Friday, September 11, 2026

telegrama prioritário


Sou do tempo dos telegramas. Aquelas mensagens ditadas pelo telefone, pagas à palavra e enviadas numa emergência, que um estafeta de bicicleta entregava ao destinatário num curtíssimo espaço de tempo. As notícias más e as importantes sabem-se sempre.

Sou do tempo em que, na recepção do aldeamento turístico algarvio, os hóspedes faziam bicha depois das oito da noite — quando a tarifa era mais acessível — para pôr as novidades em dia com algum familiar doente ou mais ansioso. No resto do tempo, estávamos por nossa conta. O mês de Agosto era um verdadeiro interregno; até o futebol parava.

Nesses mesmos aldeamentos, no pico do Verão, havia um ritual matinal sagrado: a recepção enchia-se de empresários e profissionais liberais, de chinelos e fato de banho, a ligar para o escritório, a recolher recados ou a ditar respostas para o telex. Só depois, com a mente limpa, iam gozar com a família as delícias da praia morna.

Sou do tempo em que as pessoas viajavam, desligavam das rotinas e compravam postais ilustrados. Escreviam-se linhas quentes de amizade e verdadeira nostalgia a partir de destinos idílicos. As férias davam azo às saudades.

A internet e os telefones inteligentes acabaram com esta experiência existencial da pausa, com esta interrupção de um quotidiano que tantas vezes nos escraviza. Antigamente, por opção, escolhia-se uma salutar alienação — um desligamento que, à segunda semana, era quase total. Uma experiência de liberdade inaudita para as gerações de hoje, que vivem agarradas às redes sociais e ao imediatismo das mensagens. "É como enviar um postal aos amigos", dizem-me os mais novos sobre as publicações que trocam sem descanso. Mas eu, que hoje trabalho por conta própria, pagava era para poder desligar o computador e o telemóvel por quinze dias.

A verdade é que temos saudades do silêncio de uma vida sem ecrãs. Saudades de ter saudades. De regressar das férias com novidades para contar aos amigos e curioso pelas notícias da família e da nossa terra — aquelas que líamos no jornal ou ouvíamos no noticiário das oito, feitas de factos sem demasiado ruído dos comentadores insistentes.

Há muita gente que já não sabe o que isso é.

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