Tuesday, February 24, 2026

Quem não sabe, não invente

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Há histórias que, ao longo dos anos, se entrelaçam nos cantos da memória colectiva, até que já não sabemos bem onde começa uma e acaba a outra. Tal é o caso de “Pedro e o Lobo”, obra musical composta por Serguei Prokofiev em 1936, e da fábula ancestral “O Pastor Mentiroso e o Lobo”, frequentemente atribuída a Esopo, escritor da Grécia Antiga conhecido pelas suas fábulas. Curiosamente, vem sendo a fama de uma a dar nome ao protagonista da outra – uma troca que diz tanto sobre a força da ignorância como sobre o poder das coincidências. Assim, comecemos por explicar o que é uma e outra coisa:


Prokofiev compôs “Pedro e o Lobo” a pedido do Teatro Central Infantil de Moscovo, com um objectivo pedagógico: ensinar às crianças os sons e os timbres dos instrumentos da orquestra. Cada personagem ganha vida através de um instrumento: Pedro, corajoso, representado pelas cordas; o pássaro, ágil, pela flauta; o pato, desajeitado, pelo oboé; o gato, furtivo, pelo clarinete; o avô, grave e ponderado, pelo fagote; e o lobo é evocado de forma ameaçadora pelas trompas. Os caçadores chegam com os tiros de percussão. A narrativa mistura aventura e aprendizagem, onde Pedro, com astúcia e a ajuda dos seus amigos animais, captura o lobo, transformando o medo em triunfo e a música em lição.


Por outro lado, encontramos a fábula “O Pastor Mentiroso e o Lobo”. Trata-se de um conto muito mais antigo, datado provavelmente do século VI a.C. e atribuído ao lendário Esopo, cuja obra atravessa séculos e fronteiras. Na fábula, um jovem pastor, aborrecido e ávido por atenção, grita “Lobo!” apenas para ver o alvoroço na aldeia. Quando, num certo dia o perigo se torna real e o lobo aparece, ninguém acredita no seu apelo, e as ovelhas foram devoradas pela fera. A moral é clara: quem mente perde a confiança dos outros. Curiosamente, o pastor nunca recebeu nome próprio nas versões clássicas; é apenas “o pastor”, uma figura anónima, personagem tipo, que serve de espelho à humanidade e aos seus vícios.


A coincidência surge ironicamente quando, devido à popularidade da peça de Prokofiev, jornalistas e contadores de histórias ignaros começaram a chamar “Pedro” ao pastor da fábula de Esopo. Não sei se se passa assim noutros países. Assim, no imaginário infantil, ambos os protagonistas – o corajoso menino da música russa e o mentiroso da fábula grega – tornaram-se um só. Mas é um erro, uma confusão: na verdade, o valente “Pedro” pertence exclusivamente à obra musical, enquanto o cobarde pastor da fábula não tem nome.


Para muitos talvez seja irrelevante o nome que damos aos protagonistas, mas é fascinante observar como uma peça musical do século XX acaba por influenciar a forma como contamos uma fábula com mais de dois milénios. A minha educação musical foi profunda e precocemente marcada pela obra de Serguei Prokofiev, irrita-me solenemente que chamem Pedro ao pastor preguiçoso, e parece-me da maior conveniência a reposição da verdade neste aspecto. O universo agradece, e os Pedros também.

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