Thursday, July 2, 2026

A história do Mundo

Expulsa do Éden, a humanidade viu-se outrora escrava dos elementos. Nascemos para a História receosos da criação, desconfiados do próprio olhar, com a consciência de si a erguer-se como o prenúncio de uma tragédia. Foi a necessidade que nos obrigou a interpretar o mundo: olhámos em redor para nos defendermos da violência da natureza, da nossa própria, tentando, a cada passo, iludir tanta precariedade.

Mas nesse esforço de sobrevivência deu-se o milagre. Ao olhar para fora para identificar as ameaças, o Homem descobriu também a Beleza — esse lugar misterioso onde Deus se escondia. Seduzido por esse reflexo do divino, fortificou progressivamente a sua ideia de individualidade. Um sentido de si que o olhar de Cristo consolidaria, mais tarde, na noção de Livre-Arbítrio e na ideia de que cada um é uma criatura singular, divinal e dramática.

Este longo percurso espiritual e estético reflectiu-se, como não podia deixar de ser, na forma como nos expressamos. Da literatura à pintura, passando pela música, testemunhámos a passagem do formalismo medieval para a exacerbação das paixões, dos desejos e das frustrações humanas. Durante séculos, celebrámos a genialidade com que o artista ia submetendo a realidade à sua recriação.

O problema começou quando decapitámos a transcendência. Da recriação artística ao autoconvencimento da supremacia do olhar de cada um sobre a realidade foi um pequeno passo – veio com o domínio da técnica e das ciências. Submetido às emoções e movimentos psicológicos, fixado na sua auto-suficiência, o "eu" arvorou-se num fim em si próprio. E, nesse processo, a beleza e a bondade foram caindo em desuso.

Hoje, já não interessa o que as coisas são, mas sim como cada um as sente. O novo evangelho resume-se a "ir aonde te leva o coração". Desligado dos outros e da História, o indivíduo contemporâneo descarta o compromisso em troca do efémero. Julgamo-nos todos filhos únicos, frutos de uma qualquer geração espontânea onde tudo se relativiza em nome das sensações, de uma "experiência" ou de um estado de espírito passageiro. O Amor transformou-se em auto-estima e noutras balelas psicológicas. A própria Arte, desprovida de exigência ou de busca pela verdade, foi democratizada ao ponto de se confundir com a banalidade. É a "assinatura" esborratada num monumento secular onde se lê, com orgulho analfabeto, um qualquer “All you need is love”. Se tudo é arte, nada o é; se cada opinião ou perspectiva tem o mesmo peso face ao real, a verdade deixa de existir.

Aqui chegados, corremos o risco de definhar à beira do rio: arriscamo-nos a tornarmo-nos narcisos estéreis, hipnotizados ou acabrunhados com o próprio reflexo, enquanto a corrente da História flui vazia. Afinal, a vida são só dois dias e amanhã é o fim do Mundo.

Ou talvez ainda sejamos salvos pela Inteligência Artificial, com o riso de Deus…

(texto reciclado)

Friday, June 26, 2026

Quatro estações


"Havia diante de nós três meses compridos sem prala e sem mudanças. O calor varava a ramada sobre o pátio, e o banco a jardim que lá estava só lhe faltava crepitar e arder. Acho que era por se dar ao resperto como banco e não madeiro velho, que ele não se punha a fumegar. Vinha da mina uma água fria e saborosa, e ela só alegrava a mesa de Verão; o seu gorgolejar na treva de xisto da mina dava uma impressão de calma e abundância."

Agustina Bessa-Luís in "Dicionário Imperfeito".

Dizia-se antigamente que a meteorologia era a arte de prever o tempo depois de ele ter acontecido. Hoje, na era do excesso de comunicação, transformou-se numa filial do drama grego. Bastam dois dias de calor acima da média no centro da Europa para que os ecrãs se inundem de gráficos a vermelho-sangue e termos sonoros como “cúpula de calor” ou “génese de intempérie”. A avaliar pelo tom alarmista dos especialistas de serviço, o cidadão comum deveria trancar-se em casa, cobrir as janelas com papel de alumínio e esperar pelo pior. Chegou-se ao ponto — herança, por certo, de traumas pandémicos mal resolvidos — de sugerir o fecho de escolas por causa dum pico de temperatura. Só uma sociedade anestesiada pelo excesso de conforto e pela fobia do risco se pode dar ao luxo de querer parar a vida produtiva porque o termómetro decidiu lembrar-nos de que estamos no Verão.

