Tuesday, December 9, 2008

A tragédia grega

Dei uma volta pelos blogs do costume e poucos ou nenhuns comentários encontrei sobre a rebelião juvenil em Atenas. Tal parece-me estranho, pois toda a Europa moderna e “livre” deveria por estes dias também estar a ver-se grega.


Sobre os factos, o poder de rastos pelas ruas, desta feita não há desculpas de minorias étnicas ou  outras inadaptações. A ameaça da crise económica e do desemprego também não são certamente as razões mais plausíveis. Revolta pura, ou apenas uma "birra" medonha?

De resto, só me espanto com aqueles que se espantam. Parece-me que dum inferno destes também nós já não estamos livres, pois que há décadas construímos a nossa civilização como se a existência se reduzisse a um festival de rock, gadgets electrónicos e outros fumos tóxicos. Todos rosadinhos, bem alimentados e vestidos. Sem contar com o descrédito nas "instituições democráticas", o desenraizamento moral, o hedonismo militante e a desgraçada ignorância são per si  uma mistura explosiva, enfim a mais trágica das misérias. E todos bem sabemos como quem nada de nada tem, nada de nada teme perder...

5 comments:

  1. Creio que a resposta está na sua conclusão sobre «a mais trágica das misérias», meu caro: «todos sabemos bem como quem nada de nada tem, nada de nada teme perder». Por isso mesmo, só não são «todos rosadinhos, bem alimentados e vestidos». Nem podiam ser: é a miséria.

    A situação em Atenas (que parece estar a estender-se a outras cidades gregas) é grave e julgo que só por cá é que o caso tem sido quase ignorado. Hoje, pelo menos, já toda a imprensa internacional o foca, mesmo do outro lado mundo (na Austrália, por exemplo).

    Com efeito, a rebelião teve a sua causa próxima no jovem baleado pela polícia, como se sabe. Mas tem uma causa longínqua e o caso do jovem foi apenas a gora de água num copo já cheio. A causa profunda está realmente na marginalidade, no desemprego, na falta de abrigo, na miséria, nas carências de toda a ordem e na falta de protecção. Sobretudo, na falta de futuro.

    Estão assim, pois, os jovens gregos que, por nada de nada terem, nada temem perder. De resto, sobre isto mesmo, já um 'post' vosso de ontem (do Severino, salvo erro) apontava esta triste realidade. O caso é grego, mas pode passar a ser de todos. Nosso também. Só falta o pretexto, mas o perigo está aí pronto a espreitá-lo. E nunca por nunca será uma 'birra'...

    ReplyDelete
  2. Amanhã há paralisação geral na grécia. Todos os sectores, leu bem.

    Afinal não são só os miúdos ...

    ReplyDelete
  3. Caro JC: eu queria antes destacar a ausência de ideais e de valores que os anarco-liberais que reinam o nosso tempo desprezam como meros caprichos dalguns loucos românticos.

    ReplyDelete
  4. Concordo consigo, João. Talvez por isso me tenha parecido arriscado o seu tom relativizador, se bem o entendi. Acredito que é muito mais grave e que a falta de ideais e de valores (dado adquirido) têm de ser encarada a partir da falta de futuro, sobretudo. Dir-me-á que as coisas andam ligadas. E eu volto a concordar. A gestão pública está no cerne do mais indesejável que caracteriza os nossos dias.

    ReplyDelete

O espelho de Alcácer

O ruído da espuma dos dias nos noticiários cansa-nos, avassala-nos e, não raras vezes, anestesia-nos a alma. Por isso, a nossa primeira reaç...