Ao contrário da Ana Vidal, eu gosto muito de futebol, já aqui o disse várias vezes. O futebol para mim é um ritual de tribo, em que solto as minhas emoções básicas até à rouquidão. No estádio ainda salto como se tivesse 12 anos, porque "quem não salta é lampião”, canto, assobio e insulto a mãe do árbitro, a quem sinceramente não quero mal nenhum. Mais, tenho muita pena que “a bola” em Portugal não leve mais público aos estádios, gostava mesmo de os ver sempre cheios e vibrantes como acontece em Inglaterra e nalguns recintos espanhóis. Mas somos um país atrasado e pobre, cujo povo tem outras prioridades; o mais das vezes sobram-lhe só uns cêntimos para o jornal Record, e prá licença da TV Cabo, sabe Deus como.
Com o futebol vivem-se tão vertiginosas quanto efémeras alegrias e tristezas, euforias e desilusões que se curam depressa, com uma boa noite de sono e um pouco de juízo. Ontem num zapping pelos canais do cabo, encontrei o José Peseiro, antigo treinador do Sporting, a quem o entrevistador perguntava se o tinham marcado aqueles quatro dias loucos em 2005, em que a sua equipa perdeu a final da Taça UEFA e o título de Campeão Nacional para o arqui-rival Benfica. Foram dias alucinantes: ainda hoje me arrepio com o turbilhão de sentimentos então vividos. Mas o pior para mim ainda estava para vir: por baixo do meu quarto (moro num 1º andar) fica um pub onde habitualmente se juntam benfiquistas aos urros... e nesse Domingo a canalhada festejou a noite inteira... e eu não preguei olho – uma verdadeira tortura. O problema não foram as dores de cabeça, foram as dores de cotovelo.
Ainda assim, sempre que há jogo e a minha vida o permite, faço-me à estrada com o meu enteado e rumamos a Alvalade, de cachecol verde ao pescoço na esperança daquela fugaz alegria, dum momento mágico que nos leve aos píncaros numa mágica comunhão tribal. Onde é que já se viu alguém desanuviar das tensões nervosas a ler “Em Busca do Tempo Perdido” ou a ver o Canal Parlamento?
De resto, parece-me que o que faz mal aos portugueses não é futebol a mais ou a menos, mas antes um proverbial atraso cultural e uma congénita irresponsabilidade da qual nem a Europa nem o ensino obrigatório nos conseguiram ainda libertar. Mas isso já é outra história.
Friday, February 6, 2009
Gosto de bola não ocupa lugar!
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O espelho de Alcácer
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João, não ligue ao meu desabafo: o que eu tenho é uma monumental inveja dessa capacidade de vibrar com um clube de futebol, dessa bendita alienação e, sobretudo, dessa catarse que lhe acontece a si... ou seja, uma monumental dor de cotovelo! :-)
ReplyDeleteMas esse tema daria pano para mangas. Não me pareceria tão grave o poder esmagador do futebol se ele fosse só um dos interesses nacionais, e não o único... é o tal atraso cultural que nos limita as escolhas e nos faz mais escravos. Não é o seu caso, evidentemente, que escolhe o futebol conscientemente como diversão e não o transforma no centro da sua vida. Mas é o de muitos portugueses... de mais, na minha opinião. Já não peço Proust, mas...
Caro João,
ReplyDeleteFugiu-lhe a boca para a verdade quando diz que ruma a Alvalade para desanuviar das tensões nervosas, porque se em vez de terapia fosse futebol o que procurava, teria que rumar, os exemplos já não são muitos, mas às Ilhas Britânicas serviria.
Assistir a homens de negro a iludirem uma plateia deixou de ter interesse para mim desde que um mágico resolveu mostrar na televisão como são feitos todos os truques. As ilusões podem ser muito bem feitas (o que nem sequer é o caso em Portugal, convenhamos), mas já sendo conhecidas perdem o encanto.
Quanto aos estádios pouco frequentados, não se deverá o facto exactamente ao problema do futebol se ter transformado num "ritual de tribos", e cada vez mais primitivas acrescentaria eu, em vez de ser um espectáculo de família?
Um abraço
Muito bom post!
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