Felizmente, a natureza humana ainda é mais forte do que o medo enlatado dos telejornais. O medo vende, promove audiências, sabemos bem. A imagem recente dos parisienses, imunes aos relatórios de salubridade, a refrescarem-se alegremente nas águas do Sena e nos fontanários públicos é o mais belo hino à bonomia. O povo sabe, por puro instinto, que o sol é vida. E entre o sacrifício do calor e o cinzentismo de uma existência enclausurada, a escolha é óbvia – têm é de aprender a nadar. Além disso, para desespero dos profetas da desgraça, o tempo continua a ter a audácia de ser imprevisível: anunciam-se infernos tropicais e acordamos com uma brisa agradável; promete-se a secura de um sol inclemente e para quinta-feira já anuncia a chuva. O tempo, no fundo, continua a gozar connosco — e ainda bem, porque isso faz dele a conversa mais sedutora e emocional dos nossos dias. Reparaste como as noites estão amenas?

Nós, por cá, temos a imensa fortuna de habitar uma geografia temperada, abençoada com quatro estações. Não sofremos a monotonia dos trópicos nem a rigidez dos polos. E depois, vivemos numa gigantesca varanda para um mar imenso, cuja disposição, mansa ou bravia, nos serve de espelho à alma. 

Temos a Primavera, que é um ensaio geral florido e promissor, onde a chuva e o sol se gladiam para anunciar os dias maiores, cada vez maiores. E depois explode o Verão, essa estação luminosa e sensual, onde os corpos perdem a vergonha, os tecidos encolhem e as esplanadas e praias se enchem num hino à frivolidade e às aparências. É um tempo excessivo, sim, mas deliciosamente vital. Mas a beleza do nosso cardápio climático é que a euforia nunca é eterna. O Outono chega sempre a tempo de nos recolher, acalmar para os deveres, preparando-nos para o fechamento que o Inverno exige. É na recolha do frio e das chuvas persistentes que a rotina produtiva se reorganiza — nas escolas, nas fábricas, nos escritórios. Sem excessos de distracções da rua, encamisolados, bem atabafados, somos empurrados para o interior, para uma introspecção necessária – o exterior já não brilha tanto. O Inverno é a democracia para os corpos desavergonhados da praia. É então que a tristeza que às vezes nos espreita de dentro (ou simplesmente o tédio), indisfarçável, não é um defeito de fabrico; é o solo fértil onde cresce a intimidade, a reflexão e o conhecimento. 

Os portugueses terão, por certo, imensos defeitos, e o nosso território não será o mais rico ou produtivo, antes pelo contrário. Mas temos a felicidade desta diversidade meteorológica, que as alterações climáticas não conseguem aplanar. O saldo joga sempre a nosso favor. Que venham as cúpulas de calor, os rios atmosféricos, as bicas de água e os dias cinzentos: enquanto houver quatro estações, haverá sempre uma razão para celebrar a vida na nossa varanda à beira-mar. 

Quanto ao mais, a cada dia basta o seu cuidado.

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Imagem, daqui

Friday, June 19, 2026

A estagnação como sina


Os festejos das esquerdas e dos sindicalistas jurássicos (desculpem-me o pleonasmo) nas galerias do parlamento, celebrando a derrota da reforma laboral do governo em comunhão com o Chega, são o retrato da maldição deste país e da falência do regime. Ventura deve ter rapado os últimos votos aos comunistas em Setúbal e no Alentejo e, de facto, protagonizou uma vitória, como se a política fosse uma corrida de cavalos. Parabéns à prima: tratou-se de uma humilhação ao PSD — afinal, um bando de salafrários que quer ver o povo explorado pelos patrões e malignos empresários — que fica assim sem narrativa para o Congresso deste fim de semana. Rejubilem as esquerdas e os jornalistas (desculpem-me o pleonasmo), nas tintas para a teimosa pobreza deste país. Os jovens — e os menos jovens — com ambições e formação continuarão a desistir de Portugal, emigrando à procura de uma vida melhor; por cá, continuarão os pobres imigrantes a servir às mesas e a guiar tuk-tuks. 

Tenho imensa pena pelos meus filhos… mas temos aquilo que merecemos.

Wednesday, June 17, 2026

O caso das bandeiras (outra vez)


A devolução ao Parlamento, sem promulgação, do decreto sobre as regras de utilização de bandeiras em edifícios públicos, pelo Presidente da República, António José Seguro, deve levar-nos a reflectir. Nada como fazê-lo num dia em que joga a Selecção.

