Sunday, September 27, 2026

Ironias da vida


Após o terramoto, com Lisboa de pantanas ainda a cheirar a queimado, o ambiente político e social degradava-se de dia para dia, pesado. Pombal, implacável, cortava a direito qualquer sombra de insurreição e com o mesmo vigor aplacava quem lhe fizesse frente nos meios da corte. É nesse contexto que " (...) O descontentamento com os membros da Companhia de Jesus logo iria somar-se ao ódio de fidalgos da Corte, onde corria a seguinte anedota: D. José, pasmado diante da assombrosa actividade de Pombal comentara com um fidalgo sobre o facto de a providência divina lhe ter poupado a vida e a residência na Rua Formosa. A resposta veio fulminante: Também as casas da Rua Suja (a das meretrizes) ficaram de pé." 

(In "O mal sobre a terra - História do grande terramoto de Lisboa", por Mary del Priori - Objectiva 2020)

Friday, September 25, 2026

Tudo o que gostaria de saber sobre o amor e nunca teve coragem de perguntar


Toda a gente gostava de saber o que é o verdadeiro amor, e eu estou cá para ajudar. 

Escrevemos sobre o amor como quem descreve um filme de Hollywood. Queremos a banda sonora em surround 5.1, as reviravoltas no argumento, as portas batidas a meio da noite e as pazes feitas sob uma chuva torrencial. Há quem confunda a vertigem da montanha-russa com a profundidade do sentimento. Mas o verdadeiro amor é para audiófilos e melómanos exigentes: tem uma acústica discreta, cheia de subtilezas. Não precisa de pólvora seca. Carece, isso sim, de tempo, de conhecimento para crescer.

Há dias lia uma reflexão que me ficou a ecoar na mente como um relógio antigo: o amor exige um desprendimento cirúrgico do ego. Exige conhecer o outro não pela moldura do Instagram, mas pela textura da pele, pelas curvas e contracurvas da alma, pelo odor dos dias cinzentos e pelas fraquezas que guardamos no fundo da gaveta trancada das nossas vaidades. É uma entrega incondicional, um sacrifício glorioso.

Nestes dias supersónicos, contudo, confunde-se facilmente uma "relação fantástica" com o amor. É perfeitamente possível manter um excelente contrato de convivência, recheado de química e conveniência, sem que haja uma gota de amor real ali dentro. E é precisamente aí que entra o grande vilão mascarado de herói: o ciúme.

Porque há quem defenda, com uma ingenuidade perigosa, que o ciúme tempera a relação, que acende o rastilho, que excita, reaviva. Tolice. Enaltecer o ciúme é o equivalente a celebrar uma discussão violenta só pela promessa lúbrica da reconciliação que se segue. Patologia danosa. O ciúme não é tempero; é veneno de acção lenta. É a parte da história onde o amor capitula perante a proeminência de um umbigo. É o rugido de um predador ferido dentro de nós, que age como um paliativo existencial que mascara a mortal e gritante solidão que nos espreita a existência.

David Mourão-Ferreira, com a precisão dos poetas que melhor lêem as entrelinhas da vida, escreveu que um amor feliz não tem história. Isto dito num romance é um paradoxo. As grandes histórias da literatura vivem do obstáculo, do drama, do desencontro. O que seria se Romeu e Julieta tivessem casado com a bênção das famílias e envelhecido a discutir a decoração da casa ou o casamento dos filhos?

Mas na vida real de cada um não se quer uma tragédia. E no fundo, bem no fundo, não ter história é a melhor coisa que nos pode acontecer. O amor feliz sabota o enredo dramático porque escolhe a paz. A sua história não se escreve nos picos de febre do ciúme ou nas sensações bombásticas de uma paixão efémera. Escreve-se no silêncio fecundo do dia a dia. É um amor que não faz barulho, mas que frutifica numa boa acústica.

No final das contas, o amor que vale a pena não precisa de efeitos especiais. Basta-lhe a beleza desarmante de dois olhares que se conhecem por inteiro e que, apesar de todas as curvas e contracurvas do caminho, decidem manter o rumo. Sem drama, porque a música é boa.

Afinal, não terá sido o romance que veio dar cabo do amor?

