Ponto prévio: tenho para mim que o amor estará condenado à partida quando for um fim em si próprio. O que não impede que possamos ter uma "relação" fantástica sem muito amor, ou até nenhum. O ciúme pode excitar a “relação” mas liquida o amor. Enaltecer o ciúme é como exaltar a desavença na perspectiva que esta acarreta uma lúbrica reconciliação. Ao amor feliz o que menos faz falta são efeitos especiais, sensações bombásticas, pólvora seca ou surround em 5.1.
O amor feliz exige desprendimento, dádiva, e um conhecimento mutuo profundo. Que cada um conheça os caminhos do outro, as curvas e contracurvas, os poros, tonalidades, texturas e odores, todas as nuances da alma e do corpo. Tudo isto carece de tempo, muito tempo, e... confiança! Exige uma entrega incondicional, o sacrifício dos segredos mais profundos, vaidades e fraquezas. Exige muito amor.
O ciúme é a parte da história em que o amor sucumbe à proeminência dum umbigo, quando vence em nós um predador ferido. O ciúme é presunção, ilusão de paixão, prenúncio de vazio: um paliativo existencial que oculta uma mortal solidão. O ciúme está sempre onde deveria estar mais amor. Como escreveu David Mourão Ferreira, um amor feliz não tem história. E no fundo, no fundo, isso até pode ser bom, não pode?
Como prometido, esta é uma sincera provocação ao João Gomes e ao seu "ciúme" aqui em baixo.
O amor tem muitos rostos. E fases, capítulos ou patamares, como entendamos chamar-lhes.
ReplyDeleteO ciúme é um tempero indispensável, desde que, como nota infra - e bem - 'a caudadora do post', seja doseado. Como tudo na vida, aliás.
O amor pode ser sereno, feito de conhecimento e respeito profundos e pode ser também polvilhado com a pimenta que eleva o batimento interior.
Que provoca o sorriso mordido, os olhos vagamente marejados, os suspiros na distância.
O ciúme é o reconhecimento do nosso limites e a consciência da falta do outro.
O risco da perda dele.
E ainda, o medo incontornável que 'alguém' no-lo 'roube'.
Feliz (talvez...) de quem nunca palpitou assim.
Eu gosto desse sal.
Dessa pimenta.
Desse boião de especiarias que, q.b., liberta as cores todas do arco-íris!
Ui, o raio do amor! Não se pode viver com ele, impossível viver sem ele, impossível mesmo. Já o ciúme... não, não faz falta nenhuma. Nem percebo quem possa dizer que o ciúme apimenta o amor ou então, essa coisa fenomenal que nunca ouvi em mais lado nenhum a não ser em Portugal que sem ciúme não há amor! Mas quem é que se lembrou de uma aleivosia destas?!
ReplyDeletePercebo-o muito bem, João. Habituámo-nos a uma pirotecnia indispensável no amor, que tem muito pouco que ver com amor e muito com paixão. E a paixão é SÓ um dos condimentos do amor, há tantos outros... mas creio que só com a idade se descobre isto. Ou melhor, só com a idade é que se admite isto com um sorriso, sem medo de se parecer acabado para o amor. Uma entrega incondicional não tem de ser dramática ou teatral, e por isso é mais difícil ainda.
ReplyDeleteGostei muito de lê-lo.
Ciúme é sofrimento, Margarida. Há muito que me deixei de masoquismos - a vida proporciona desafios, conflitos e correrias suficientes. Acho que cabe ao casal concentrar os esforços para enfrenta-los. É a minha modesta opinião! :-)
ReplyDeleteE depois há o raio da semântica... a quê é que chamamos amor ?
ReplyDeleteSeja então bem vinda ao Risco loira inteligente.
E eu gosto muito de a ver por aqui, Ana!
ReplyDeleteEstá tudo muito certo, apenas se esquece um detalhezinho de somenos: quem é ciumento é-o de uma forma digamos que 'genética'. Está lá, faz parte das suas características, não é algo elaborado, construído, arquitectado. Não é jogo nem manha. É-se assim. Resta, face a todo o argumentário que bem sabemos e à lógica da vida (?) gerir esse sentir para que não cause mossa em si nem dados no outro. Só isso.
ReplyDeleteSó 'entende' verdadeiramente quem assim é.
O resto é o habitual, muita filosofia, muitos princípios e lógicas.
Certo, mas é 'uma luta'...
Todos somos ciumentos, Margarida: é humano. A única coisa a fazer é aprender a viver com esse sentimento de forma saudável retirando-lhe importância. Ao contrário, muitas pessoas acalentam ciúme, com jogos e disputas, como forma de se sentirem vivas.
ReplyDelete"Que cada um conheça os caminhos do outro, as curvas e contracurvas, os poros, tonalidades, texturas e odores, todas as nuances da alma e do corpo." Nem mais!
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