Numa cultura que exalta os direitos em detrimento dos deveres, em que se venera a imagem, o prazer e a juventude, os velhotes estão basicamente tramados. Pouco interessa que diariamente na cidade eles se descubram cadáveres abandonados, quem sabe à custa do cheiro da putrefacção, que a amargura é inodora e o sofrimento silencioso.
O assunto não é mediático, dificilmente sai do círculo dos voluntários e da paróquia, quando alguém os acompanhou nos últimos dias de desamparo e solidão: inestético, exala a morte e espelha cruamente uma sociedade hedonista e decadente, cuja solidariedade apenas se move por poderosos lobbies de interesses e causas da moda.
Com a família e comunidade tradicional em acelerada fragmentação, os velhos serão cada vez mais um problema por resolver, e afianço que a última coisa que me preocupa é a higiene pública: aflige-me a desumana solidão a que eles vão sendo votados, pela voracidade e dinâmica urbano-consumista.
A campanha para a mercantilização da solidariedade aos idosos que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa vai lançar no final do mês, prevê a atribuição de subsídios àqueles que se dispuserem a acolher um idoso na sua casa. Acredito este programa, perante o trágico panorama de sofrimento e solidão de milhares de velhos, seja porventura um mal menor. Se não forem causa de ignóbeis oportunismos, talvez os seiscentos euros sejam bem empregues e sirvam para alugar uns meses ou anos de decoro e… companhia. Uma detestável realidade que nos devia questionar e envergonhar a todos.
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