
Expulsa do Éden, a humanidade tornou-se escrava dos elementos, receosa da criação, desconfiada do seu olhar. O homem ganhara consciência de si, prenúncio de uma tragédia. Com o tempo, foi aprendendo (e obrigado) a olhar à sua volta, a interpretar o Mundo e assim defender-se da sua violência, iludindo a precariedade. Olhando para fora identificou as ameaças mas descobriu a Beleza onde se esconde Deus. Seduzido pelo seu reflexo, assim foi progressivamente fortificando a ideia de individualidade que o olhar de Cristo consolidou na noção de Livre Arbítrio (vontade) e na consciência da sua singularidade de criatura divinal e dramática. Esse percurso é reflectido nas artes, da literatura à pintura, passando pela música; do formalismo à exacerbação do filtro das paixões, desejos e frustrações, da genialidade com que o artista foi submetendo a realidade à sua recriação. Daí ao auto-convencimento da supremacia do seu olhar sobre a realidade em si mesma, fixado na sua auto-suficiência, o “eu” arvorou-se no fim e o princípio de todas as coisas e até a beleza caiu em desuso. Não interessa mais o que são as coisas, mas como cada um as sente, e vai aonde te leva o coração. Assim, o individuo desliga-se dos outros e da História, descarta o compromisso por troca com o efémero, todos filhos únicos, geração espontânea, tudo é relativo, sensações, uma pedrada, uma “experiência”, um estado de espírito, o amor-próprio e outras balelas, uma "assinatura" esborratada num monumento, “ó Leonilde is lôve”, que a Arte é um direito de todos como a opinião.
Aqui chegados, tornámo-nos todos narcisos definhando estéreis à beira do rio que flui indiferente, embevecidos (ou acabrunhados) com o próprio reflexo, que a vida são só dois dias e amanhã é o fim do mundo.
Imagem: Metamorfose de Narciso, Salvador Dali
João queira receber um abraço por está pág de blogue contendo um relato que me entra quotidianamente por uns olhos para os quais se torna cada vez mais evidente que, do Livre Arbítrio à realidade, vai uma distância muito semelhante aquela que separa a França da Liberté.,Egalté et Fraternité...
ReplyDeleteTenho enorme esperança de que entenda onde quero chegar
Seu leitor pontual, e creio que saudavelmente divergente de quando em vez
Manuel Mendonça
Abraço, Manuel. É sempre tão bem vindo o seu acordo quanto o contraditório.
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