Primeiro, porque a nossa indignação prova que a barbárie
ainda nos choca. Num mundo saturado de imagens de violência instantânea, onde a
tragédia corre no ecrã do telemóvel à mesma velocidade que o entretenimento
mais fútil, o espanto vale como um salvo-conduto moral. Se este abandono brutal
continua a ser manchete, se a opinião pública recusa digeri-lo à pressa, é
porque tal aberração permanece rara - é contra-natura. O dia em que olharmos com indiferença para
duas crianças deixadas à sua sorte numa berma, pelos seus próprios pais, será o
dia em que a nossa civilização terá falido definitivamente. O choque que ainda
sentimos é o sistema imunitário da nossa decência a funcionar.
Em segundo lugar, este acontecimento, de tão monstruoso, obriga a nossa humanidade a olhar-se ao espelho. Naquela berma alentejana, fomos confrontados com os dois extremos daquilo que somos capazes de ser. Por um lado, espreitámos o abismo, os limites duma crueldade que desafia as leis mais sagradas da natureza e do sangue. Por outro, quase como um milagre que brota do asfalto, fomos também nós salvos pela ternura, pelo comprometimento do padeiro de Monte Novo, que recolheu e acolheu os miúdos entre os seus, e os confortou com a simplicidade duns gelados e brinquedos. E chegou-nos também pela comovente força silenciosa daquele amor fraternal dos dois meninos, logo após o traumático sobressalto: agarrados um ao outro, eles foram a resistência contra o abandono.
No fundo, esta notícia que insistimos em acompanhar já não é apenas sobre um crime ou uma falha parental. Este acontecimento fala, essencialmente, de todos nós. Lembra-nos do pior que habita o ser humano, mas também da beleza que nos salva.

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