Friday, March 13, 2009

A semântica instrumental

Quando menos esperamos, o significado de uma velha e batida palavra ganha conotações malditas sendo logo proscrita do linguajar engagé ou oficial. Por exemplo, dificilmente eu cometeria o pecado de chamar “criadas” às empregadas dos meus avós. Mesmo que de facto tivessem sido criadas naquelas casas e de lá saído verdadeiramente formadas para uma vida melhor.


A minha filha pequena que está a dar os primeiros passos nesta existência complicada, depois de uma saudável aula de cidadania e solidariedade (nunca por nunca dizer “Caridade” - s. f., amor ao próximo; benevolência; bondade; compaixão; beneficência) já me veio dizer que afinal “não há pretos, pai”. "Todos diferentes todos iguais" pensei eu que até vejo com bons olhos o reforço da escola laica à nossa educação cristã. De seguida a miúda esclareceu-me que “eles não são pretos, são castanhos, pai; e os brancos também não são brancos, são cor-de-rosa, pai”. Fiquei na dúvida se tanto preciosismo cromático cairá bem socialmente. Eu, por mim, se possuísse ambições políticas ou tivesse que escrever “a sério” um artigo sério sobre negros, escolheria a palavra “africanos”. Omite-se a cor para lhe tirar importância... e amenizar os nossos complexos de culpa.

É como o "doente" num hospital que afinal se chama “Utente”. Corrigiram-me tantas vezes quando por lá andei... “Doente”, não: o estatuto de “Utente” tem muito mais decência e é o melhor placebo para qualquer terrível maleita. E evita que alguém de má fé nos aponte o dedo, e nos mande para o... hospital.

De resto, é o que eu sempre disse: "o verdadeiro cego é aquele que não quer ver". Sei-o há muito tempo, mas percebo agora que os outros, os cegos involuntários, são apenas “invisuais”. Ou melhor, “Pessoas Portadoras de Deficiência”, não vá a boca fugir para a verdade a algum malandro que o designe de forma indecorosa.

Daqui por uns anos já não haverá mais “velhos”, aquele incómodo e degradado Ser que passa o dia a jogar dominó ou a dar milho aos pombos nos nossos jardins. No futuro seremos todos respeitáveis e dinâmicos “Seniores” cheios de auto-estima e de PPRs. Velhos nunca, que é aí que a morte se esconde.

É nesta estonteante espiral reformadora da realidade que o Governo em boa hora extinguiu a Comissão Para a Igualdade e Para os Direitos das Mulheres e instituiu a revolucionária Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. Eu por mim nunca mais vou “fazer género” com qualquer um... Promiscuidades é que não!

Estranhas modernices estas, quando se recusa a mentira mas tolera-se a "inverdade", pecadilho próprio de políticos e de outros inimputáveis. E da IVG que não oculta a tragédia do aborto nem quero mais falar, para não azedar esta crónica.

É com esta sempre renovada linguagem se reinventam os tabus e o regime promove a sua semântica instrumental, anódina e igualitária, à qual a implacável realidade se manterá indiferente.


 


Texto reeditado

5 comments:

  1. Tramados são mesmo os ciganos, essa raça maldita!

    ReplyDelete
  2. Não entendo o que quer dizer nem conheço "raças" malditas.
    Cumprimentos

    ReplyDelete
  3. Sempre que abordo estes assuntos existe sempre uma raça maldita, para uns são os professores, para outros as reformas milionárias dos funcionários públicos, mas para muitos são os ciganos. Eu só confio no Vale e Azevedo.

    Espero ter sido esclarecedor. Um abraço.

    ReplyDelete
  4. Os uncionários públicos têm reformas milionárias!? Bem me parecia que eles andavam descontentes...

    Belo texto, máibroda!

    ReplyDelete
  5. Bom texto, João. Escrevi um dia uma crónica sobre este tema (mais ou menos), que acabava assim: "na absurda aflição de não insultar um ovo chamando-lhe ovo, acabamos por chamar-lhe espeto". Acho que vou trazê-la para aqui e postá-la também.

    ReplyDelete

O espelho de Alcácer

O ruído da espuma dos dias nos noticiários cansa-nos, avassala-nos e, não raras vezes, anestesia-nos a alma. Por isso, a nossa primeira reaç...