Friday, June 27, 2008

Tire a mãe da boca *

O verdadeiro problema de Portugal, maior do que todos os seus “desgovernos”, é os portugueses. Salvo honrosas excepções, genericamente somos gente matreira, irresponsável, preguiçosa e por consequência deprimida.

Exceptuando os anos de António Guterres (que está reformado graças a Deus), desde que me conheço que oiço falar em “crise”: há séculos que todos os estudos e estatísticas teimam revelar o nosso país bem no fundo de quase todas as tabelas.

Ora parece-me que aquilo de que Portugal precisa, mais do que bem intencionadas reformas “ortopédicas”, é de uma mudança radical de mentalidades. Que começa pela assumpção de cada um da responsabilidade que o próprio tem pela sua vida, pelo seu projecto, pelo seu país. Com ambição, com vontade, sem desculpas. Há séculos que vivemos a responsabilizarmo-nos uns aos outros pelos nossos insucessos. Responsabilizam-se os ministros, responsabilizam-se os empresários, responsabilizam-se os empregados, responsabilizam-se as elites e os trabalhadores, responsabilizamos o clima, a religião e a vizinha do lado.

É tempo de deixarmo-nos de pieguices e de cada um encher o peito de ar e fazer-se à vida com ambição e responsabilidade. É tempo de incutirmos princípios, aspirações e força de vontade aos nossos miúdos, dar-lhes o exemplo. Ensinar-lhes que eles são os primeiros e últimos responsáveis pela sua vida e pelo seu sucesso. Que o único verdadeiro poder que detêm é sobre os seus comportamentos e atitudes.

Por patriotismo, devíamo-nos todos deixar de tretas e juntos mobilizarmo-nos para uma  enorme campanha pela auto-responsabilização e motivação dos portugueses. Só com uma profunda reforma dos portugueses acredito que algum dia possamos sair  do buraco. O resto são balelas, politiquices e pura perda de tempo.


 


* "Tire a Mãe da Boca” é o título de um ensaio e de um antigo programa radiofónico da autoria de João de Sousa Monteiro.


 

5 comments:

  1. Assim de repente, o que tiro deste post é:
    Bora lá todos juntos tratar cada um de si.

    Fora de brincadeiras, acho que o problema de Portugal se deve sobretudo à geografia (e politica associada). Acho que é essa a tese de João Gil, sem ter lido o livro "O Medo de Existir". Estamos numa ponta, rodeados de mar de um lado, e poucos espanhois de outro. (A espanha é um anel de população em volta de um deserto, basicamente). Aqui, uma vez estabelecidas as fronteiras do país, ficou vedada a entrada de ideias, visões, alternativas de futuro.
    O que havia de novo era dos poucos que iam longe e voltavam.

    Tenho alguma esperança de que a internet e outras formas de disseminação de ideias ajudem a mudar isso, mas é coisa para gerações.

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  2. Caro I Rodrigues: não me venha cá com essa sua paranóia do neo-liberal que eu até sou católico. Claro que o nosso problema é da geografia, e como quanto a isso não há nada a fazer, ficamos bem assim.

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  3. E quando não nos permitem dizer isso "aos miúdos" porque o que interessa é "o sucesso educativo"?

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  4. Eu diria que o problema português é ligarem muito à forma e pouco ao conteúdo. São vidrados em "você" , no respeitinho , no doutorzinho , nos rituais , no parecer. São capazes ( foram) de se arruinar para aparentar. A inveja ( como diz o José Gil) é um sentimento que marca Portugal e leva a muitas tonterias capazes de lixar o futuro.
    E isto , sobretudo , do Porto para baixo.
    Como explicar que o país mais pobre , ou quase , da UE seja o país com maior rácio de casa própria ( do banco) , carros , telemóveis , centros comerciais , etc , por habitante?

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