Num tempo em que a coesão social europeia está sob ameaça — devido à difícil integração dos imigrantes, à complexidade do controlo dos fluxos migratórios e a uma profunda crise demográfica —, os símbolos nacionais e os valores culturais e religiosos que contrariem a fragmentação e sustentem o nosso chão comum tornam-se ainda ainda mais prementes.

O decreto aprovado pela AD seguia precisamente essa orientação. Importa salvaguardar a “sacralidade” desses espaços públicos, assegurando que as bandeiras aí hasteadas se limitem a uma simbologia agregadora e unificadora — como, por natureza, se espera de uma bandeira nacional. Dar lugar, nesses edifícios, a bandeiras de “causas”, intrinsecamente sectárias ou partidárias, por mais legítimas que se apresentem, seria mais um erro a somar ao relativismo que expõe a cultura ocidental à fragmentação e ao excesso de “diversidade”.

Ontem à noite, num debate na SIC Notícias, Ricardo Costa — com a sua habitual tendência para monopolizar a conversa e interromper o interlocutor — confrontou Pedro Gomes Sanches com a ideia de que também a própria bandeira da República é profundamente sectária na sua origem. É uma tese que me atrai, confesso, mas não me convence. Mantenho, de facto, uma relação ambígua com o pavilhão que emergiu da revolução de 5 de Outubro: admito que, nos primeiros anos, o hastear da bandeira verde-rubra inspirada na da Carbonária tenha parecido uma provocação para a maioria dos portugueses. Com o tempo, porém, eu próprio acabei por assimilar aquela fealdade e, hoje, reconheço a simbologia que a bandeira adquiriu ao longo do último século. Como dizia o meu pai, foram muitos os portugueses que morreram a defendê-la, por mais ilegítimo e inestético que tenha sido o seu processo inicial de imposição.

O facto incontornável é que essa bandeira é hoje unanimemente aceite como bandeira nacional. Quem, como eu, não aprecia a sua estética tem uma solução simples: fixar o olhar nas armas, ao centro da esfera armilar. Ali está contada a nossa História — o elemento fundamental do chão comum de que uma comunidade precisa para funcionar e ser bem-sucedida. É essa História que assegura aos forasteiros que nos procuram que chegam a um lugar distinto, com condições culturais e materiais diferentes daquelas de onde partiram.

Por isso, é preocupante a ingenuidade — ou a má-fé — de quem considera estes assuntos menores e entende ser indiferente hastear a bandeira nacional ou a bandeira arco-íris na varanda de uma câmara municipal ou de um parlamento.

Friday, June 12, 2026

Bola, e bolhas


Ao ler tantos comentários maldispostos que o algoritmo da minha bolha me fornece, quase me sinto um autêntico troglodita (culpado!) por me deixar envolver com este fabuloso espectáculo que, por certo, vai ser o Campeonato do Mundo de Futebol da FIFA — torneio que este ano se joga no Canadá, México e EUA. É que eu espero ver quantos jogos puder… Não tenho perdão!

Junho é a altura do ano de que mais gosto. Tempo que soa a expectativas de um Verão prometedor, não sei bem do quê. Este sentimento deve ter reminiscências dos meus tempos de juvenil estudante. O gosto ficou, e é mais intenso com este ambiente de euforia dos Santos Populares, com cheiro a farturas e a sardinhas assadas, que já não frequento. Sobra o Mundial de Futebol, com três semanas de jogos a toda a hora, casos, casinhos, jogadas, golos esquisitos e a esperança não assumida de que a selecção portuguesa ganhe o caneco. E que o Ronaldo retorne, finalmente, em ombros. Coisas fúteis.

E depois há aquele sentimento de comunhão nacional (ou será global?) que, de repente, nos faz sentir parte de um interesse comum… da humanidade. Mesmo nestes tempos de polarização, de fragmentação das redes que estão a destronar a velha televisão. Vejam o lado bom: nas notícias teremos alternativa ao Trump ou ao Ventura. Outros poderão dedicar a sua mui estimada embirração aos tirânicos adeptos do futebol.

Claro que, perante tamanha “unanimidade”, surge uma dissidência na mesma medida: a daqueles que se afirmam – e são – diferentes. Qualquer coisa serve para alimentar uma animosidade inconsequente que nos faça sentir vivos – é da natureza humana. Talvez com receio da diluição, que é o que acontece às mentes fracas. É nestas alturas, quando decorrem fenómenos de massas e de grande mediatização como o Mundial, que se levanta um coro de lamentos e vitupérios contra o “ruído” reinante. Os “diferentes” insurgem-se revoltados contra o desporto-rei. Um amargo desdém vem ao de cima, inconformado, nas mais díspares e exóticas personalidades: “Eu não gosto de futebol”, afirmam arrogantemente. Ouvem-se os mais desconcertantes comentários, do tipo: “O meu Jorginho, graças a Deus, só gosta de râguebi”; ou “Em Junho vou emigrar para as Ilhas Selvagens com a minha colecção de DVDs do John Ford e a Paixão segundo São Mateus, de Bach” (posso emprestar-lhe a minha gravação, mas é em vinil).

