Sunday, October 31, 2010

Aníbal Cavaco Silva

 


Ponto prévio: por uma questão de objecção de consciência abster-me-ei na disputa presidencial de Janeiro. Dito isto, gostava de dizer que considero Cavaco Silva simboliza o lado idílico daquilo que a república tem para nos oferecer: a ascensão duma pessoa de origem social modesta e geograficamente periférica ao topo da hierarquia do Estado. Em última análise esta ascensão personifica a consumação do mais alto desígnio duma democracia, bandeira antes tão querida duma Esquerda que hoje é dominada por uma casta aburguesada e pretensiosa que adivinha em Cavaco as suas envergonhadas origens rústicas, um Portugal real que desprezam por complexos sociais. Depois, parece-me injustificado o rancor ao presidente corporizado por uma certa direita que projecta as suas frustrações para a pessoa do presidente, quando o problema quanto muito está na natureza do cargo, que considero basicamente inútil. Bem que eu gostaria de perceber em que se consubstancia esse famigerado “magistério de influência”: imaginem os problemas de consciência e hesitações com que o José Sócrates se foi debatendo de cada vez que saia dos seus encontros em Belém…
Por estas razões confesso que me custa ter de aturar o circo que agora se levanta, as polémicas estéreis e promessas vãs, os recursos e energias inúteis que este País à beira da falência se prepara para desbaratar. O Presidente da república é cargo de fraco valor simbólico, um árbitro recrutado a uma das equipas a quem houve a sensatez de retirar o apito e os cartões para não chatear muito. De resto espera-se que esta farsa insana pela nossa saudinha se decida à primeira volta, pois que se houver segunda eu emigro.

No comments:

Post a Comment

O espelho de Alcácer

O ruído da espuma dos dias nos noticiários cansa-nos, avassala-nos e, não raras vezes, anestesia-nos a alma. Por isso, a nossa primeira reaç...