
Há por aí um discurso simplista no qual facilmente se confunde consumismo e opulência com a benigna tradição do presente de Natal. Nesta quadra também me parece importante evidenciar a nobreza que possui a materialização do nosso amor ou caridade num objecto, um “presente” (que nos tornará presentes) desejável pelo próximo. Oferecer um presente a alguém – de quem nos desejamos (re) aproximar ou simplesmente homenagear, será com toda a certeza uma atitude de uma enorme dignidade. Essencial é não confundir a dádiva de um presente com marketing pessoal ou com alienação da realidade; fazê-lo bem é aliás uma arte muito própria que requer imaginação, e (o que é mais importante) uma grande capacidade de nos colocarmos na pele do outro, o mesmo é dizer de “amá-lo”.
Durante uma boa parte da minha vida o Natal foi festejado sob o pressuposto da celebração religiosa do nascimento do menino Jesus. E lembro-me com comoção de alguns presentes que, estou certo, eram muito mais do que simples objectos, e que terão sido verdadeiros actos de amor. Do meu saudoso pai - desajeitado sonhador e insigne investigador de minudências históricas, quase sempre exasperado com o seu crónico desconforto material - recebi alguns deles, como o incontornável Táxi Dinky Toy pintado a verde-e-preto pela sua mão, ou aquele álbum dos Marretas, uma sua diligenciada tentativa de convergência com o rebelde adolescente, com direito a dedicatória escrita e tudo.
Na avenida da Liberdade, na casa dos meus avós maternos, de costumes mais liberais e na época com alguma prosperidade, só depois da solenidade da Missa do Galo nos juntávamos todos a preceito aos meus tios e respectivos primos, para a ceia e distribuição dos presentes. A minha avó, personalidade única de vigor e simpatia, preparava o momento com enorme empenho: por exemplo, as diferentes cores das colecções de embrulhos e embrulhinhos distinguiam a família destinatária dos mesmos. A casa grande e de tectos altos estava quente e iluminada como nunca, cheirava a cera de velas e chocolate quente. Um presépio sóbrio onde se destacava um menino Jesus de braços abertos encimava a elegante cómoda grande da sala. A um canto a grande televisão a válvulas transmitia ainda o final das celebrações em directo da Sé de Lisboa, à qual assistira a minha bisavó Valentina, mãe do meu avô e padrinho, e que da varanda daquela sala quase ao cimo da avenida, testemunhara as mais equívocas revoluções e intentonas do conturbado início do século. Àquela hora a pequena senhora de cabelos ralos e prateados ainda resistia aos anos e ao sono. E da sua poltrona de veludo verde escuro testemunhava mais um renovado Natal. Muitos presentes recebidos nesses Natais marcaram a minha relação com aquela casa. Tornaram os seus protagonistas presentes no meu coração para sempre.
Ontem, quando estava a fazer as últimas compras de Natal, ao escolher “aquela” carteira especial para a minha mãe ou aquele blusão “radical” para a minha enteada irreverente, senti uma infantil ansiedade, pela hora da festa e ocasião para distribuirmos aqueles presentes tão “especiais” para a nossa gente tão querida.
É por estas razões que defendo o ritual do presente de Natal, que deveria conter um sentido profundo e cristão, o do reencontro dos homens de boa vontade: um autêntico tributo ao Nosso Senhor e Salvador, que nesse dia se nos apresenta como um frágil e radiante menino, que para nossa realização e felicidade deveríamos saber manter sempre vivo dentro de nós.
Durante uma boa parte da minha vida o Natal foi festejado sob o pressuposto da celebração religiosa do nascimento do menino Jesus. E lembro-me com comoção de alguns presentes que, estou certo, eram muito mais do que simples objectos, e que terão sido verdadeiros actos de amor. Do meu saudoso pai - desajeitado sonhador e insigne investigador de minudências históricas, quase sempre exasperado com o seu crónico desconforto material - recebi alguns deles, como o incontornável Táxi Dinky Toy pintado a verde-e-preto pela sua mão, ou aquele álbum dos Marretas, uma sua diligenciada tentativa de convergência com o rebelde adolescente, com direito a dedicatória escrita e tudo.
