A grande cidade torna-se mansa em Agosto; adivinha-se-lhe um pedaço de silêncio no asfalto subitamente deserto e tremeluzente do calor. Os poucos que ficaram por conta dos serviços mínimos partilham a calçada com os turistas, de guia na mão e em calções de caqui. Pela rua afora gozo esta descompressão quando sou resgatado à realidade por um táxi envelhecido que passa rotativo e ribombante, num rasto de fumo negro. O estalido dum bater de asas atrai o meu olhar para as pombas recolhidas à sombras num beiral. E nem está muito calor como nos ameaçaram os meteorologistas na primavera.
De qualquer modo, estamos em Agosto, os jornais e as revistas sobejam amontoados no quiosque junto à avenida. Hão-de faltar algures no litoral a rebentar de forasteiros bronzeados e barulhentos... A vendedora folheia absorta uma revista do coração e nem dá por mim a espiolhar o interior de um jornal que não vou comprar. Ali ao lado um velho engraxador de dedos tisnados, puxa o lustro ao próprio sapato, não vá ele perder a prática.
Chegado à esplanada vazia, dois empregados demoram a detectar a minha presença e sou atendido com consentida displicência. Como era de esperar o pedido vem trocado. Prazenteiramente aceito a adversidade e almoço devagar enquanto leio o jornal pois hoje até tenho tempo. “Agosto é desgosto”, diz o povo na sua anacrónica sabedoria. Por mim não tenho razão de queixa.
Imagem roubada à Luísa, com a devida vénia.
Sou chato, claro! Mas o melhor do post é a photo!
ReplyDeleteFoleiro mesmo é o sitio onde vivem os chatos.
ReplyDelete"Pela rua afora gozo esta descompressão e sou resgatado à realidade por um táxi envelhecido que passa rotativo e ribombante, num rasto de fumo negro"
ReplyDeleteCaro João Távora: Curioso o seu postal de Lisboa por estes dias de férias estivais.
ReplyDeleteAprecio os textos do Távora, mas desta vez concordo que a imagem é mais interessante.
ReplyDeleteTomaram Eça, Camilo ou Aquilino escrever assim. Que inveja os atacaria se pudessem ler esta pérola!
ReplyDeleteVejam só:
Tremeluzente, descompressão, ribombante, forasteira, tisnados, displicência, prazenteiramente, adversidade, anacrónica.
Puxa!
Eu nem sabia que existiam essas palavras.
Pode sugerir que sejam acrescentadas às "Palavras que eu odeio"...
ReplyDeleteLamento a falta de jeito, mas faz-se o que se pode para manter as hostes animadas no Corta-fitas, e pelos vistos funciona. Voltem sempre.
ReplyDeletePois eu, João, gosto. Gosto um bocadinho da fotografia… ;-D . E gosto muito do texto, retrato expressivo desta Lisboa um pouco despovoada e indolente de Agosto, em que o tempo parece, de súbito, chegar para tudo e até corre uma maravilhosa aragem!
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