Tuesday, September 22, 2026

Reflexões sobre a portugalidade

Negar a identidade católica de Portugal vem sendo uma tarefa ingrata para todos aqueles que o tentam há mais de trezentos anos – e não se entenda identidade como unanimidade, mas como traços genéricos. Com a incerteza duma vida trágica ombro a ombro com a morte, os portugueses, oscilando entre a pobreza e a fortuna, construíram ao longo da História neste recanto periférico da Europa o seu bastião, um porto seguro. Do seu catolicismo, de Jesus Cristo e de Nossa Senhora, colheram a razão de ser da sua persistência na luta contra toda a sorte de adversidades — fossem as tempestades no mar, a fome nos campos ou as epidemias nas cidades. E se o mundo iluminista preferiu apelidar esta profunda religiosidade de ignorância e superstição, enganou-se rotundamente – como se sabe o problema maior veio sempre dos fundamentalistas recém-convertidos à religião da novidade. Quem não acredita em Deus está disposto a acreditar em qualquer coisa.

A velha tese do "atraso português", tantas vezes alimentada por um olhar estrangeirado e condescendente (quantas vezes imbuído de sentimentos obscuros de inveja), habituou-nos à caricatura de um país tacanho, violento, perdido em visões místicas e numa luxúria de sacristia. Esta imagem satírica e redutora carece, contudo, de uma revisão urgente — uma abordagem que os nossos historiadores tenderam a desprezar, embrenhados por demasiado tempo numa miopia ideológica perante as manifestações culturais e religiosas do seu povo. Felizmente, a historiografia contemporânea, menos ideológica, mostra sinais de recuo, de reajustamento.

Mais do que alimentar debates estéreis sobre o subdesenvolvimento crónico do país face à Europa iluminista, o que importa decifrar é a matriz da nossa coesão nacional. A chave da unidade portuguesa reside, precisamente, nessa mundividência assente no sobrenatural e na transcendência. Olhar para o Portugal de outrora obriga-nos a reconhecer a impossibilidade de separar a esfera religiosa da própria sobrevivência quotidiana – uma razão de ser. Perante as grandes provações históricas e a manifestação do trágico, o sobressalto dos portugueses nunca foi apenas material; foi, acima de tudo, uma batalha espiritual pela dignidade e pela procura de um propósito existencial.

Quando analisamos os detalhes do quotidiano antigo — os fragmentos de experiências esquecidas e o pulsar das classes mais humildes e da antiga aristocracia —, deparamo-nos com uma religiosidade que ultrapassa o factual. Tratava-se de uma consciência do sagrado que moldava toda a vivência diária. Esta devoção expressava-se através de rituais, gestos e preces que funcionavam como um idioma comunitário. Era um mecanismo colectivo de defesa, uma espécie de terapia espiritual que servia para esconjurar o sofrimento, as misérias e a imprevisibilidade do mundo terreno.

Nesta comunhão com o divino, esbatem-se as fronteiras políticas ou as fracturas sociais: ricos e desvalidos fundem-se num mesmo homo religiosus, como refere Mary del Priore na sua obra sobre o Grande Terramoto de Lisboa, “O Mal Sobre a Terra” (Objectiva, 2020) que inspirou este texto. Este é o verdadeiro alicerce da nossa herança cultural. Os vestígios simbólicos e as dinâmicas sociais da época revelam aquilo que o Marquês de Pombal, os liberais e os republicanos de 1910 foram incapazes de antever: a existência de uma densa e inabalável teia de convicções espirituais que unia a tradição e o povo numa profunda e grata cumplicidade. Ela está patente por este país fora, gravada há séculos na pedra das igrejas e das catedrais, dos castelos, solares e casas senhoriais. Tudo muito difícil de apagar de um dia para o outro.

Daí o rasto de destruição ontológica causado por todas as vãs tentativas de extrair a religiosidade e o catolicismo do ADN português. Os resultados foram sempre desastrosos. Cada investida ideológica contra a fé dos portugueses acabou por ferir a própria carne da Nação.

Resta saber se estamos condenados a ser pastoreados por catequistas da laicidade e das virtudes do individualismo e do materialismo. Resistirá, face à crise demográfica, a alma portuguesa que cresceu e persistiu por quase 900 anos aos desafios dos nossos dias de atomização cultural e identitária? Desconfio que temos de rezar muito.

