Thursday, January 14, 2021

Tempo de trevas

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Das regras de confinamento ontem decretadas pelo governo, a melhor das excepções é sem dúvida a liberdade dada aos nossos jovens e crianças de frequentarem os seus estabelecimentos de ensino. Parecia-me pouco realista e até bastante insalubre do ponto de vista mental fechá-los em casa, restringidos a aulas e contactos sociais virtuais em espaços confinados – é contra natura. Depois, há um equívoco que urge desmontar: as aulas virtuais são um potenciador das desigualdades, que não apenas as económicas. Prejudicam profundamente os miúdos menos expansivos social e intelectualmente, que carecem de acompanhamento e estímulos mais exigentes. 
Sempre aqui manifestei as minhas dúvidas quanto ao real impacto dos diversos pacotes de restrições que ao longo de quase onze meses nos vêm sendo aplicadas à experiência. A ideia com que fico é que a dinâmica da epidemia lhes é em grande medida indiferente, mas como é bom de ver, esta é uma perspectiva tabu, maldita até - chamem-me "negacionista". Por isso pressinto nas inúmeras excepções que nos são concedidas neste Estado de Emergência uma certa cedência a essa tese: perdida a batalha da economia num panorama global de profunda depressão, o que as "autoridades" pretendem é manter a ilusão de que nos estão a proteger, que têm um plano e uma estratégia científica de limitação de danos da pandemia, e que ao fim do dia o seu sucesso dependerá do sentido de responsabilidade de cada um e não de um vírus extremamente contagioso. Para tal ilusão contribui o sensacionalismo das notícias em directo das enfermarias (adoptado agora também em repugnantes campanhas de publicidade) em prime-time, a imporem um verdadeiro estado de terror às pessoas indefesas encerradas nas suas casas – e note-se que nem no Verão, quando os números de internamentos e as "vítimas" do Covid19 eram baixos, essa narrativa do terror nos deu tréguas. Acontece que é neste tabuleiro que o regime (lato sensu) joga sua sobrevivência democrática. Para mais, é sabido que depois do medo, é com a culpa a melhor forma de se vergar um indivíduo.
Quase um ano passado deste inferno real e mediático, resta-nos rezar por uma rápida campanha de vacinação. Das chagas das solidões e da pobreza teremos de cuidar depois, quando se forem esvaziando as UCIs e os “especialistas” do Infarmed desocuparem o palco que lhes demos. E isso também não vai ser fácil, porque o poder é das mais funestas tentações.

2 comments:

  1. O ensino on-line é isso tudo e muito mais... mas a questão é a escolha entre um ano letivo sem todos os objetivos cumpridos, e a saude pública.
    Quando surgem estudos mostrando que as escolas são um fator de propagação do vírus importante, quando morrem pessoas ainda nas ambulâncias à porta do hospital cá, atira-se para o ar que são seguras.
    É mentira. Não são.
    Se fossem, nao tinha eu alunos infetados... e as respetivas turmas a ter aulas online por estarem isolamento.( Eu não, estive com o aluno 5 horas na semana, mas tenho um escudo invisível.) E é a terceira vez que estão em isolamento este ano... o que já perfaz mais de um mês de aulas on-line.
    E a segurança... Nas escolas, as pessoas acotovelam-se nos intervalos, nao ha distância de segurança nas aulas, há alunos que usam a mesma máscara a semana toda, puxam a máscara para baixo, partilham cigarros e comida, estão em cima uns dis outros a mostrar os jogos no telemóvel...
    Não querem fechar, não fechem, mas não mandem areia para os olhos de quem lá está todos os dias.

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    1. Concordamos em discordar. Que na ponderação entre os factores riscos para a saúde publica e a formação e saúde mental dos jovens a minha balança inclina-se para o segundo.
      Cordiais cumprimentos,

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