Friday, November 28, 2008

Da boa educação

Não sou nenhuma flor de estufa, tenho os dois pés no mundo e no entanto faz-me alguma confusão a crescente banalização duma  linguagem feia e rasteira que prolifera  em cançonetas, filmes e programas de televisão, direccionados a uma determinada faixa etária ou “segmento de mercado”. Basta ver um filme de acção americano para classe média, um qualquer reality show, bonecos animados para adolescentes, ou escutar as palavras dum irrelevante recitador de RAP, para sermos confrontados com a mais hostil gíria e descontextualizado insulto a tudo o que mexe.  Um dia destes vi na MTV, num reality show na moda entre os adolescentes, uma rechonchuda cachopa americana vilipendiando ao vivo a sua namorada traída; numa verborreia onde o epíteto “cabra” era o mais carinhoso dos adjectivos. Eram seis da tarde.

O problema é que as palavras e os símbolos nunca são só palavras ou símbolos; possuem significados precisos e refletem sentimentos concretos dos quais jamais se descolam. No entretanto, a mesma adolescentocracia que tolera e trivializa estas aberrações “culturais”, vem a jusante chorar lágrimas de crocodilo e indignar-se com a violência doméstica, discriminação e outras enfermidades sociais que afinal alguma educação e valores teriam por certo atenuado.


Em meados do século XIX o jovem rei D. Pedro V idealizou a democratização da instrução, acessível e obrigatória a toda a população portuguesa. No dealbar do Século XXI o desafio é descobrirmos o que fazer para uma eficaz propagação dos bons valores e da boa educação.

 

3 comments:

  1. Tem razão, João, a violência na linguagem não é inocente nem se pode dissociar da violência em geral. Veja-se o assustador crescimento da violência física entre os mais novos, a começar logo nos namoros adolescentes. Concordo consigo, a transmissão de valores e regras mínimas de educação começa a ser o verdadeiro desafio das sociedades, e não me parece que seja só um problema português.

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  2. Ainda antes de D. Pedro V, ainda antes de D. Fernando II, ainda antes de D. Maria II, ainda em vida de D. Pedro IV, ainda o Exército Libertador tomava balanço em São Miguel para o desembarque no Mindelo, já Mouzinho da Silveira, na regência de D. Pedro de Bragança, proclamava passar a ser livre e universal o ensino nos Açores, em 1832.

    Ainda havia bons valores e ainda se queria boa educação. A regressão é muito mais recente. E é sensível de geração para geração...

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  3. E ser grosseiro afinal é a maior das caretices , Ana. Obrigado pela visita.

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