Ao ler tantos comentários maldispostos que o algoritmo da minha bolha me fornece, quase me sinto um autêntico troglodita (culpado!) por me deixar envolver com este fabuloso espectáculo que, por certo, vai ser o Campeonato do Mundo de Futebol da FIFA — torneio que este ano se joga no Canadá, México e EUA. É que eu espero ver quantos jogos puder… Não tenho perdão!
Junho é a altura do ano de que mais gosto. Tempo que soa a
expectativas de um Verão prometedor, não sei bem do quê. Este sentimento deve
ter reminiscências dos meus tempos de juvenil estudante. O gosto ficou, e é
mais intenso com este ambiente de euforia dos Santos Populares, com cheiro a
farturas e a sardinhas assadas, que já não frequento. Sobra o Mundial de
Futebol, com três semanas de jogos a toda a hora, casos, casinhos, jogadas,
golos esquisitos e a esperança não assumida de que a selecção portuguesa ganhe
o caneco. E que o Ronaldo retorne, finalmente, em ombros. Coisas fúteis.
E depois há aquele sentimento de comunhão nacional (ou será
global?) que, de repente, nos faz sentir parte de um interesse comum… da
humanidade. Mesmo nestes tempos de polarização, de fragmentação das redes que
estão a destronar a velha televisão. Vejam o lado bom: nas notícias teremos
alternativa ao Trump ou ao Ventura. Outros poderão dedicar a sua mui estimada
embirração aos tirânicos adeptos do futebol.
Claro que, perante tamanha “unanimidade”, surge uma
dissidência na mesma medida: a daqueles que se afirmam – e são – diferentes.
Qualquer coisa serve para alimentar uma animosidade inconsequente que nos faça
sentir vivos – é da natureza humana. Talvez com receio da diluição, que é o que
acontece às mentes fracas. É nestas alturas, quando decorrem fenómenos de
massas e de grande mediatização como o Mundial, que se levanta um coro de
lamentos e vitupérios contra o “ruído” reinante. Os “diferentes” insurgem-se
revoltados contra o desporto-rei. Um amargo desdém vem ao de cima,
inconformado, nas mais díspares e exóticas personalidades: “Eu não gosto de
futebol”, afirmam arrogantemente. Ouvem-se os mais desconcertantes comentários,
do tipo: “O meu Jorginho, graças a Deus, só gosta de râguebi”; ou “Em Junho vou
emigrar para as Ilhas Selvagens com a minha colecção de DVDs do John Ford e a
Paixão segundo São Mateus, de Bach” (posso emprestar-lhe a minha gravação, mas
é em vinil).
Gostar de futebol não ocupa espaço nem define uma pessoa.
Podemos gostar de muitas outras coisas, cultivar outros interesses. Podemos até
gostar e tentar compreender aqueles que não gostam de futebol — que terão de
fintar as conversas e notícias que não querem saber. O algoritmo
das plataformas e os 300 canais na televisão por cabo cuidarão de uma bolha
digna dessas almas minoritárias, cerceadas, vilmente oprimidas, estou certo.
Cada um na sua.
Imagem: roubada ao Expresso Revista

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