Thursday, January 22, 2009

Elogio às rotinas

Sou uma pessoa basicamente indisciplinada, logo bastante desorganizada. Quando era miúdo, lembro-me bem, só não perdia a cabeça porque ele me estava agarrada. E assim se manteve até hoje nem sei bem como. Nessa altura a minha carola voava, voava. Sempre fui um sonhador, um idealista, com traços de meio poeta. Focado numa qualquer paixão de circunstância, perdia-me facilmente. Estas características cedo me guiaram ao caos. Até ao liceu não me lembro de ter agendado um teste e estudado a fundo o que fosse. Cada vez que tinha um, era um susto apavorante  ao entrar para a aula. As minhas notas eram imprevisíveis. Era capaz do melhor e do pior. Vesti muitas meias desemparelhadas, perdi documentos importantes, cadernos, livros; e até deixei a minha mochila viajar sozinha de autocarro até ao Bairro Madre de Deus. Chegado ao auge da adolescência, com as experiências inerentes ao estatuto, com as borgas mais ou menos surrealistas, o caos chegou aos píncaros. Por essa altura experimentei uma precoce e traumática experiência laboral, como paquete de uma conhecida empresa de promoção de torneios desportivos. Resultado: depois de várias broncas e humilhações descobri que só havia uma maneira de sobreviver no mundo concreto e cruel: pousar os pés no chão. Foi duro e levou muito tempo.

Hoje, passada a tormenta, considero-me um homem feliz em grande parte graças à disciplina que afincadamente cultivo e aos muitos rituais a que sou fiel. Hoje, deixo o telemóvel no mesmo sítio todos os dias. A carteira só por uma catástrofe não estará no sítio certo. Doeu muito mas hoje sou surpreendentemente metódico, quase como um computador - a descoberta da informática foi determinante para a minha organização: o meu telefone e computador apitam sincronizados quando tenho ginásio ou uma reunião. Alertam-me quando um familiar ou amigo faz anos - desta forma ainda não falhei um aniversário de casamento. Raras vezes chego atrasado a algum sítio: com o tempo aprendi a dominar o tempo. deito-me a horas e levanto-me com as galinhas, pontualmente com um delicioso café. Com os múltiplos deveres familiares e um trabalho exigente e cansativo, levo afinal uma vida bastante previsível. Quando faço uma noitada fico dois dias doente: à meia noite transformo-me numa sensível abóbora.

Hoje sou o mais certinho dos seres vivos. Convicto e sem arrependimento: promovo animadamente variadas rotinas e rituais, como se fossem as linhas e as margens de um caderno onde escrevo a minha vida. Que inspiram e suportam um projecto de vida e a minha liberdade... Que me permite fugir à rotina e até falhar a algum importante ritual. 

 


Texto reeditado

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