Sou monárquico. Acredito profundamente na superioridade civilizacional da instituição realista e decidi há uns anos abraçar a missão de, neste país sem memória, não deixar esquecer a causa que anseio perdure e prospere nas futuras gerações.
Mas ao contrário do que possa parecer, o grande adversário deste ideal não está tanto na esquerda jacobina ou no positivismo materialista, mas antes reside entre os seus adeptos: está em primeiro lugar, em boa parte da elite académica cultural e política nacional que, nutrindo simpatia pela causa, abdica dela, bem fundo na gaveta do "pragmatismo", como garantia duma bem sucedida carreira pública sem embaraços. Em segundo lugar, está em algumas pessoas, pedantes snobs que gravitam em estéreis organizações monárquicas, ávidas de filar honrarias nobiliárquicas de obscuros antepassados. Estranho quanto a falta de noção de ridículo e tanta vaidade impeça esses patetas de perceber como prejudicam a nossa tão fragilizada causa.
Finalmente, concedo que a regeneração de Portugal está a montante desta questão do regime. Passo prioritário seria sem dúvida a implementação duma cristalina meritocracia, duma sólida cultura de responsabilidade e excelência, que se sobrepusesse à vigente lógica do ressentimento e da devastadora inveja portuguesinha. Só depois disso será possível a Restauração.
Saturday, November 29, 2008
Sejamos realistas...
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O espelho de Alcácer
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Sem subescrever a causa, assino por baixo da essência, meu caro. E, bem a propósito, recordo as considerações pragmáticas do grande Mouzinho da Silveira, ainda a Revolução Liberal tardava a ser irreversível e Portugal vivia em plena guerra civil.
ReplyDeleteDizia Mouzinho que os grandes vícios do País estavam nas instituições vigentes, caducas e obsoletas, e que, para benefício dos cidadãos, era mais importante reformar as estruturas do Estado do que proceder à mudança do sistema de governar.
Estadista e o maior reformador que tivemos, dizia ele também que até a Constituição já lhe parecia quase supérflua: com ela ou sem ela, era possível fazer mais e melhor, alterando radicalmente a teia institucional em que Portugal estava enredado.
Referia-se ele à corrupção e incompetência, ao compadrio e facilitismo. O que mais impressiona nem é a visão rigorosa do que ele dizia. É a sua actualidade...
Volta, Mouzinho, que estás perdoado. Regressemos a 1832 e vamos outra vez ao Cerco do Porto para começar de novo.
ReplyDeleteTalvez a elite académica cultural e política nacional simpatizante da causa monárquica não seja tão carreirista e preguiçosa como o João Távora a supõe. Não poderá ser apenas nojo de se poder ver misturada com o segundo grupo que aponta?
ReplyDeleteParece que não. O João Távora já explicou: é apenas por uma «bem sucedida carreira pública sem embaraços»...
ReplyDeleteCaro Pedro: essa é a mais esfarrapada das desculpas de quem receia dar o corpo ao manifesto... pela mudança. Abraço!
ReplyDeleteNão posso estar mais de acordo quanto à desastrosa defesa da causa monárquica, entregue muitas vezes a esses acéfalos e incultos pedantes, ansiosos de reaver (em muitos casos nunca as tiveram, na verdade) honrarias que julgam ser-lhes devidas "em nome do nome" e sem que para isso tenham de mexer um dedo. É pena, porque acredito que há gente de valor entre os monárquicos, gente lúcida e com convicções que vão além dos interesses do seu umbigo. Mas, infelizmente, são sempre os outros os mais visíveis. E os mais ridículos.
ReplyDeleteNão sou monárquica, e por uma única razão: não tenho nada contra o facto de ser governada por um rei (e até reconheço inegáveis vantagens nesse regime), mas já não aceito que o filho desse rei me governe sem ter de provar que merece a responsabilidade e o lugar. É isso que me encanita, os genes substituindo o esforço e o mérito. Se houver alguma volta a dar à sucessão automática e inquestionável, talvez um dia pense seriamente em aderir à causa.
Caro João Távora,
ReplyDeleteFoi apenas uma pergunta espontânea que me ocorreu ao ler o seu post, mas que, a ver pela sua reacção, talvez mereça aos monárquicos alguma reflexão mais aprofundada.
Eu não posso aceitar que "BOA PARTE" da elite monárquica portuguesa seja como a pintou, senão...
Um ou outro, vá que não vá, mas prefiro contá-los no lado dos "PATETAS"
Um abraço.
Caro João Távora
ReplyDeleteGostei do entusiasmo com que abraça e defende a causa monárquica.
No meu caso, nunca me revi nesta república, mas não convivi com o outro regime, a não ser da História.
Esta república iniciou-se de forma violenta e não foi um movimento popular, foi imposta (é assim que vejo o seu início até que me provem o contrário). Portanto, não podemos subestimar o papel de grupos radicais em reuniões secretas (todo um mundo doentio).
Também em relação à identidade portuguesa e à forma como está a evoluir a sociedade, os valores, as prioridades, a questão é muito mais complexa. Tocou em certos sintomas mas é preciso uma análise mais profunda.
Além disso, a república representa, actualmente, a ideia histórica de continuidade, já reparou? Não é por acaso que os presidentes têm sido reeleitos. Aos olhos dos cidadãos, é quase como se tivessem "pegado no testemunho".
Gostei de ouvir o debate república vs monarquia no Prós e Contras, no início do ano (aliás, o único que valeu a pena assistir, até hoje...) Para já, porque os intervenientes e convidados respeitavam os adversários e tudo correu com "fair play". E gostei da síntese poética que um republicano propôs: "República com rei". Dizia ele que "o rei é o lugar dos afectos". Gonçalo Ribeiro Telles também insistiu neste ponto, que o território seria mais amado e respeitado numa monarquia.
Mas houve de facto uma alteração profunda na identidade portuguesa. Virgílio Castelo refere-o n' "O Último Navegador", que qualquer coisa aconteceu para deixarmos de ser um "povo solar" (corajoso) e passarmos a ser um "povo lunar" (deprimido). Achei interessante.
Bem, já me alonguei demais porque o tema me interessa. Cumprimentos e bons debates.
Ana (vozes_dissonantes)