Publicado também no Observador

Friday, September 11, 2026

telegrama prioritário


Sou do tempo dos telegramas. Aquelas mensagens ditadas pelo telefone, pagas à palavra e enviadas numa emergência, que um estafeta de bicicleta entregava ao destinatário num curtíssimo espaço de tempo. As notícias más e as importantes sabem-se sempre.

Sou do tempo em que, na recepção do aldeamento turístico algarvio, os hóspedes faziam bicha depois das oito da noite — quando a tarifa era mais acessível — para pôr as novidades em dia com algum familiar doente ou mais ansioso. No resto do tempo, estávamos por nossa conta. O mês de Agosto era um verdadeiro interregno; até o futebol parava.

Nesses mesmos aldeamentos, no pico do Verão, havia um ritual matinal sagrado: a recepção enchia-se de empresários e profissionais liberais, de chinelos e fato de banho, a ligar para o escritório, a recolher recados ou a ditar respostas para o telex. Só depois, com a mente limpa, iam gozar com a família as delícias da praia morna.

Sou do tempo em que as pessoas viajavam, desligavam das rotinas e compravam postais ilustrados. Escreviam-se linhas quentes de amizade e verdadeira nostalgia a partir de destinos idílicos. As férias davam azo às saudades.

A internet e os telefones inteligentes acabaram com esta experiência existencial da pausa, com esta interrupção de um quotidiano que tantas vezes nos escraviza. Antigamente, por opção, escolhia-se uma salutar alienação — um desligamento que, à segunda semana, era quase total. Uma experiência de liberdade inaudita para as gerações de hoje, que vivem agarradas às redes sociais e ao imediatismo das mensagens. "É como enviar um postal aos amigos", dizem-me os mais novos sobre as publicações que trocam sem descanso. Mas eu, que hoje trabalho por conta própria, pagava era para poder desligar o computador e o telemóvel por quinze dias.

A verdade é que temos saudades do silêncio de uma vida sem ecrãs. Saudades de ter saudades. De regressar das férias com novidades para contar aos amigos e curioso pelas notícias da família e da nossa terra — aquelas que líamos no jornal ou ouvíamos no noticiário das oito, feitas de factos sem demasiado ruído dos comentadores insistentes.

Há muita gente que já não sabe o que isso é.

Wednesday, September 9, 2026

A ignorância é tão atrevida...

É absolutamente espantoso André Ventura ter usado ontem, no debate da sua Moção de Censura, como “bom exemplo” a Revolução Puritana de Oliver Cromwell (o célebre episódio de 1653), elogiando a ideia de que, naquele momento, "houve quem tivesse entrado no Parlamento e dito: 'Basta'".

Será que Ventura sabe como termina essa história? A "solução" de Cromwell passou pela execução do rei Carlos I e por um massacre brutal. O líder da revolução acabou por se autopromover a "Lorde Protector", instaurando a república, uma ditadura feroz. Essa carnificina serviu, afinal, como uma eficaz vacina da própria Inglaterra contra futuras derivas republicanas e revolucionárias – ao contrário de nós, portugueses, que tanto gostamos de viver na corda bamba.

Para fechar o dia com chave de ouro, a bancada do Chega brindou-nos com mais uma pateada monumental. É esta a imagem perfeita do "respeito" que nutrem pelas instituições do País.

Outra pergunta: ainda restam monárquicos no Chega?

Saturday, September 5, 2026

O Rei, o Presidente e as regras do Jogo


As declarações de Pedro Sánchez a 31 de Agosto de 2026, no programa Hoy por Hoy da Cadena SER, provocaram um abalo político em Espanha. Ao confrontar o papel do rei Felipe VI face à crise migratória em Ceuta, o Presidente do Governo espanhol gerou uma avalanche de reacções que dividiram profundamente o país e expuseram uma crise institucional sem precedentes. Truques de baixa política que são o seu timbre. 