Gostar de futebol não ocupa espaço nem define uma pessoa. Podemos gostar de muitas outras coisas, cultivar outros interesses. Podemos até gostar e tentar compreender aqueles que não gostam de futebol — que terão de fintar as conversas e notícias que não querem saber. O algoritmo das plataformas e os 300 canais na televisão por cabo cuidarão de uma bolha digna dessas almas minoritárias, cerceadas, vilmente oprimidas, estou certo. Cada um na sua.

Imagem: roubada ao Expresso Revista

Wednesday, June 10, 2026

O provincianismo que nos tolhe


Garantem-me que Portugal é um país com quase nove séculos de História, mas quem olhar para a forma como comunicamos os nossos símbolos diria que nascemos todos ontem (a nossa bandeira, senhores, o que lhe fizeram!).  Sofremos, colectivamente, de um estranho "complexo de Adão": uma vertigem parola que nos impele a apagar o passado, a refundar o que já funcionava e a rebaptizar instituições antigas com a leveza de quem muda de camisa. Tudo isto, claro, em nome de uma suposta "modernidade" e da tirania da "identidade de marca", que — pelo que adivinho — dá dinheiro a ganhar a muita gente. Veja-se quando um novo governo decide reinventar a sua identidade de marca, que devia ser, simplesmente, o escudo da nossa bandeira.

Lembrei-me disto a propósito duma anunciada nova — ou será outra vez a mesma? — mudança de identidade de marca do Sporting Clube de Portugal, que é o meu clube. Há um provincianismo gritante nesta pressa "portuguesinha" de querer redesenhar o que é “sagrado”. Já no início do século, ao tempo da presidência de José Roquette, a ânsia de cosmética visual não correu muito bem. Resta esperar que, desta vez, impere o bom senso e se dite o regresso à imagem clássica, afinal aquela que consta, e bem, no coração do emblema: o leão rampante.

Curioso é constatar como esta nossa pressa em rasgar a herança gráfica contrasta violentamente com a sobriedade de outras paragens. Na leitura de As Vantagens do Pessimismo, do filósofo britânico Roger Scruton, saltou-me à vista a longevidade da High Wycombe Royal Grammar School, a escola secundária pública e gratuita frequentada pelo autor, fundada em 1542. Quase quinhentos anos no mesmo sítio, com o mesmo propósito. Se fizermos uma pesquisa rápida pelas ilhas britânicas, percebemos que o Banco Barclays e a sua mítica águia operam desde 1690. O prestigiado semanário londrino The Spectator dita tendências desde 1711. Lá, os símbolos contam uma história de resiliência; cá, contam uma história de amnésia.

A resiliência das marcas e dos seus símbolos reflecte muito sobre a comunidade de onde emanam. É irónico que a bandeira de uma nação tão antiga como a nossa tenha pouco mais de cem anos. É igualmente caricato que a nossa rádio pública, nascida em 1935 como Emissora Nacional, já tenha mudado de nome, de logotipo e de "foco estratégico" vezes sem conta até desaguar na actual "Antena 1". Em Portugal muda-se o boneco para fingir que se muda a substância. Os portugueses não resistem a três tentações na ânsia de deixarem marca numa instituição por onde passem: inaugurar uma obra de construção civil, mudar os estatutos da associação e... fazer um rebranding — se possível criado pela sobrinha que é designer e tem muito jeito.

Os gestores contemporâneos parecem esquecer que uma marca antiga possui, só por si, uma incalculável vantagem competitiva no mercado saturado da comunicação. Citando de novo Roger Scruton, “as instituições que inspiram lealdade raramente são aquelas que criamos do zero, mas sim aquelas que herdamos”. O património simbólico não é um fardo velho; é um escudo. É História viva. E a História respeita-se, não se reinventa ou adultera com maquilhagem.

Friday, June 5, 2026

Cascais, Chaimites, a revolução, e os Genesis


Esta reportagem do saudoso Jorge Lima Barreto de Maio de 1975 publicada na Revista Música & Som aquando da actuação dos Genesis noseu auge com a apresentação integral do álbum The Lamb Lies Down on Broadway em cascais em pleno PREC é uma delícia: “A luta à droga faz-se na prática revolucionária e não na perseguição paranóica da polícia.”

