Tuesday, April 7, 2020

Estado de sítio (17)

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Coronavírus hoje em Portugal – 12.422 casos, 345 vítimas mortais


No Domingo de Ramos, depois de assistirmos à missa dominical celebrada pelo Cardeal Patriarca na Sé e transmitida pela televisão, o almoço foi encomendado do restaurante aqui debaixo e tirámos uma “selfie” de família para memória futura. Na segunda-feira a minha enteada retomou o seu trabalho em Lisboa no restauro duns azulejos numa obra da baixa, facto que prenuncia uma nova fase das nossas vidas que eu acredito se irá gradualmente a generalizar depois da Páscoa: vamos todos ter de nos habituar a viver com o vírus durante muito tempo, fazendo uma vida tão normal quanto possível protegendo os mais vulneráveis. Antecipando-se um período relativamente longo até que seja disponibilizada uma vacina contra o COVID-19, receio muito que a maior sequela do vírus venha a revelar-se no refreamento das nossas expressões de afecto em sociedade. O perigo que antevejo não é o de adoptarmos os costumes frios dos nórdicos, é passarmos a saudar-nos como os chineses, coisa que será uma suprema ironia. Alguém me sabe informar onde se podem adquirir as máscaras aconselhadas pela ministra da saúde? 
Enquanto a curva dos infectados em Portugal vai dando sinais de que a epidemia está controlada, os meus miúdos mais novos arrastam-se com uma indolência incrível, para mais agora com o argumento engatilhado na ponta da língua de que estão de férias – estão adaptados demais. Já consegui arrancar o mais pequeno ao pufe duas vezes para fazermos ginástica juntos, pois desconfio que esta inactividade contínua não faça nada bem a uma criança de 13 anos. Como não sou um psicólogo brilhante nem tenho um grande espírito maternal, o miúdo ao princípio fica chateado mas depois conforma-se (talvez seja preguiça). Entretanto proibi-o de se tornar adolescente durante o estado de emergência. Para cada dia, basta a sua pena.
Portugal possui um perfil sociológico e económico muito próprio, com demasiada gente a viver da função pública, rendas e pensões, pode dar-se ao luxo de ser hipocondríaco. São esses portugueses que maioritariamente votam, e receio que o problema venha a ser por este país outra vez na rua.
O desafio esta semana será o de prepararmos condignamente os nossos espíritos para a Páscoa de Jesus Cristo sem os rituais comunitários a que estávamos habituados.
Deus nos ajude. 

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