habituou-nos à caricatura de um país
tacanho, violento, perdido em visões místicas e numa luxúria de sacristia. Esta
imagem satírica e redutora carece, contudo, de uma revisão urgente — uma
abordagem que os nossos historiadores tenderam a desprezar, embrenhados por
demasiado tempo numa miopia ideológica perante as manifestações culturais e
religiosas do seu povo. Felizmente, a historiografia contemporânea, menos
ideológica, mostra sinais de recuo, de reajustamento.
Mais do que alimentar debates estéreis sobre o
subdesenvolvimento crónico do país face à Europa iluminista, o que importa
decifrar é a matriz da nossa coesão nacional. A chave da unidade portuguesa
reside, precisamente, nessa mundividência assente no sobrenatural e na
transcendência. Olhar para o Portugal de outrora obriga-nos a reconhecer a
impossibilidade de separar a esfera religiosa da própria sobrevivência
quotidiana – uma razão de ser. Perante as grandes provações históricas e a
manifestação do trágico, o sobressalto dos portugueses nunca foi apenas
material; foi, acima de tudo, uma batalha espiritual pela dignidade e pela
procura de um propósito existencial.
Quando analisamos os detalhes do quotidiano antigo — os
fragmentos de experiências esquecidas e o pulsar das classes mais humildes e da
antiga aristocracia —, deparamo-nos com uma religiosidade que ultrapassa o
factual. Tratava-se de uma consciência do sagrado que moldava toda a vivência
diária. Esta devoção expressava-se através de rituais, gestos e preces que
funcionavam como um idioma comunitário. Era um mecanismo colectivo de defesa,
uma espécie de terapia espiritual que servia para esconjurar o sofrimento, as
misérias e a imprevisibilidade do mundo terreno.
Nesta comunhão com o divino, esbatem-se as fronteiras
políticas ou as fracturas sociais: ricos e desvalidos fundem-se num mesmo homo
religiosus, como refere Mary del Priore na sua obra sobre o Grande
Terramoto de Lisboa, “O Mal Sobre a Terra” (Objectiva, 2020) que
inspirou este texto. Este é o verdadeiro alicerce da nossa herança cultural. Os
vestígios simbólicos e as dinâmicas sociais da época revelam aquilo que o
Marquês de Pombal, os liberais e os republicanos de 1910 foram incapazes de
antever: a existência de uma densa e inabalável teia de convicções espirituais
que unia a tradição e o povo numa profunda e grata cumplicidade. Ela está
patente por este país fora, gravada há séculos na pedra das igrejas e das
catedrais, dos castelos, solares e casas senhoriais. Tudo muito difícil de
apagar de um dia para o outro.
Daí o rasto de destruição ontológica causado por todas as
vãs tentativas de extrair a religiosidade e o catolicismo do ADN português. Os
resultados foram sempre desastrosos. Cada investida ideológica contra a fé dos
portugueses acabou por ferir a própria carne da Nação.
Resta saber se estamos condenados a ser pastoreados por
catequistas da laicidade e das virtudes do individualismo e do materialismo.
Resistirá, face à crise demográfica, a alma portuguesa que cresceu e persistiu
por quase 900 anos aos desafios dos nossos dias de atomização cultural e
identitária? Desconfio que temos de rezar muito.
Publicado também no Observador
Friday, September 11, 2026
telegrama prioritário
Sou do tempo dos telegramas. Aquelas mensagens ditadas pelo telefone, pagas à palavra e enviadas numa emergência, que um estafeta de bicicleta entregava ao destinatário num curtíssimo espaço de tempo. As notícias más e as importantes sabem-se sempre.
Sou do tempo em que, na recepção do aldeamento turístico
algarvio, os hóspedes faziam bicha depois das oito da noite — quando a tarifa
era mais acessível — para pôr as novidades em dia com algum familiar doente ou
mais ansioso. No resto do tempo, estávamos por nossa conta. O mês de Agosto era
um verdadeiro interregno; até o futebol parava.
Nesses mesmos aldeamentos, no pico do Verão, havia um ritual
matinal sagrado: a recepção enchia-se de empresários e profissionais liberais,
de chinelos e fato de banho, a ligar para o escritório, a recolher recados ou a
ditar respostas para o telex. Só depois, com a mente limpa, iam gozar com a
família as delícias da praia morna.
Sou do tempo em que as pessoas viajavam, desligavam das
rotinas e compravam postais ilustrados. Escreviam-se linhas quentes de amizade
e verdadeira nostalgia a partir de destinos idílicos. As férias davam azo às
saudades.
A internet e os telefones inteligentes acabaram com esta
experiência existencial da pausa, com esta interrupção de um quotidiano que
tantas vezes nos escraviza. Antigamente, por opção, escolhia-se uma salutar
alienação — um desligamento que, à segunda semana, era quase total. Uma
experiência de liberdade inaudita para as gerações de hoje, que vivem agarradas
às redes sociais e ao imediatismo das mensagens. "É como enviar um postal
aos amigos", dizem-me os mais novos sobre as publicações que trocam sem
descanso. Mas eu, que hoje trabalho por conta própria, pagava era para poder
desligar o computador e o telemóvel por quinze dias.
A verdade é que temos saudades do silêncio de uma vida sem
ecrãs. Saudades de ter saudades. De regressar das férias com novidades para contar
aos amigos e curioso pelas notícias da família e da nossa terra — aquelas que
líamos no jornal ou ouvíamos no noticiário das oito, feitas de factos sem demasiado ruído dos comentadores insistentes.
