Monday, December 10, 2007

Repressão total

Numa viragem de tendência, em 2007 as mortes na estrada em Portugal prevêem-se de novo em crescimento. Nos primeiros onze meses do ano, mais de oitocentos portugueses perderam a vida em acidentes de viação. Um número assustador se da abstracção dos números “descermos” um pouco à terra, aos implícitos dramas reais.
Na semana passada, quando com a família me deslocava a Alcácer na estrada nacional, aconteceu-me por duas vezes ter sido “empurrado” para a berma pelos habituais fangios de fim-de-semana quando ultrapassavam o seu “comboio” de trânsito numa imaginária segunda faixa. Os sustos foram grandes e confesso que, apesar da minha longa experiência de condução, não me parecia possível que a arrogância e a inconsciência pudessem chegar a tanto. Pensei para com os meus botões que estes artistas da estrada eram indígenas que, conhecendo aquela estrada, davam como adquirida a qualidade do piso das suas bermas, para onde literalmente atiravam os carros que apanhavam em sentido contrário. Provavelmente engano-me e são apenas homicidas encartados, que é o que acontece com grande parte dos portugueses quando conduzem. No fundo, o bom do Tuga, boçal e sem qualquer noção de civismo, costumeiramente testa a sua frustrada virilidade ao volante. Pagamos o preço duma cultura de brandos costumes, tradicionalmente paternalista e desresponsabilizadora: nas estradas deste Jardim à Beira Mar Plantado impera impunemente a selvajaria e arbitrariedade, um salve-se quem puder, para o qual as autoridades teimam em fechar os olhos.
Tenho uma amiga minha que conduz SEMPRE à velocidade legal, e por seguir escrupulosamente as regras torna-se quase perigosa, no meio do caos improvisado nas estradas nacionais. Chamam-lhe louca, mas de facto os loucos são os outros que a seu bel-prazer reinventam as regras consoante a conveniência.
Contra o tradicional relativismo legal, a indolente tolerância latina, hoje não tenho dúvidas em advogar uma radical revolução cultural: a intolerância total, a repressão pesada aos prevaricadores. Defendo uma acção de âmbito nacional, com dolorosas multas e penas e sem prazo final. Assim, salvavam-se algumas vidas humanas, e - à atenção dos Srs. Políticos - era bom para o deficit das contas públicas além de melhorar as estatísticas.
E, enquanto não chegasse a civilização ao ensino e às famílias portuguesas, com estas medidas ganhávamos todos, ou pelo menos ganhávamos aqueles para quem o automóvel é só um meio de transporte e para quem a morte e o sofrimento requerem se possível um sentido maior.

9 comments:

  1. Aqui está uma coisa em que podemos concordar plenamente.


    (já agora, "tolerância" tem ali uma gralhazita...)

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  2. "intolerância" aliás. :P

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  3. Caro I. Rodrigues: não me parece que seja assim tão difícil que concorde comigo em muitas coisas. Obrigado pelo alerta.

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  4. O que é muito engraçado é que andavam todos embandeirados em arco com um ligeiro e transitório decréscimo.

    E manifestamente algo mudou (e para pior) para agora todos os dias haver graves acidentes com pesados. Isto tem certamente uma explicação.

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  5. Carissimo,

    Acho que os Espanhois é que fazem bem: Carta de condução a pontos e só num mês prenderam 160 cidadões por excesso de velocidade.

    O Português cuja a educação V. Exa. tão bem descreveu só entende um método: repressão a sério.

    Mas, com estas autoridades de pacotilha, desautorizadas e desentendidas pelos Excelentes Políticos que cobrem todo o nosso expectro partidário... Não me parece...

    Forte abraço e espero que as constipações e gripes da casa estejam melhores....

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  6. 160 cidadões num mês em Espanha? Ena, ena. Não será cidadões em Andorra?

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  7. Até o Sócrates não olha pelo retrovisor - como diz no post anterior - que é que querem?

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  8. Ainda corre o risco de dizerem que o senhor é nazi. Aqui há coisa de um mês o Público divulgou uma sugestão de identificação dos condutores por cores e houve logo acusações desse tipo, a sua proposta ainda é mais severa, logo... mas não se rale não está sozinho eu subscrevo e marimbo-me para o que me possam apelidar

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  9. O único problema quanto a mim e' o da inconsciência. Se ela se transmite em excesso de velocidade, em manobras perigosas, ah condução a 120 numa estrada vazia na faixa da esquerda, não olhar pelos espelhos, álcool, seja o que for, não interessa. As pessoas simplesmente não têm noção de nada.

    Conduzir com alcool ? Sem problemas.
    Muito depressa embora nem a 50 eu sei travar e curvar ? Sem problemas!
    O que eh um espelho? Não preciso, o meu carro ate os recolhe!
    Eu conduzir mal? Sou o melhor do mundo, nunca bati! As motas eh que são um perigo!

    O que interessa eh que o grosso dos condutores, passageiros, peões, ao invés de serem protegidos contra futuros infractores, com um renovado programa de ensino nas escolas, não, vão sendo aqui e ali ridiculamente multados por tudo e por nada, justificando tudo como se as coisas se resolvessem por esta via. No entanto as estradas continuam com curvas cegas, pouca sinalização, ja' para não falar da degradação das mesmas.


    Se eu for a 140 na A1 ou a 120, pouco interessa, basta eu ir a 120 e ultrapassar sem olhar pelo espelho e provoco um acidente, nem preciso de alcool. Secalhar essa pessoa nem sequer vai ser envolvida no dito. Na ideia dessa pessoa, eh o melhor condutor do mundo, porque vai a 120 e nunca bateu, o problema são "os outros" os que conduzem depressa.

    isto foi so um exemplo. Quem não tem consciência, não sabe conduzir pode provocar acidentes seja pelo que for.

    O que eu não tolero eh atirarem-me areia para os olhos, dizendo que a culpa eh do álcool, ou do excesso de velocidade.

    E os outros factores de acidentes? Não acontecem? Não contam?

    Eh que se fôssemos analisar as estatísticas a culpa eh de quem bebe agua! Secalhar não eh a tal agua, são mesmo os tais factores que em cima referi.

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