Tornei-me, por força das circunstâncias vividas no resgate financeiro de Portugal entre 2011 e 2014 admirador de Passos Coelho, pela sua capacidade de resistência à pressão política e social, e pelo sentido de Estado exibido na execução do duro programa, contra ventos e marés. A forma como as esquerdas se uniram numa insólita geringonça para gerir a seu gosto a expectável retoma da economia foi por certo um golpe difícil de encaixar e a dignidade exibida na sua retirada de cena notável. Cheguei a admitir que Passos Coelho não mais teria vontade de assumir as dores do nosso atraso persistente e assumir um retorno à ribalta. Tanto mais que tenho sérias dúvidas que haja uma sólida maioria de portugueses que aceitassem a terapia de que o país verdadeiramente (ainda) precisa.
São as mesmas dúvidas que tenho, que tais reformas sejam desejadas pelo eleitorado do Chega, como referia aqui há dias o Henrique Pereira dos Santos: por alguma razão André Ventura lidera um grupo parlamentar (tirando honrosas excepções mais parece um bando de marginais), que rejeita qualquer reforma que cause alguma perturbação ao status quo, defendendo constantemente em busca de aprovação popular despesa pública absolutamente desmedida. Será uma estratégia de “quanto pior, melhor”?
Por diferentes razões sou grande admirador do historiador Rui Ramos, cuja seriedade intelectual, capacidade de trabalho, investigação e produção erudita, sigo com atenção e proveito. Uma e outra figura da nossa vida pública são demonstração dum novo e mais evoluído panorama intelectual que emergiu no espaço público português, fruto da crescente estabilização da democracia nos moldes ocidentais.
Pelo atrás referido soa-me muito estranha a complacência destas figuras gradas do país com o Chega. Acreditam mesmo que o Chega se irá encher de brios e sentido de Estado para se tornar num fiável agente de mudança de direita? Acreditam mesmo que há uma maioria sociológica reformadora à direita no eleitorado e que o problema está na falta de audácia de Luís Montenegro? Vislumbram alguma estratégia de conversão de Ventura ao realismo político necessário a um Estadista que eu não esteja a ver? Custa-me a acreditar.
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