Ora leiam esta peça de museu: 

GENESIS EM CASCAIS

A recente vinda do grupo «Genesis» a Portugal foi, indubitavelmente, o melhor e maior acontecimento de música pop no nosso país.

Anteriormente apenas tinham vindo escórias de música ligeira aparentada com a pop e apresentadas como sendo produtos válidos internacionalmente. Desta vez, porém, a Organização trouxe da autêntica pop.

Como tal o espectáculo foi inédito. Porque revelou um novo sistema de actuação, porque instruiu sobre o mercado da pop e porque se desenrolou musicalmente impecável.

No primeiro aspecto: novo sistema de actuação: o grupo Genesis procurou, dentro de conceitos gerais de pop-art, sistematizar o espectáculo musical com novas estruturas: o ritual de Peter Gabriel (os seus gestos paradigmáticos, os seus fatos fantásticos, a sua mise-en-scène dionisíaca: movimentos dum solista de bailado exótico, referenciado a mundos fabulosos da droga: mitologias ingénuas, inovações Kitsch, mas sempre autenticamente pop.

O cenário era feérico: luzes estroboscópicas em permanente alteração cromática, projecção de slides (isto sim: a selecção era do melhor gosto, as fotos de nível inatacável, a oportunidade da sua projecção sobre três panos digna dum verdadeiro artista).

Os movimentos lumino-dinâmicos sempre num complemento rigoroso do desenvolvimento musical.

Explosões de granadas de luz, mudança fenomenal de cenários, contaminação psicadélica, mas:

Segundo aspecto: o mercado pop:

O grupo actuou para vender o seu novo LP, os Genesis mostraram aderir alienadamente à especulação bárbara dos produtores discográficos, à loucura capitalista da reprodução mercantil — e isto sem contestação: nada no seu show indicava a mínima revolta contra este estado de coisas. Os Genesis cumpriram tudo o que uma sociedade burguesa esperava deles: divertir, alienar, dar-nos prazer idealista, para isso:

Terceiro aspecto: a sua actuação musical foi, como disse, esmerada: técnicos hábeis, de melodias cativantes, histórias genuínas no panorama da pop-art, sem qualquer erro a imputar-lhes: o que a repetição exaustiva comprovou tratar-se de produto duma estrutura tecnocrática: mercado para consumir. Se bem que perguntemos: a música não serve afinal, e apenas, o prazer? Não nos deram os Genesis um imenso prazer? Um aspecto suplementar deste concerto. Mostrou como 20 mil jovens da classe média e/ou trabalhadora preferem música a mixórdias sonoras que as opressões políticas pretendem inculcar. Vimos como era insustentável a qualquer vedeta da «pop» baladeira nacional apresentar-se àquele público.

É que na Arte a qualidade é primordial. Outro erro calamitoso de certo controle opressivo que os partidos pretendem fazer é o da imprensa:

Os diários lisboetas diziam: «Onda de violência em Cascais, Um soldado morto, Destruição no recinto» — tudo mentira, falsidade, blasfémia. Que os politiqueiros não gostem de música é uma coisa, mas deturpar as notícias é típico do fascismo.

O soldado morreu de acidente de viação próximo de Cascais. Não houve uma única cena de violência no pavilhão: as cadeiras partiram-se porque 10 mil pessoas por noite não cabiam no recinto: eram elas ou as cadeiras (a propósito: porque não se acaba de vez com as cadeiras, os lugares marcados, a discriminação de bilhetes?) — o público senta-se no chão à medida que entra.

Outra novidade era: a droga. Talvez existisse, mas se existia qual é o moralista da judiciária que pode combater tal facto? A droga existe porque as condições sociais assim o permitem e facultam — não é a repressão judiciária (à maneira fascista) que inverte esta situação — bem pelo contrário.

A luta à droga faz-se na prática revolucionária e não na perseguição paranóica da polícia.

De resto havia os tanques e os carros de assalto à volta do recinto que «garantiam» a melhor «ordem».

O aparato militar conciliou-se perfeitamente com o pacifismo dos espectadores. Uma lição: a boa música pop é inofensiva e não provoca distúrbios. Os militares presentes em Cascais podem testemunhá-lo.

É absolutamente útil e desopilante a continuação deste tipo de espectáculos. A Arte e a Liberdade são os melhores amigos...

J. L. Barreto

A história do Mundo

Expulsa do Éden, a humanidade viu-se outrora escrava dos elementos. Nascemos para a História receosos da criação, desconfiados do próprio ol...