Há muita gente que já não sabe o que isso é.
Wednesday, September 9, 2026
A ignorância é tão atrevida...
Para fechar o dia com chave de ouro, a bancada do Chega brindou-nos com mais uma pateada monumental. É esta a imagem perfeita do "respeito" que nutrem pelas instituições do País.
Outra pergunta: ainda restam monárquicos no Chega?
Saturday, September 5, 2026
O Rei, o Presidente e as regras do Jogo
Tuesday, August 25, 2026
Nobreza e política
É uma verdade desconfortável: o conservadorismo e o liberalismo são ideologias contra-intuitivas. Guiados pelo princípio instrumental da satisfação imediata dos ensejos mais utópicos da populaça, o progressismo e o socialismo ganham sempre a corrida da simpatia e sedução, já dizia o meu pai. Afinal, quem não desejaria um mundo idealizado onde todos acedêssemos, de forma igual, a todos os bens e satisfações? Acontece que este belo impulso é um erro de palmatória económico e humano – o Homem é por natureza insatisfeito, e de facto não somos todos iguais.
Por isso, sempre vi uma nobreza especial na política que em
democracia, com pedagogia e coragem, rema contra a maré do instinto populista.
Há dignidade no governante que assume o fardo de explicar o que parece injusto
numa primeira análise. É preciso coragem para demonstrar que um sistema que
premeia o mérito, estimula a competitividade e tolera a desigualdade material
é, paradoxalmente, o único capaz de gerar a riqueza real que mais tarde poderá
ser redistribuída. Criar riqueza exige rigor; distribuí-la sem critério exige
apenas demagogia e conduz inevitavelmente ao caos.
Qual não é, por isso, o meu espanto quando constato que,
nestes tempos de ruptura e fragmentação, uma certa direita com gente válida,
abdicou do seu papel histórico? Em vez de ensinar e lutar pelos valores da
responsabilidade individual e do equilíbrio fiscal, preferiu cavalgar os
instintos mais básicos do ávido eleitor desinformado. Assiste-se hoje a um
bizarro mimetismo ideológico, onde forças que se dizem de direita se batem por
políticas utópicas de distribuição de privilégios inviáveis, riqueza inexistente.
Prometem-se reduções drásticas de impostos ao mesmo tempo que se exige o
aumento desmedido da despesa pública, além do facilitismo na idade da reforma
num país demograficamente falido - sol na eira e chuva no nabal. Estas medidas
insustentáveis eram, outrora, o território exclusivo da esquerda populista,
cujo objectivo claro era desestruturar o sistema para preparar um assalto
revolucionário ao poder.
O paralelo com esse populismo de esquerda tradicional é para
mim claro. Além da descredibilização metódica das instituições — que o mais das
vezes as próprias não sabem cuidar —, os dois extremos utilizam as contas do
Estado como uma máquina de ficção científica onde a escassez não existe,
mudando apenas o inimigo de estimação. Enquanto a esquerda radical promete
aumentos salariais por decreto financiados por uma taxação irrealista sobre os
poucos ricos que persistem, a nova extrema-direita, encarnada em Portugal pelo
Chega, faz exactamente o mesmo. Promete o aumento imediato de todas as pensões
para o valor do salário mínimo, isenções massivas de IRS e IRC, a concessão de
suplementos e progressões imediatas ao funcionalismo público, auto-estradas
gratuitas e, pasme-se, propostas absurdas de reversão laboral – vale tudo. Se
para a esquerda o pagador imaginário é a banca e “aqueles a quem o dinheiro sobra”,
para o Chega a panaceia é o mítico combate à corrupção e o fim dos subsídios de
reinserção. Embora a corrupção deva ser combatida, a poupança gerada nunca
cobriria este poço sem fundo – se tal fosse viável há muito teria sido
implementado. Ambos os lados recusam a pedagogia orçamental, preferindo a
mentira confortável à realidade dos factos. E acham possível mudar a natureza
humana, o que é ainda mais perigoso.
Ao adoptar esta estratégia, esta direita valida a tese
económica da esquerda que sempre combateu, cometendo a maior das traições ao
rigor liberal e conservador. Será o caos que a extrema-direita pretende? O que
faria se um dia chegasse ao poder? Estará este populismo de sinal trocado
intencionalmente a sabotar as fundações da nossa economia para colher os frutos
políticos dum colapso inevitável?
Precisamos, urgentemente, de resgatar o princípio fundador
da nobreza da política, caso contrário o espectáculo continuará confrangedor. A
verdadeira liderança não se mede pelos aplausos fáceis, “likes” e “views”, ou
pelo aproveitamento cirúrgico do rancor popular. A política nobre é aquela que,
não acreditando no “homem novo”, ousa empreender medidas difíceis, por vezes antipáticas
sem benefícios eleitorais a curto prazo, mas que prometem bons resultados a
médio e longo prazo. É a política que planta árvores cuja sombra o governante
sabe não usufruirá no tempo da sua vida.
Um dia, um amigo meu culto e verdadeiramente reaccionário, no tempo
da geringonça, dizia-me que a direita não sabe conquistar o poder, porque não
sabe utilizar as artimanhas da esquerda, segundo o próprio, a única maneira possível
de governar em democracia. Será esta a verdadeira novidade do Chega?
Não consigo concordar. Sou contra todos os populistas que
cavalgam o descontentamento com agendas obscuras. E fico confortável na utopia
de exigir a coragem da verdade e a pedagogia da responsabilidade – na certeza da
imperfeição humana.
Ironias da vida
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