Thursday, February 21, 2008

Inveja, é o que é!

O assunto de que fala o João Villalobos aqui em baixo, a nossa famigerada e "antropológica tristeza" (o que quer isso queira dizer), o propalado "cinzentismo tuga", cá para mim é uma grandessíssima balela explorada a seu tempo por cada partido que esteja na oposição. Antes é uma empírica  especulação tantas vezes repetida que passamos todos a aceitar como um facto consumado. 

Muitas vezes, em viagem, tenho procurado nas facies bárbaras um sorriso mais ou menos discreto que revele a tal alegria de viver característica de todos os povos que nos circundam (menos os naturais das Ilhas Caimão, segundo consta). Nada, népia, néribit. Tudo gente trombuda, ensimesmada, pelo menos nas cidades e aeroportos por onde normalmente ando. Por exemplo, em Essen ou Frankfurt, e conhecendo eu o PIB per capita daquela gente, custa-me a entender os seus olhares gelados, aquelas caras circunspectas. Em Londres, onde se cruzam povos de todo o mundo a trabalhar que nem bestas, a pose é semelhante à nossa, igual à das gentes de qualquer metrópole europeia. Exceptuando os muy britânicos machos, com aquele impensável anel no dedo mindinho, ou uma inconcebível gravata do Noddy, lá vão eles, no metro ou pela rua fora, todos empertigados “não me toques que desafino”. Lá vão eles, de língua mordida ao canto da boca, a trocar mensagens de telemóvel, com os fones nas orelhas, ou escondidos atrás dum conveniente jornal gratuito com uma fotografia da Maddie na capa. Que felicidade extra transparecem todos eles em relação aos portugueses? NE-NHU-MA. As razões até podem ser duas: além de serem quase todos uns macambúzios  protestantes, a maior parte das vezes são também uns frustrados sexuais. Falta-lhes o nosso jeito para a brincadeira.

Recentremos então a questão da pretensa mágoa lusitana: acredito que o que obscurece o tíbio sorriso indígena não é o nosso comprovado excesso de actividade libidinosa, mas outra coisa. É a simples suspeita, que perpassa amiúde na mente do português, de que o parceiro do lado pode ser mais feliz do que ele próprio.

3 comments:

  1. Há dois anos, ao preparar as minhas férias, li, algures, que as gentes de Liubliana (capital da Eslovénia) eram tidas como as mais felizes da União Europeia; se são "as mais", não sei, mas que encontrei um povo muito contente com a sua nova vida, disso não me ficaram dúvidas: pessoas muito sorridentes, simpáticas, a conviver nas ruas, de cerveja na mão, música ao vivo em todas as esquinas...

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  2. Eu explico , e o Miguel Esteves Cardoso também era capaz de lho explicar. Em Portugal há uma tendência , da qual eu não sei a origem , de identificar muito riso com pouco siso. Ou seja , um português sério , honesto , é aquele que não se ri , pois rir , em Portugal não está conotado a alegria , mais bem a irresponsabilidade.
    E nada de mais errado. Seriedade não tem a ver com cara séria ,,gravatas e ausência de riso .É outra coisa , é o saber que há tempo para tudo , diversão incluída . Seriedade na vida está a léguas de ausência de mímica facial.

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