Na avenida da Liberdade, na casa dos meus avós maternos, de costumes mais liberais e na época com alguma prosperidade, só depois da solenidade da Missa do Galo nos juntávamos todos a preceito aos meus tios e respectivos primos, para a ceia e distribuição dos presentes. A minha avó, personalidade única de vigor e simpatia, preparava o momento com enorme empenho: por exemplo, as diferentes cores das colecções de embrulhos e embrulhinhos distinguiam a família destinatária dos mesmos. A casa grande e de tectos altos estava quente e iluminada como nunca, cheirava a cera de velas e chocolate quente. Um presépio sóbrio onde se destacava um menino Jesus de braços abertos encimava a elegante cómoda grande da sala. A um canto a grande televisão a válvulas transmitia ainda o final das celebrações em directo da Sé de Lisboa, à qual assistira a minha bisavó Valentina, mãe do meu avô e padrinho, e que da varanda daquela sala quase ao cimo da avenida, testemunhara as mais equívocas revoluções e intentonas do conturbado início do século. Àquela hora a pequena senhora de cabelos ralos e prateados ainda resistia aos anos e ao sono. E da sua poltrona de veludo verde escuro testemunhava mais um renovado Natal. Muitos presentes recebidos nesses Natais marcaram a minha relação com aquela casa. Tornaram os seus protagonistas presentes no meu coração para sempre.
Ontem, quando estava a fazer as últimas compras de Natal, ao escolher “aquela” carteira especial para a minha mãe ou aquele blusão “radical” para a minha enteada irreverente, senti uma infantil ansiedade, pela hora da festa e ocasião para distribuirmos aqueles presentes tão “especiais” para a nossa gente tão querida.
É por estas razões que defendo o ritual do presente de Natal, que deveria conter um sentido profundo e cristão, o do reencontro dos homens de boa vontade: um autêntico tributo ao Nosso Senhor e Salvador, que nesse dia se nos apresenta como um frágil e radiante menino, que para nossa realização e felicidade deveríamos saber manter sempre vivo dentro de nós.
A todos os leitores e amigos do Corta-fitas aproveito para aqui deixar os meus sinceros votos de um muito feliz Natal.
Obrigado, João!
ReplyDeleteFeliz Natal para si e para a equipa
do "Corta Fitas"!
Passo para desejar a todos os que fazem e lêem o Corta-Fitas um Santo Natal.
ReplyDeleteFeliz Natal também aí para casa, João.
ReplyDeleteObrigado, meu caro Coutinho Ribeiro. Um grande abraço de boas-festas.
___________________Paz
ReplyDelete__________________União
_________________Alegrias
________________Esperanças
_______________Amor.Sucesso
______________Realizações★Luz
_____________Respeito★harmonia
____________Saúde★..solidariedade
___________Felicidade ★...Humildade
__________Confraternização ★..Pureza
_________Amizade ★Sabedoria★.Perdão
________Igualdade★Liberdade.Boa-.sorte
_______Sinceridade★Estima★.Fraternidade
______Equilíbrio★Dignidade★...Benevolência
_____Fé★Bondade_Paciência..Gratidão_Força
____Tenacidade★Prosperidade_.Reconhecimento
- ¨.•´¨) . ×`•.¸.•´× (¨`•.•´¨). ×`•.¸.•´× (¨`•.-
- ¨.•´¨) . ×`•.¸.•´× (¨`•.•´¨). ×`•.¸.•´× (¨`•...“
CAMPANHA,VAMOS FAZER ESTA ÁRVORE CIRCULAR
ATÉ AO FIM-DE ANO PARA ENERGIZAR 2008!!
Os meus votos de um Natal Feliz,
ReplyDeletesem barbas, sem tretas,
sem capuzes ridículos e ho,ho,ho's importados,
um Natal só com sentimentos resplandecentes,
a noção da nossa mortalidade provisória,
a noção da nossa fragilidade transcendente,
cheia de Fome e Sede de Divindade,
a noção magnífica de como é importante NASCER
E TER NASCIDO e como isso é que é civilizacional
ao contrário do que enuncia a socretinidade vigente, essa clareira de Merda tão Aplaudida.
(Perdão pelo desabafo!)
Enfim,
um Natal Ele Mesmo.
Entre trabalhos e gripes,
na grande luta pela sobrevivência
e por justiça e por anti-carneirismos
e anti-jumências,
este que nunca Vos esquece, à equipa humana do Crosta-Fritas.
joshua
PALAVROSSAVRVS REX
Inteiramente de acordo, meu caro. Natal feliz para si e para os seus!
ReplyDeleteTambém entendo assim o presentear-se os que nos são próximos do coração, estendendo, sempre que nos surja pela frente um caso de carência, aos outros esse Espírito.
ReplyDeleteRenovo os votos de Bom Natal a "todos, mesmo todos",Corta-fiteiros e leitores deste blogue, os votos de Bom Natal.
Mu Caro João,
ReplyDeleteinspirado pela bela revisitação familiar do Espírito de Dádiva contraposto ao da compra, gostaria de deixar um abraço e o voto de um Natal Autêntico, por definição O Que é feliz.
Abraço