Monday, July 14, 2008

Crónica de Algés


À partida não gosto de festivais. Desagradam-me a charraria generalizada, o histerismo alcoólico, e gente demais para quem a música definitivamente não é o mais importante. Também me aborrecem os eflúvios orgânicos que emergem às tantas a meia distância do palco, único sítio viável para vermos o espectáculo sem ser pelos ecrãs gigantes. Para vê-lo num ecrã, tenho um bom em casa e não faltam registos de bons concertos no mercado.

Mas enfim, cada um tem o que merece e confesso que o Bob Dylan me desiludiu bastante. Quase insolente de tão blasé, não reparei que tivesse olhado para o público uma vez que fosse, limitando-se a despejar mecanicamente quinze temas quase irreconhecíveis de tão "recreados". Eu bem tentei entrar na onda, mas o pessoal à minha volta também não ajudava: contentavam-se a fumar charros de costas para o palco, a mandar “sms” ou a conversar (!) aos gritos aos ouvidos uns dos outros. Convenhamos que experimentei sentimentos mesmo maus e que nessa noite saí frustrado.

Já com Neil Young abstraí-me inteiramente das minhas esquisitices: o espectáculo foi simplesmente memorável, encheu-me as medidas. O eterno trovador, do alto dos seus 64 anos, demonstrando uma invejável boa forma, “deu o litro”. Quase nos fazia acreditar que aquele era o concerto da sua vida. E assim o pessoal rendido entregou-se em êxtase a um alinhamento de temas supremamente  requintado:  do country acústico de Harvest, ao rock mais áspero de The Rust Never Sleeps passando por After the Gold Rush ou por Spirit road do mais recente álbum Chrome Dreams. E para surpresa final um remate de mestria, uma assombrosa interpretação de A Day in the life dos Beatles, que quase nos deixou a todos em transe.  E como diz o povo, "isto" meus senhores, "é do melhor que a gente leva daqui”. Graças a Deus, digo eu.

 

4 comments:

  1. A inveja é o mais feio dos sentimentos, mas neste caso é incontrolável :(

    ReplyDelete
  2. E quando no outro dia anuncio estes concertos, quando me confessei desse "sentimento feio" tinha em mente Neil Young: perante o que leio, não tenho dúvidas- reitero-o :)

    ReplyDelete
  3. Senti exactamente o oposto relativamente ao concerto de Bob Dylan , ou seja, gostei muito de estar ali e consegui abstrair, na medida do possível, do ambiente, de facto, muito promíscuo. Tive a sorte de ficar bastante perto do palco e essa pequena brecha aberta sobre o cenário fez-me respirar o ambiente genial de um artista que desafia (sempre desafiou) todas as convenções. É necessário estar profundamente irmanado com o espírito daquele homem para não ficar desiludido por ouvi-lo cantar, recriando constantemente, as suas músicas. Elas pertencem-lhe, não é verdade? Saíram-lhe da mente e do espírito, não foi? Vê-lo em palco, ao vivo, é assistir a uma cerimónia e comungar com ela deve ser a atitude necessária! O que eu vi e senti foi um homem tímido e introvertido a fazer com rigor o seu papel (ou a viver a sua vida, como quiserem) porque é isso que ele faz e é isso que ele é há mais de 40 anos!
    E tanto quanto sei ele nunca interage com o público, nunca diz mais do que umas palavras (quando apresenta os outros músicos), raramente sorri...porque haveria de ter sido diferente este ano no Optimus Alive ? Quem decide ir ver o Bob Dylan deve saber antes para o que vai!

    ReplyDelete
  4. como está dito acima .. a inveja é o mais justificado dos sentimentos

    ReplyDelete

O espelho de Alcácer

O ruído da espuma dos dias nos noticiários cansa-nos, avassala-nos e, não raras vezes, anestesia-nos a alma. Por isso, a nossa primeira reaç...