Saturday, November 12, 2011

Ai vida dura...

 


 


Sobre a manifestação desta tarde, no Diário de Notícias d'hoje em quatro curtas em pé de página lêm-se os seguintes títulos: “Professores pretendem juntar mais de dez mil”, “Médicos estão contra reduções nos subsídios”, “Polícias querem menos cortes e mais garantias” e “Militares exigem evolução na carreira”. Ontem por volta da uma da tarde passei em frente à assembleia, e, cá em baixo a borrar a harmonia arquitectónica da rua de S. Bento (a do palácio não é grande coisa) deparei-me com um acampamento. Eram pouco mais de uma dezena de indivíduos desgrenhados e com cara de poucos amigos, aqueles que a imprensa designou de “indignados”, e que por ali apodrecem desde 15 de Outubro, o seu momento de glória brandido de cima dum leão. Consta que ontem pela tardinha chegaram à centena a protestar contra a austeridade enquanto o orçamento ia a votos.
Provavelmente à hora em que passei alguns terão ido a casa buscar uns trocos e tomar um duche que isto da vida de acampamento tem os seus incómodos. Enfim, aquela rapaziada leva uma existência dura que nem nas obras, trabalho para imigrantes: permanecem estoicamente há quase um mês no meio de cartazes e lonas e plásticos à mercê dos caprichos meteorológicos, escrupulosamente vestidos de freaks entretidos entre entrevistas à imprensa da especialidade e a pintura de novos cartazes ou simplesmente explorando os seus telemóveis espertos manufacturados por chineses.
Tudo isto para vos aqui deixar a minha impressão de que a diferença entre as corporações profissionais que hoje descem a avenida e os “indignados” é que estes últimos, se internados numa comunidade de auto-ajuda, a maioria seria certamente recuperável para a sociedade (e para si próprios). À parte disso, todos vivem convencidos que a coisa pública deve ser gerida da rua e que o dinheiro nasce nas paredes dos multibancos.


 


Foto Paulo Novais Lusa

No comments:

Post a Comment

O espelho de Alcácer

O ruído da espuma dos dias nos noticiários cansa-nos, avassala-nos e, não raras vezes, anestesia-nos a alma. Por isso, a nossa primeira reaç...