Monday, August 11, 2008

Socorro, salvem as gravatas!


Assumido monárquico, católico, conservador e sportinguista, com muita experiência e  larga ascendência de derrotados pela história pelo menos desde o século XVIII, estou há muito habituado ao sentimento de perdedor. Mesmo assim, ainda é com apreensão que leio no Diário de Notícias o ameaçador prognóstico do fim da gravata, esse ancestral e elegante artefacto de moda masculina. É uma questão de "eficiência energética", dizem eles... Naturalmente estou preparado para resistir, e se o seu comércio vier um dia a ser proibido, julgo possuir bastantes para muitos anos de luta.


Sobrevivente nesta sociedade massificada e igualitária, considero a gravata um dos últimos redutos da distinção no trajar masculino formal, um subtil e gracioso indício da personalidade de quem a usa. Durante a semana de trabalho gosto muito de a vestir com um discreto fatinho de bom corte, escolhida a preceito, e que com gosto irei despir ao final do dia num impulso libertador. Do mesmo modo, agrada-me ao fim de semana usar roupa descontraída, umas calças coçadas e umas sapatilhas. Cada coisa no seu lugar, que para mim a roupa é um espelho da alma e das circunstâncias que vivo: por exemplo, detesto às quartas-feiras europeias ir enfarpelado ver a bola, capricho que me obriga a trazer uma muda de roupa para Lisboa.

Aqui nas Amoreiras, onde trabalho, há muito que observo a moda da "camisa aberta" alastrar como uma epidemia, afectando principalmente os mais jovens executivos. Parece-me que essa adesão provém não só da necessidade de se sentirem aceites, mas duma clara inexperiência de vida que não lhes ensinou a técnica de, na loja,  provar uma camisa com um colarinho de medidas adequadas, que não os estrafegue se estiver abotoado. Assim, até acredito que se sintam muito “in”, democráticos e ecológicos, encafuados em fatos de marca, com camisa de gola aberta, mais parecendo empregados de restaurante sem o laçarote, como quando estão a conferir a caixa ou a fazer a mise en place para o turno seguinte.

Finalmente, como declaração de interesses, assevero que não tenho ar condicionado em casa e dispenso-o bem no trabalho. Aguento com naturalidade uma larga amplitude térmica, sem grande afectação de espírito; a minha mulher pode comprová-lo. Possivelmente é  uma característica genética desenvolvida por gerações de Távoras e outros ramos,  habituados a muitos azares e outras contrariedades da história.

11 comments:

  1. Só por curiosidade, é mesmo descendente dos Távoras? Aqueles do Marquês...

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  2. Não percebi o post... mas quem é que o quer impedir de usar gravata?

    Pedro

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  3. Caro João

    Já reparou que a noticia tem dois sentidos!

    Se no Verão não usar gravatas pode trazer poupanças ao nivel do consumo energético do ar condicionado, aumentando dois graus a temperatura, então no inverno a utilização obrigatória de gravatas fará com que seja desnecessário colocar o mesmo ar condicionado a aquecer mais o ambiente.
    Se a ONU estiver correcta a utilização obrigatória de gravatas no inverno fará com que o ar condicionado estaeja dois graus mais baixo que o usual, poupando assim muita energia, sobretudo pois no Inverno é que ocorrem os maiores consumos de energia.

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  4. João Távora:


    Assumido republicano, de esquerda, Cristão e sportinguista, também eu gosto de gravatas. Hoje, já reformado, só as uso raramente quando vou a cerimónias ou ao teatro.

    Todavia, acredito que quem ler o seu "post" não vai ter a coragem de promulgar qualquer lei no sentido de ilegalizar a venda de gravatas. Mas, se tal tragédia vier a acontecer, desde já pode contar com o meu modesto "stock", para melhor resistir ao cerco. Esta é uma guerra que eu não quero que perca. O único problema será, porventura, o meu gosto não estar à altura da sua exigência.

    Quanto ao resto, disponha.

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  5. empregado de mesa nas amoreirasAugust 11, 2008 at 1:58 PM

    Hádes vir cá almoçar que até te limpas à gravata

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  6. ehehehehehehehehehehehehe....

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  7. Hádes, hádes...

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  8. Recorda-me um desses experientes "derrotados pela História" que pouco antes da execução pedia ao carrasco que tivesse cuidado para não amachucar o seu colarinho de folhos...
    Cá por mim, prefiro o laço à gravata. Muito mais fresco (como é que o SG da ONU não se lembrou disso?) e denotando sempre muito maior personalidade.

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  9. Sou do tempo em que não podia asssistir a uma aula na Faculdade de Direito, sem gravata e, talvez por isso, tornei-me adepto do "papillon"

    Apesar de não ter ascendência nobiliárquica, também sempre dispensei com agrado o ar condicionado ( a única excepção, foi mesmo quando vivi em Macau).

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  10. Agradeço os comentários.
    Sim caro Tiago, sou um magnífico objecto museológico.
    Caro Luis Bonifácio gosto em vê-lo por cá! Desse fabuloso argumento não me lembrei eu!
    Caro Manuel Leão: Teremos muitos mais pontos que nos unem do que aqueles que nos separam... mas de facto as gravatas são escolhas muito pessoais.
    Não entendo o melindre do empregado de mesa, pois eu jamais o desconsiderei.

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  11. Caro João
    Gostei do que diz e partilho consigo muitas opiniões (e logo as 5 primeiras linhas).
    Para mim, que não uso gravata no dia a dia...é-me libertador pelos motivos opostos aos seus, ou seja, diferencia-me, porque a ocasião onde uso é diferente do meu dia-a-dia.
    Tendo a mesa característica genética de aguentar muito bem as diferentes amplitudes térmicas (para desespero da minha mulher) acho que esta geração, nesse campo está a enfraquecer...e a viver dominado pelas condições de temperatura!
    Permita-me só divergir numa afirmação...não me considero derrotado ou perdedor , mas sim temporariamente contrariado, e julgo que um dia teremos o Sporting campeão ou o Duque de Bragança no trono...
    Talvez derrotado numa batalha, mas com muita "guerra" ainda pela frente!
    Abraço

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