Saturday, February 28, 2009

Os novos fariseísmos

Parece-me que a Ana cai aqui num inocente equívoco, confunde os “princípios” com a subjectividade da acção concreta e relacional: a Igreja de Cristo deverá ser absolutamente determinada quanto aos princípios e só assim faz sentido como religião como absoluto que “religa, e confere sentido” sob o risco de o deixar de ser. Já no âmbito do concreto, das pessoas e das suas atitudes nas suas circunstâncias, a tolerância (caridade, sim!) e o perdão são premente dever dessa Igreja (entendida como hierarquia e comunidade de cristãos), seguindo os ensinamentos de Cristo que se fez crucificar ao lado de dois ladrões (chame-lhes mulher adultera, carrascos nazis, comunistas, pedófilos, o que quiser), a quem, mediante o arrependimento sincero lhes concedeu a remissão dos seus pecados “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”. Esta é a grande revolução cristã, ainda hoje mal compreendida.


De resto não nos podemos deixar iludir pelo fariseísmo dominante como tão bem refere aqui o João Miranda: o valor que as pessoas atribuem à Liberdade de Expressão não se mede pela tolerância em relação a ideias populares. Mede-se pela tolerância em relação a ideias impopulares. Recentemente, um bispo foi expulso da Argentina por negar o Holocausto. Ninguém protestou. Eu por mim convivo conformado e quotidianamente com maoistas e estalinistas, que até têm representação politica em diversos órgãos de soberania nacionais.

4 comments:

  1. « A liberdade não é boa nem é má, é a liberdade.»
    « Quem prescinde da liberdade em troca de segurança não merece nem uma coisa nem outra.»
    Mortalidade infantil no Brasil por mil nascimentos: 23.33;
    Mortalidade infantil em Cuba por mil nascimentos: 05.93;
    Segundo declarava dinamarquesa num documentário recente: « 65% do meu salário é consumido pelos impostos.»
    Taxa de mortalidade infantil nos USA, Land of the free: 6.3
    Pensem o que quiserem. Claro.
    P.S. taxa de mortalidade infantil na Dinamarca: 4.4

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  2. João, calculei que responderia qualquer coisa como isso (assim eu acertasse no euromilhões... :-)).

    Fui ler o post do João Miranda e os comentários que se lhe seguem, onde de imediato se partidariza o assunto: "se fosse o genocídio de Estaline, ninguém se indignava...". Não alinho nestes raciocínios viciados, nem mesmo reconhecendo-lhes alguma verdade. Porque não é isso que está em causa.

    Volto à minha tese: fui educada com uma noção muito nítida daquilo que implica a minha liberdade de expressão e de acção - a responsabilidade sobre o que digo e faço, e as consequências que daí podem advir. E também me ensinaram que quanto mais poder se tem, maior é essa responsabilidade. Por isso me faz muita confusão quem usa e invoca essas liberdades, mas depois não está disposto a aceitar as consequências. Vejo, infelizmente, numerosíssimos exemplos desse comportamento, nomeadamente nos políticos (de todos os quadrantes, diga-se).
    E um bispo católico, como qualquer representante de uma instituição milenar, séria e respeitável, tem responsabilidades acrescidas. Não pode - ou não deve, pelo menos - pôr em cheque a face dessa instituição, com declarações deste teor. E a Igreja que ele representa também não pode - ou não deve, pelo menos - ignorar ou menorizar esses comportamentos, sob pena de ver-se acusada de conivência (no mínimo).
    Não é de perdão que se trata aqui. Uma coisa é perdoar um erro - o cerne da mensagem de Cristo - outra, muito diferente, é manter a confiança de um cargo de enorme responsabilidade a quem demonstra não estar à altura dele. Para mais, as declarações do bispo não me parecem nada um "arrependimento sincero", mas apenas uma obrigação imposta.
    Isto parece-me claro, e não vejo qualquer fariseísmo numa atitude firme da Igreja em questões da sua própria sobrevivência, quando este argumento é permanentemente invocado para justificar um conservadorismo com o qual nem sempre concordo.

    Outra coisa, João: um equívoco (que acredito inocente, mas perigoso) é pôr no mesmo saco de "horrores" as mulheres adúlteras, os carrascos nazis (ou estalinistas), e os pedófilos! Todos eles merecem o perdão em Cristo, é verdade, mas os seus pecados não são nem vagamente comparáveis...

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  3. Querida Ana: coloquei o ladrão e a mulher adultera por serem exemplos do novo testamento. Nunca me passou pela cabeça fazer comparações.

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  4. Eu sei, João. Por isso lhe chamei também um equívoco inocente.

    Sobre isto - os estranhos critérios de julgamento da Igreja Católica - haveria ainda muito para dizer. Havemos de voltar a este tema. :-)

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