Friday, March 27, 2026

Um engenho semelhante a um Cocktail Molotov

Pela Vida.webp

O Expresso dedica esta sexta-feira duas páginas no primeiro caderno à manifestação pró-vida da semana passada e ao caso do Cocktail Molotov. De notar como o caso proporcionou que ao fim de muitos anos uma manifestação pró vida, que junta muito mais gente que a maioria das manifestações de esquerda com direito a directos, fosse notícia. No artigo é referida a participação de elementos da extrema-direita, detectada pelas “autoridades”.

Nele aborda-se, além da participação na marcha de elementos do movimento neonazi Blood & Honour, o envolvimento de Afonso Gonçalves, que “surge sempre rodeado pelo seu séquito, e que empunha uma bandeira de fundo branco e uma cruz azul — uma tentativa de ligar as origens de Portugal e o movimento antiaborto de cariz religioso”. Segundo o jornalista, Afonso Gonçalves está a ser investigado pela unidade antiterrorismo da PJ e foi constituído arguido por suspeitas de crimes de ódio. O articulista acrescenta que, em Novembro, o Expresso contabilizou “mais de 100 posts de ódio publicados num ano”. Jornalismo de investigação, bem se vê.

Só depois são dedicadas algumas linhas ao “incidente” causado “por um homem de 39 anos”, que lançou um engenho “semelhante a um Cocktail Molotov” para o meio da multidão, onde estavam mulheres e crianças. Embora não fosse exactamente um Cocktail Molotov (?!), uma fonte policial garantiu ao Expresso que “o que este suspeito fez foi muito perigoso. Se o engenho tivesse ardido poderia ter causado ferimentos ou mortes.”

Além da idade, sabe-se que o suspeito é de extrema-esquerda, que possui emprego estável e que o juiz determinou que se apresente diariamente numa esquadra da polícia, além de ter sido proibido de frequentar as imediações da Assembleia da República – podemos ficar descansados da próxima vez que subirmos a Calçada Da Estrela: fica garantido que naquele local o homem não voltará a atacar tão cedo. De resto, não se sabe o seu nome nem o tipo de mensagens que publica nas redes sociais, sejam elas de amor ou de ódio. Nem a organização em que milita. Não será isto tudo demasiado suspeito?

Ainda assim, a fotografia ilustrativa do artigo numa clara concessão do jornal à “boa-fé” em geral, mostra uma multidão de aspecto pacífico, composta por muitos jovens, rapazes e raparigas, empunhando cartazes coloridos. Será este ambiente salutar que o homem de 39 anos com a sua garrafa de gasolina pretende pôr fim?

Como escreve Rui Ramos hoje no Observador, “o branqueamento da extrema-esquerda e da sua violência articulou-se com a demonização da direita e das suas ideias. As esquerdas de governo [e o jornalismo, desculpem-me o pleonasmo] não tiveram escrúpulos em tratar conservadores, liberais e nacionalistas, à vez ou todos juntos, como ‘fascistas’, à velha maneira da propaganda soviética.”

Mas o Expresso e o jornalismo em geral escusavam de ser tão descarados. Qualquer dia ninguém acredita neles. Qualquer dia?

Fotografia Lusa, no Expresso

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