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Não há muitos anos, numa das derradeiras vigílias pascais celebradas pelo Pe. João Seabra na Basílica dos Mártires, que eram acontecimentos religiosos de uma beleza inolvidável, sempre profundamente solenes e participados (Igreja cheia até à rua), lembro-me bem do choque sentido à saída: com a minha mulher e filhos no caminho para o parque de estacionamento do Camões, e depois no carro, no percurso até à 24 de Julho, entrávamos numa realidade paralela. Enfrentávamos um mar de gente, magotes de foliões, jovens e menos jovens, rapazes e raparigas, mais ou menos excêntricos, a encher as ruas e praças, divertindo-se nos bares e esplanadas, às portas das discotecas, de copos e garrafas nas mãos, absolutamente alheios à Páscoa que acabara de chegar. Então, esfregou-se-me na cara que nós os católicos actualmente somos uma minoria quase irrelevante, e que a força da mundanidade envolve-nos, subjuga-nos cada vez com mais vigor, a ponto de ser uma tarefa hercúlea passarmos aos nossos filhos os valores e cultura cristã.
Ao tempo da minha adolescência, ocorrida na segunda metade dos anos setenta, o espaço público era marcado essencialmente pela televisão do Estado (só havia dois canais) e ainda reflectia o calendário religioso com uma programação sóbria, nomeadamente com episódios da vida de Jesus, algum filme sobre a bíblia, ou um concerto de música clássica.
Aqui chegados, ainda foi com espanto que soube que a Liga de Clubes marcara um “jogo grande” como o Benfica - Porto para o serão de Sexta-feira Santa, amanhã justamente à hora da Via Sacra. Não me estou a queixar, mas esse sinal é a evidência de que Portugal já não é um país católico. Estamos prestes a recolher às catacumbas.
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