![]()
Talvez porque me puseram um álbum do Tintim nas mãos antes sequer de eu saber o meu nome me tenha chocado a versão deficientemente animada, a estranheza daquelas falas mal dobradas e simplificação das histórias na TV. Afinal não foi a minha imaginação que lhe deu voz e movimentos? Até fui eu que inventei as tramas, enquanto folheava atento os livros ainda sem saber ler... Com o Tintim na TV fiquei definitivamente enciumado com a exposição pública e a banalização do meu herói.
Quase desde o berço que passeei por dentro daqueles quadradinhos, daquelas histórias e mistérios. É por isso que nunca consegui entregar de bom grado o Tintim ao mundo, como se cada aventura guardasse um segredo só meu, um pacto silencioso entre leitor e personagem. O eco das páginas lentamente viradas nas tardes soalheiras das férias intermináveis, o cheiro do papel, os risos partilhados com Milou e os sermões científicos do Professor Girassol, tudo isso moldou um universo privado onde os heróis eram eternos e os perigos, embora assustadores, terminavam sempre com um sorriso de esperança. E aquilo que hoje escapa a muita gente, a bondade de Tintim, a generosidade desse herói profundamente cristão.
Lembro-me das horas estáticas, que passei de pernas cruzadas, em puro deleite diante da última prancha do álbum Carvão no Porão, aquele insólito e colorido rally nos jardins de Moulinsart. As horas passadas em êxtase, fisgado num só quadradinho, invejando o pequeno carro vermelho do rebelde Abdallah em No Pais do Ouro Negro. Hergé deu-me os meus melhores amigos de toda a infância, de quem aliás fui íntimo. Com o Tintim e Milou fui crescendo e lutei contra os sovietes e contra a máfia. Ajudei a libertar os escravos e lutei contra o tráfico de droga. Fui também à lua, onde ia perdendo os meus amigos todos e não salvei o Engº Wolf de uma heróica morte. Planei arrastado por um condor pelas encostas dos Andes. Tremi de medo e gelei de frio a caminho do Tibete, num hino à generosidade. Comovi-me com o cão mais simpático do mundo, ri-me com os excessos do bêbado mais divertido de todos, o Capitão Haddock. Ao Hergé, genial criador destas histórias ficarei sempre grato pelos amigos que me proporcionou.
Com o passar dos anos, aquelas páginas passaram a ser refúgio e companhia, à medida que a vida se tornava mais complexa e o mundo parecia mais vasto e menos decifrável. Os personagens iam-se densificando. A cada releitura, descobria detalhes antes despercebidos, diálogos que se revelavam mais espirituosos, enigmas que cresciam em profundidade conforme a minha própria compreensão amadurecia. Havia sempre um novo segredo guardado entre os balões de fala, uma nuance nos olhares das personagens, uma nota de humor que só se revelava ao leitor mais atento. Assim, as aventuras de Tintim transformaram-se num território de familiaridade e surpresa, onde a infância encontrava refúgio e o espírito de aventura permanecia ao alcance das mãos.
Por tudo isto em minha casa se cultiva este extraordinário herói e os seus amigos, e todos os anos se estreia em lugar de destaque um vistoso calendário temático publicado pela editora. E ainda hoje ao reencontrar um álbum em lugar nobre da estante, sinto a mesma emoção pueril, na expectativa de uma nova descoberta, como se a infância se deixasse viver, uma e outra vez, através da magia das linhas claras e cores vivas do desenho de Hergé. Ele é por certo responsável por muitas das mais felizes horas da minha infância, e por isso ser-lhe-ei sempre grato.
Texto adaptado duma troca de impressões escritas, no tempo áureo dos blogs.
No comments:
Post a Comment