O Alexandre Borges, na sua crónica de opinião de ontem, escreve que o 28 de Maio passou ao lado de muita gente e que o pronunciamento que marca o fim da Primeira República deveria fazer-nos pensar. O artigo todo reflecte um mar de ambiguidades, que me levam a acreditar que a história da revolução republicana passou ao lado do Alexandre Borges, ou que os seus preconceitos são mais firmes do que os factos acontecidos naqueles tenebrosos tempos.
O que levará o autor a afirmar que o 28 de Maio significou a queda da “república livre e democrática” que promoveu “a laicização do Estado, o projecto de alfabetizar, enfim, a população, iniciativas valorosas na saúde e no ensino superior” fracassando na intenção de “implantar em Portugal um regime determinado pelos portugueses, os portugueses “reais”, que não os da realeza, o povo, os indivíduos, as classes trabalhadoras, sem privilégios de classe”?
O facto é que o caderno de encargos dos republicanos portugueses de cultura jacobina e anticlerical continha um projecto burguês (nunca foram postas em causa as questões de propriedade) de criação de um "Homem Novo", liberto do obscurantismo da coroa e do altar, que traria a Portugal as delícias do progresso. Entender tal projecto como benigno, ou achar que ele seria possível sem muita repressão e violência, é de uma ingenuidade comovente. Já acreditar que os projectos de alfabetização alguma vez passaram do papel é, simplesmente, falta de informação.
Ao Alexandre Borges aconselho a leitura do livro As Causas do Atraso Português, de Nuno Palma, que descreve os resultados trágicos dos delírios revolucionários de Pombal, dos Liberais e dos republicanos — com gráficos e tudo, para facilitar. Pretender que a monarquia constitucional, na passagem do século, era a causa do atraso económico e social em Portugal é, no mínimo, desonestidade intelectual ou apenas preconceito ideológico. Não enquadrar a realidade sociocultural dessa época com o que se passava no resto da Europa também não ajuda. O facto é que as monarquias europeias que não perderam guerras tornaram-se, numa evolução natural ao longo do século XX, nos regimes mais democráticos e prósperos do mundo.
Quanto às repúblicas que vingaram, desiluda-se o autor da crónica: os regimes trataram rapidamente de criar as suas próprias aristocracias e distinções honoríficas. É da natureza humana — algo que as democracias devem preservar e respeitar.
Talvez um dia o Alexandre Borges, porque tem boa cabeça para isso, perceba que contrariar a natureza humana e sociológica das comunidades, forçando um “progresso” idealizado por algumas cabeças iluminadas instaladas à força nas cadeiras do poder, dá maus resultados e é contraproducente. Mesmo quando não significa extrema violência e opressão, que foi, aliás, o resultado da revolução republicana em Portugal — à qual o povo respondeu com a adesão a Fátima e continua católico, Graças a Deus.
Finalmente, termino com a convicção contrária à do Alexandre Borges de que em 1926 quem “falhou” não fomos “todos nós” – nada disso! Foram os utópicos aventureiros revolucionários, que em dezasseis anos nos iam dando cabo do país.

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