Nas cidades portuguesas (as aldeias há muito que já não contam para o campeonato) o Halloween é hoje um facto consumado, até chegou a minha casa, não vale a pena resistir. Por todo o lado, virtual ou físico, deparamo-nos com decorações de máscaras de abóboras ocas, teias de aranhas e vassouras de bruxas, e meninos-bem mascarados de mortos-vivos batem-nos à porta a pedir “doces ou travessuras” (do inglês tricks or treats). Curioso é como várias pessoas com que me cruzei hoje se despediram de mim desejando "bom feriado", não sei se por não saberem o que se celebra amanhã ou se fruto dum esforço de serem politicamente correctas - vou mais pela primeira hipótese. Constato com alguma tristeza que os portugueses são tão permeáveis a modas quanto volúveis no que respeita às suas tradições mais "genuínas"; muitas delas, suspeito que não tiveram tempo de o chegar a ser (tradições). Nascido e crescido em Lisboa onde desde cedo circulava com aguma liberdade, não me lembro de alguma vez ter visto pedir “Pão por Deus”. A coisa mais parecida que testemunhei foi, há muitos anos, o “tostãozinho para o Santo António”, mendigado por meninos que me pareciam mesmo pobres. Desconfio que seja essa pobreza que justifica a fragilidade das nossas tradições populares, que o mais das vezes remetem para um passado rural que à segunda geração os imigrantes citadinos votam ao esquecimento como se de más memórias se tratassem. Já o Dia das Bruxas transmitido das séries americanas é suficientemente anódino, higiénico e venal. O Dia das Bruxas ajusta-se ao formato da diversão carnavalesca em que por estes dias se vão transformando todas as nossas festividades religiosas, do Natal com o velhinho de vermelho entontado, passando pela Páscoa dos chocolates e dos coelhinhos, ao dia de Todos os Santos cujo objecto afinal é um grande incómodo para a adolescentocracia.
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