 Ora acontece que, pela Constituição espanhola, o rei não tem autonomia de iniciativa política para visitar Ceuta ou Melilla sem que o próprio governo autorize ou convide. Consta que foi o próprio executivo de Sánchez que travou visitas anteriores por forma a evitar melindre diplomático com o rei de Marrocos. Para adensar o ridículo do golpe político, Sánchez cometeu uma ruidosa gaffe factual em directo ao afirmar que Felipe VI “reina há mais de 20 anos” — quando o monarca subiu ao trono em 2014 —, numa tentativa desesperada de empolar a alegada “ausência” do rei. 

Mais grave, Sánchez usou o rei como aríete para assaltar a Zarzuela; atacou a coroa para alijar responsabilidades e desviar as atenções da sua própria gestão da crise migratória em Ceuta, quebrando uma convenção do regime. Tratou-se de um inopinado e perigoso precedente, como referiu na passada segunda-feira Miguel Morgado no seu programa de comentário na SIC Notícias. 

Como refere o editorial do jornal espanhol ABC do dia 31 de Agosto: “Sánchez recorre a uma comparação totalmente imprópria com Felipe VI para sacudir as suas próprias responsabilidades na crise de Ceuta. É um erro profundo e uma instrumentalização inaceitável da Chefia do Estado.” Pelo respeito à neutralidade institucional histórica da Coroa espanhola, não houve comunicados públicos de resposta. No entanto, o impacto terá sido significativo: no dia seguinte à entrevista, Sánchez e o rei Felipe VI mantiveram um encontro invulgarmente longo de mais de três horas no Palácio Real.

Curioso é como no nosso regime semipresidencialista, o comentariado e os jornalistas não se cansam de reclamar a intrusão do Chefe de Estado nos assuntos de governança do país. Ninguém descansa enquanto Seguro não der um ralhete público ao Primeiro-Ministro para que ele despeça o Ministro da Administração Interna. Entende-se: são os casos, quanto mais dramáticos melhor, que animam os debates e comentariado político, conteúdos tão sensacionais quanto baratos dos nossos media, que têm de ter drama 24 horas por dia. 

Sabemos muito bem das diferenças constitucionais e estéticas dos regimes dos nossos dois países, com realidades e fragilidades distintas. Sabemos muito bem que o nosso Presidente da República, tendo sido eleito pelo voto popular, possui prerrogativas que um rei não poderia reclamar. Lembrem-se como Jorge Sampaio “demitiu” o executivo de Santana Lopes, num inusitado conflito institucional. Ou imagine-se como teria sido se, nas eleições presidenciais de 2011, com o país em pleno resgate, Manuel Alegre as tivesse ganho. A nossa república semipresidencialista contém em si uma bomba-relógio, que um dia, provavelmente numa conjuntura pouco conveniente, pode explodir. 

Não tenho simpatia nenhuma por António José Seguro nem pela sua família política, menos ainda pela instituição que representa. Mas acho muito bem, e aqui deixo o meu aplauso, a sua contenção e silêncio. O Chefe de Estado deve afirmar-se como reserva do seu povo (todo), e evitar até ao limite a intromissão na disputa política e jogo mediático, por mais acesa e inebriante que seja. Àqueles que reclamam a intervenção de Seguro na actual crise, aconselho que recorram ao colo do vosso pai para chorar as injustiças da vida democrática. Já somos todos crescidinhos ou não?

Publicado também no Observador

Tuesday, August 25, 2026

Nobreza e política

É uma verdade desconfortável: o conservadorismo e o liberalismo são ideologias contra-intuitivas. Guiados pelo princípio instrumental da satisfação imediata dos ensejos mais utópicos da populaça, o progressismo e o socialismo ganham sempre a corrida da simpatia e sedução, já dizia o meu pai. Afinal, quem não desejaria um mundo idealizado onde todos acedêssemos, de forma igual, a todos os bens e satisfações? Acontece que este belo impulso é um erro de palmatória económico e humano – o Homem é por natureza insatisfeito, e de facto não somos todos iguais.

Por isso, sempre vi uma nobreza especial na política que em democracia, com pedagogia e coragem, rema contra a maré do instinto populista. Há dignidade no governante que assume o fardo de explicar o que parece injusto numa primeira análise. É preciso coragem para demonstrar que um sistema que premeia o mérito, estimula a competitividade e tolera a desigualdade material é, paradoxalmente, o único capaz de gerar a riqueza real que mais tarde poderá ser redistribuída. Criar riqueza exige rigor; distribuí-la sem critério exige apenas demagogia e conduz inevitavelmente ao caos.

