Saturday, April 26, 2008

Devoção e água benta...

Passou ontem o trigésimo quarto dia de S. Vinticincodabril. As cerimónias e celebrações, como habitualmente, realizaram-se nos salões e templos do regime, onde foram entoados diversos cânticos revolucionários do século passado. As habituais homilias solenes foram proclamadas de norte a sul do país.  Os tempos e as santas realizações da revolução foram recordadas entre lágrimas e suspiros nostálgicos dos mais devotos “democratas”.

A prédica mais esperada foi proclamada no hemiciclo de S. Bento pelo Sr. Presidente, que com as suas extraordinárias revelações e sábias advertências não desmereceu as expectativas do público. Depois disto, a crédula pátria não será mais a mesma, pelo menos a contar de segunda-feira que é quando começa mais uma espinhosa semana de trabalho.

As costumeiras procissões e desfiles saíram à rua, mas nota-se-lhes hoje menos brilho do que outrora, nos tempos áureos da função. Os consagrados também já foram mais, mas no cortejo da avenida as suas preces e ladainhas continuam a fazer-se ouvir alto e bom som. Os mais crentes ainda clamam pela promessa do socialismo, a derradeira redenção do povo verdadeiramente unido.

Por esta altura, os pregadores regimentais propagandeiam as suas profissões de fé sobre a insofismável felicidade popular conquistada às trevas da opressão pela revolução dos cravos. Nas escolas e liceus, os mestres da história regimental aproveitam o ensejo de conversão: papagueiam uma tabuada de lugares comuns de uma história maniqueísta e instrumental com as suas ignorantes criancinhas.

Os media uma vez mais deram reverente testemunho destas celebrações e solenidades. Para uma plateia tão catequizada como acrítica que afinal tirou o dia para ir passear...

5 comments:

  1. E logo caro João , a solução é ? Não festejar ? Festejar de forma diferente ? fingir que nunca existiu ? Voltar ao anterior ? É que ao ler estes textos fico sempre sem saber se o aparente cinismo da constatação de vários factos revelam da saudade de celebrações mais verdadeiras ou se da saudade dos tempos passados. E gostaria de saber. Não porque ache inadmissível qualquer uma das duas. Claro que tenho a minha opinião mas gosto de ler outras. Mas também gosto que se vá ao corolário das mesmas. Ou então fica-se exactamente pela mesma superficialidade que critica.

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  2. Até a Rosa Maria, da Rua do Capelão, parece que tem virtude...

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  3. Há festa na Mouraria,
    É dia da procissão
    Da Senhora da Saúde.
    Até a Rosa Maria,
    Da Rua do Capelão,
    Parece que tem virtude.
    Colchas ricas nas janelas,
    Pétalas soltas no chão,
    Almas crentes, povo rude.
    Anda a fé pelas vielas,
    É dia da procissão
    Da Senhora da Saúde.
    Após um curto rumor,
    Profundo silêncio pesa,
    Por sobre o Largo da Guia.
    Passa a Virgem no andor,
    Tudo se ajoelha e reza,
    Até a Rosa Maria.
    Como que petrificada,
    Em fervorosa oração,
    É tal a sua atitude,
    Que a rosa já desfolhada,
    Da Rua do Capelão,
    Parece que tem virtude.

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  4. Era só uma ironia, Anónimo, mas obrigada pela achega.

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  5. Cara Ana: O problema é que não há meio de aprendermos. A história dá-nos demasiados exemplos trágicos da ideologia/religião...

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