Wednesday, May 19, 2010

Rock in Rio


 


Apesar de ser um apaixonado pela música pop, genericamente não gosto de festivais de rock, eventos industriais para a catarse da rebeldia juvenil, concentrações toleradas de álcool, alucinógenos e outras substâncias, excessos que o jovem burguês toma hoje como inalienáveis direitos. Debaixo de condições sonoras deploráveis, estes “concertos” decorrem no meio duma imundice total, de poeira e detritos orgânicos, onde quase sempre os artistas actuam pateticamente, qual pianista de saloon a martelar as teclas enquanto a malta se engrossa, joga póquer e se esmurra mutuamente, indiferente ao que se passa no palco.


O Rock in Rio é isto tudo em tamanho gigante, mas com pretensões humanitárias e bazófias ecológicas: trata-se duma enorme operação de marketing, espelho da nossa cultura de consumo e aparências, sem causas ou valores. Toda a sua lógica é mercantilista: não é mais do que uma feira de vaidades com bilhetes e produtos muito caros, patrocinado por um grande banco e dezenas de grandes marcas que o publico consome com uma passividade bovina. A fraude do Rock in Rio solidário é um negócio brilhantemente concebido: abençoado pelo poder, nele congrega os colunáveis, os famosos do regime, e, para cumulo, angaria voluntariado para mão dobra, a troco duma t shirt, como se dum campo de refugiados se tratasse. Mas é apenas comércio, um verdadeiro caso de estudo.

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