Saturday, November 17, 2007

Tributo à Bolacha Maria

Composição: Farinha de trigo, açúcar, gordura de palma, xarope de glucose, água, emulsionante, (lecitina de girassol), sal mineral, levedante químico (bicarbonato de sódio), agente de tratamento de farinha (metabissulfito de sódio) e glúten.
Valores nutricionais por 100 g: Valor energético: 1779KJ (421 Kcal) Proteína: 6,8g Glícidos 78,9 g, Lípidos: 8,7g.



Ainda as comprei ao quilo envoltas em farripas de papel, dispostas em caixas de cartão. Naquele tempo, pouco antes do advento dos supermercados, já havia uma variedade enorme de bolachas, em saquetas ou a peso. Vendiam-se numa qualquer mercearia ou charcutaria de bairro. Com recheio, sem recheio, d’Araruta, de Baunilha, Belinhas, Torrada, de Areia, Água e Sal, Línguas de gato, de veado ou da sogra, etc., etc., etc.
Mas as “bolachas” mais “bolachas” de todas; mais saborosas e que porventura eu levaria para uma ilha deserta - juntamente com os meus CDs e livros preferidos - seriam sem dúvida uns quantos pacotes de “bolachas” Maria... (e uns litros de refrigerante para desembuchar, s.f.f.).
Lembro-me em pequeno quando comprava quinze tostões delas na mercearia da Sra. Natália, que m’as aviava profusamente num cartucho de papel pardo. Sabia melhor e satisfazia bem mais do que um rebuscado e módico bolo da pastelaria do Sr. Manel ali na outra esquina. Depois ainda tinha que as comer avaramente, à pressa, num recanto escuro das escadas do prédio, subjugado pela gula - para não ter que as repartir com os meus insaciáveis irmãos.
A Bolacha Maria é uma receita simples de enorme sucesso. Por mais que se inventem mais variedades, bolachas mais finas ou sofisticadas, a previsível Bolacha Maria nunca enjoa, cai sempre bem. Por exemplo, ao lanche sabem tão bem aos pares, com uma redundante porção manteiga de entremeio, acompanhadas com um chá quente ou uma laranjada fresca.
Num mundo pleno de imprevistos, novas experiências, radicais performances, jornalistas de causas, cozinha de fusão ou apenas nouvelle; cheio de modas e novos conceitos, experimentais ou definitivos, novíssimos softwares e hardwares, mais às suas actualizações, online ou offline... é muito reconfortante saber que existem algumas sensações previsíveis, experiências que não mudam, sabores resistentes e imutáveis.

Raios partam esta ingrata dieta... que exacerba o meu apetite, e que mal resiste a uma frugal escapadela... ali ao armário da cozinha.

13 comments:

  1. Ainda é só um ar fresco (-9Cº)!

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  2. Estas bolachas eram o acompanhamento ideal para o chá de cidreira que todos nós bebíamos antes de dormir, como receita caseira para um sono repousado.Eram-nos fornecidas nessas mesmas caixas :),pela minha avó, que tinha uma mercearia.
    Pelos relatos maternos, soube que o meu prato preferido era bolacha Maria esmagada com banana;fiquei a saber o porquê daquele bebé gordinho que hoje vejo nas fotografias :)

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    1. Que boas queriam e continuam a ser .Não há criança ou adulto que não as adore .....mas o João falou nas ararutas , ai que saudades !!! Se alguém souber se ainda as há e onde , agradeço que me digam .Acho que era a única coisa que me faria correr o país de uma ponta a outra ....mas ,a fábrica deve ter fechado !

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  3. P.S.Mas, João, não acho que tivesse sido gordinha por causa das bolachas ;é que nessa altura eu comia tudo que me pusessem na frente :)

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  4. Com manteiga no meio e um cházinho a acompanhar... ainda hoje faço dessas.
    Agora desculpem, mas no que respeita a bolachas a granel não há nenhumas que batam as bolachas baunilha da Triunfo. Costumava comprá-las na Lina Carvoeira e ainda não tinha passado do escuro da loja para a luz do dia e já estava a separá-las para lamber o recheio.

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  5. Belo retrato barrado com nostalgia e um chazinho...

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  6. Cristina: O engodamnh das bulhachas maías é chaudavélmnh. :-)

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  7. :)
    Tem razão, João. Olhando essas fotografias, vejo alguém saudável e feliz.

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  8. Olá João
    Li agora o seu post e lá tive que ir buscar umas bolachas Maria... Abriu-me o apetite!

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  9. Caro João, posso assegurar-lhe que não engordam. O que engordam são os hamburguers, as batatas fritas e os molhos... se as deliciosas Maria engordassem eu era obeso e os meus filhos também. Belo tributo!

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  10. Caro João Távora:

    3 apontamentos:

    - excelente texto: é cada vez mais raro encontrar-se qualquer coisa de diferente neste mundo cibernáutico.

    - experimente o queijo em vez da manteiga, vai ver que não se arrepende; por mim, prefiro-as "afogadas" em leite com chocolate ou café :-)

    - infelizmente, a qualidade da bolacha Maria está "decadente"; experimente-se comprar uma dezena de marcas aleatoriamente: se 2 delas resistirem a um palato exigente será muito bom.

    Um abraço,
    Rui

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  11. Caro João,
    Que maravilha este texto que me guiou na história da minha infância.
    Dos lanches em casa da avó bem entremeadas com manteiga ou doce laranja, regadas com laranjada do Bussaco (a melhor de todas), passando pelas jogatinas de futebol a devora-las, passando pelas noites do Rally Tap na serra da Candosa ou na Lousã a come-las e a ver as máquinas a passarem.
    Ah, aí regadas com cervejas Topázio (também m a melhor de todas).
    Abraço
    Jorge

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  12. Também sou desse tempo,e recordo -o com saudade, e para mim não havia melhores bolachas Maria como as da Triunfo, obrigado pelo texto.

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