Desde a primeira hora “muito cá de casa”, Kate Bush é principalmente uma poetiza e compositora de raro talento, e a sua música uma sublime panaceia para almas sensíveis e sofisticadas. Quem relacionar esta artista britânica apenas com os seus sucessos de teenager nos anos setenta, como Wuthering Heights ou Babooshka certamente não entenderá do que falo.
Trinta anos depois, com o recém-publicado 50 Words for Snow, Kate Bush faz-se ouvir quase em surdina na serenidade de composições maturadas, com poucas referências pop, mais perto das referências eruditas e do Jazz. Neste disco, construído sob constante presença do elemento neve, somos embalados para uma assombrosa intimidade, sussurrada ao nosso coração, composto por longos recitais de palavras e sons que lentamente entranham até à exaltação, uma mansa euforia.
Gravado com um núcleo de músicos que incluem Danny Thompson e Steve Gadd e com as participações vocais de Bertie (filho de Kate), Elton John e Stephen Fry, 50 Words for Snow vem na corrente de composições anteriores como This Woman’s Work ou A Coral Room, sábios caminhos que só a “antiguidade” e um raro talento podem proporcionar e que, culminam em temas sublimes como Among Angels ou Misty.
Deixarmo-nos "cativar” pela música de Kate Bush, na acepção dada por Saint-Exupéry, é um privilégio exclusivo de “quem a viu e de quem a vê” de mente e coração abertos, neste atravessar de quase trinta longos anos: afinal aquela menina "gazela" de vestidos e danças exóticas sempre foi muito mais do que isso… e tal só poderá ter escapado àqueles que passaram ao lado de temas premonitórios como The Man with the Child in His Eyes ou And Dream of Sheep.
50 Words for Snow é o meu disco de 2011, que em contraciclo com estes duros dias lhes incutirá um indelével cunho de beleza. É este o poder da Arte, é esse o poder do Espírito.
Votos de feliz Ano Novo.
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