Qual não é, por isso, o meu espanto quando constato que, nestes tempos de ruptura e fragmentação, uma certa direita com gente válida, abdicou do seu papel histórico? Em vez de ensinar e lutar pelos valores da responsabilidade individual e do equilíbrio fiscal, preferiu cavalgar os instintos mais básicos do ávido eleitor desinformado. Assiste-se hoje a um bizarro mimetismo ideológico, onde forças que se dizem de direita se batem por políticas utópicas de distribuição de privilégios inviáveis, riqueza inexistente. Prometem-se reduções drásticas de impostos ao mesmo tempo que se exige o aumento desmedido da despesa pública, além do facilitismo na idade da reforma num país demograficamente falido - sol na eira e chuva no nabal. Estas medidas insustentáveis eram, outrora, o território exclusivo da esquerda populista, cujo objectivo claro era desestruturar o sistema para preparar um assalto revolucionário ao poder.

O paralelo com esse populismo de esquerda tradicional é para mim claro. Além da descredibilização metódica das instituições — que o mais das vezes as próprias não sabem cuidar —, os dois extremos utilizam as contas do Estado como uma máquina de ficção científica onde a escassez não existe, mudando apenas o inimigo de estimação. Enquanto a esquerda radical promete aumentos salariais por decreto financiados por uma taxação irrealista sobre os poucos ricos que persistem, a nova extrema-direita, encarnada em Portugal pelo Chega, faz exactamente o mesmo. Promete o aumento imediato de todas as pensões para o valor do salário mínimo, isenções massivas de IRS e IRC, a concessão de suplementos e progressões imediatas ao funcionalismo público, auto-estradas gratuitas e, pasme-se, propostas absurdas de reversão laboral – vale tudo. Se para a esquerda o pagador imaginário é a banca e “aqueles a quem o dinheiro sobra”, para o Chega a panaceia é o mítico combate à corrupção e o fim dos subsídios de reinserção. Embora a corrupção deva ser combatida, a poupança gerada nunca cobriria este poço sem fundo – se tal fosse viável há muito teria sido implementado. Ambos os lados recusam a pedagogia orçamental, preferindo a mentira confortável à realidade dos factos. E acham possível mudar a natureza humana, o que é ainda mais perigoso.

Ao adoptar esta estratégia, esta direita valida a tese económica da esquerda que sempre combateu, cometendo a maior das traições ao rigor liberal e conservador. Será o caos que a extrema-direita pretende? O que faria se um dia chegasse ao poder? Estará este populismo de sinal trocado intencionalmente a sabotar as fundações da nossa economia para colher os frutos políticos dum colapso inevitável?

Precisamos, urgentemente, de resgatar o princípio fundador da nobreza da política, caso contrário o espectáculo continuará confrangedor. A verdadeira liderança não se mede pelos aplausos fáceis, “likes” e “views”, ou pelo aproveitamento cirúrgico do rancor popular. A política nobre é aquela que, não acreditando no “homem novo”, ousa empreender medidas difíceis, por vezes antipáticas sem benefícios eleitorais a curto prazo, mas que prometem bons resultados a médio e longo prazo. É a política que planta árvores cuja sombra o governante sabe não usufruirá no tempo da sua vida.

Um dia, um amigo meu culto e verdadeiramente reaccionário, no tempo da geringonça, dizia-me que a direita não sabe conquistar o poder, porque não sabe utilizar as artimanhas da esquerda, segundo o próprio, a única maneira possível de governar em democracia. Será esta a verdadeira novidade do Chega?

Não consigo concordar. Sou contra todos os populistas que cavalgam o descontentamento com agendas obscuras. E fico confortável na utopia de exigir a coragem da verdade e a pedagogia da responsabilidade – na certeza da imperfeição humana.

Ironias da vida

Após o terramoto, com Lisboa de pantanas ainda a cheirar a queimado, o ambiente político e social degradava-se de dia para dia, pesado. Pomb...