
Coronavírus hoje em Portugal – 10.524 casos, 266 vítimas mortais
As coisas estão a correr melhor do que seria de esperar, a rampa ascendente de internados e de óbitos (que é o que me interessa) parece estar a abrandar com consistência, as medidas de confinamento em Portugal parecem estar a resultar de uma forma que nem os mais optimistas se atreveriam a supor. Julgo que contribuem para isso principalmente dois factores específicos da realidade cultural portuguesa, que sendo eles intrinsecamente "defeitos", por uma vez jogam a nosso favor: o nosso perfil económico e geográfico periférico e a unidade política e administrativa de Portugal, o chamado “centralismo”, que favorece a passagem fácil duma mensagem de alarme para a mobilização de uma comunidade nacional identitariamente muito sólida. Perante a apreensão das nossas gentes não é difícil a António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa assumirem um papel paternal e maternal que é sofregamente desejado pelas gentes assustadas, carentes de orientação e referências. Estamos-lhes reverentes, venerandos e obrigados, por uma vez sem ironia.
Ontem de manhã vesti a minha melhor camisa engomada (há que poupar pois a nossa empregada também está em confinamento) para percorrer com a minha mulher os cerca de 800 metros de casa ao centro de São João do Estoril para meter umas cartas no correio. Desse modo usufruirmos em cumplicidade uma falsa mas saborosa sensação de liberdade. A paisagem com que nos deparámos junto à estação dos comboios pareceu-me aterradora de desolação com as múltiplas lojas de comércio local com as portadas corridas onde sobressaíam obscenos grafitis. Quantas delas voltarão a abrir?
Confesso-vos: mesmo gostando da minha casa e ter muito com que me entreter, sofro de bicho-carpinteiro (os médicos chamam-lhe ansiedade, mas como todos sabemos não os podemos levar demasiado a sério) é só com a ajuda de uma corrida matinal à socapa e dum terço em família a Nossa Senhora ao final da tarde que tenho sobrevivido ao confinamento. Aliás, a boa notícia que esta crise nos traz é a oração familiar que praticamos como nunca antes acontecia.
De resto uma “União Nacional” acrítica à volta das medidas de confinamento por tempo indefinido é perigosa, porque é insustentável. Percebo que seja difícil a quem decide obter os extraordinários resultados do confinamento sem meter muito medo ao pessoal. Mas se a coisa não vira, daqui a pouco tempo metade dos portugueses estará a pão e água e a outra, na melhor das hipóteses a bater com a cabeça nas paredes.
Têm reparado os meus amigos como ultimamente se têm reduzido a partilha de piadas pelas redes sociais, que, diga-se, nas primeiras semanas da crise foram um autêntico consolo? Suspeito que as pessoas estão a perceber que não, que não “vai ficar tudo bem”. De resto eu sou um daqueles privilegiados a quem só cabe obedecer e (insisto) a quem ainda não começou a faltar trabalho.
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