Projecções
Na essência, o Cinema surgiu com uma missão simples: documentar a realidade. Captar fragmentos da vida e projectá-los na alvura da tela. Depois veio a necessidade de distracção e, por arrastamento, a magia deslumbrante e a capacidade inesgotável de nos fazer sonhar com as peripécias de todos aqueles que foram sendo projectados no ecrã e se foram alojando na escuridão íntima de todos nós.
Ficamos na fronteira entre o mundo que vivemos e o mundo que foi projectado. Apesar de tudo, acabamos por nos deixar seduzir pela sala escura: é o fascínio, a mística, enfim, a curiosidade da criança que temos em nós. E será sempre com um brilhozinho nos olhos que veremos a sucessão de bonecos de luz fluir.
É um Mundo que satisfaz os nossos desejos e, ao mesmo tempo, espicaça a nossa curiosidade. Fugimos da vida que ficou à porta, junto à bilheteira, e passamos a fazer parte de outra. Uma vez acabada a projecção e acesas as luzes, abandonamos o nosso santuário e ora somos abraçados, ora somos esbofeteados pelo frio da avenida, voltando à espuma dos dias que tão bem conhecemos, mas de forma ligeiramente diferente.
O Cinema não acabou com o fim da projecção. Continua em nós, atormentando-nos e consolando-nos e, também, fazendo-nos interrogar a realidade que sentimos: desde o engraxador que nos lembra Umberto D, passando pelo empregado de balcão cujo sorriso malandro lembra Alberto Sordi, bem como a criança de olhar vazio colada ao vidro como Antoine Doinel. Visões excêntricas? Então o que dizer de famílias sentadas à mesa como nos filmes de Ozu ou de funcionários de gesto maquinal, tal e qual como um modelo de Bresson? Mais importante: actua sobre a realidade e faz com que teçamos analogias com aquilo que bem conhecemos. Basta pensar no homem que, a abrir Sicilia!, contempla a imensidão do mar, tal como nós, lusitanamente habituados a hiperbolizar o passado e a amaldiçoar o presente, negando-o.
Eis a grandeza do Cinema: agir sobre nós, dominando-nos e fazendo-nos habitar um mundo de espectros projectados na nossa alma, enquanto vamos aplicando à realidade aquilo que vimos. Sempre assim: entre a realidade e a ficção. Um manto diáfano que mais não é do que uma forma de filtrar o que os nossos olhos vêem e aquilo que a nossa vontade quer ver, fazendo com que, voluntária ou involuntariamente, acabemos por criticar o mundo que conhecemos. E assim continuamos, vagueando pela imensidão da cidade como o Samouraï de Melville, ou, em bom rigor, como uma personagem de Antonioni. À procura da vida que a monotonia do quotidiano nega.
Hugo Ramos Alves (do blogue Amarcord)
Excelente, Hugo. Obrigado pela visita.
ReplyDeleteVer um bom filme...quase tão bom como ler um bom livro!
ReplyDeleteObrigado eu pelo desafio, Pedro.
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