Sunday, December 14, 2008

Chamar os bois pelos nomes


Sobre os persistentes motins de Atenas muito se tem escrito e discutido. Quase sempre os fazedores de opinião tomam os tristes acontecimentos da capital grega como um aviso à navegação, desta Europa à beira duma recessão económica sem precedentes. A grande ameaça está no poder que vive na rua, diz-nos a História nas suas mais sangrentas e cruéis páginas.

Os materialistas e alguns cientistas sociais (o que quer que isso seja) apressam-se hoje a reclamar que os tumultos de Atenas se justificam numa perspectiva de “luta de classes” com uma geração agastada com o prenúncio de um novo ciclo económico, o primeiro negativo desde há  muitas gerações. Essa conclusão parece-me precipitada, um wishful thinking dos sabichões do costume que nos desvia das mais profundas razões da decadência do “ocidente democrático”. Ora parece-me a mim que não consta que uma “geração”, um grupo etário, por natureza indistinto e heterogéneo, “pense” e muito menos possua “sentimentos”, reagindo como um corpo a quaisquer estímulos.

A mobilidade social hoje é uma realidade, uma conquista reforçada nos tempos modernos com o estado de direito, o liberalismo e o fim dos morgadios: numa família, uma geração ganha e perde poder de compra em relação à outra tendencialmente por força do empenho ou do demérito dos indivíduos. A decadência de famílias e de fortunas é um fenómeno perfeitamente vulgar dos quais conhecemos demasiados exemplos, e histórias. Os tempos que se aproximam serão de crise e de decadência para muitos, e naturalmente constituirão uma oportunidade para outros se destacarem e vencerem.

Relativamente aos motins de Atenas, quanto a mim o foco da análise não se deveria afastar da questão principal que reside na perda de autoridade do Estado: perante a realidade da natureza do homem, a democracia, o menos imperfeito dos regimes políticos, a ser viável, só o é com o exercício firme da autoridade, noção antagónica ao relativismo moral promovido pela cultura esquerdista que mina por dentro o sistema, numa lógica de "quanto pior melhor".

As rebeliões na Grécia começam com um caso de polícia e de delinquência juvenil que descamba desastrosamente por causa de uma crise profunda de autoridade do Estado. Sem que no entanto deixem de facto de constituir um caso de polícia e de delinquência juvenil.

 

5 comments:

  1. " com o exercício firme da autoridade, noção antagónica ao relativismo moral "
    É isso! Não vale tudo! Nem tudo tem o mesmo valor! E não abdico aqui da noção de tolerância no sentido da compreensão... Porém, o que leva a não abdicar da noção de tolerância, leva a não embarcar no "Em Roma sê Romano" ...
    :))

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  2. Independentemente do àngulo pelo qual se quiser afinar o ponto de vista, uma coisa é certa: fosse a Grécia um país com as contas públicas equilibradas, emprego q.b., corrupção insignificante, justiça social, sistema judicial eficaz e futuro mais ou menos garantido para a generalidade dos cidadãos, é garantido que nada disto estaria a passar-se. Mas a Grécia não é nada disso. É mais como Portugal...

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  3. Completamente de acordo com o JC. Só trocaria o "e" que se segue a "sistema judicial eficaz" por "ou".

    Em Portugal só não se passará ainda o mesmo que na Grécia porque o nosso Governo é suposto ser Socialista. Mas cuidado! O poeta vai dizendo que o "rei vai nu". Se é ouvido...

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  4. Tal-qualmente, meu caro. Não só vai nu como tem um aspecto cada vez mais repulsivo...

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  5. Se bem, Meus Caros Amigos, que o Maio de 1968 com que os estudantes gregos gostam de se comparar, não ocorreu num País que apresentasse problemas destes.
    Creio que é o segundo caso europeu de orquestração de uma revolta por meio da Internet. O primeiro foi a reacção às Bombas de Madrid do 11 de Março, recordam-se?
    Abraços

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