Wednesday, September 5, 2007

A ternura dos quarenta

Era inevitável enfrentar o problema. Desde que deixei de fumar há quase quatro anos, num também histórico 1º de Dezembro, iniciei um lento processo de expansão adiposa. Esse foi um duro período de provação e de alguma incontinência emocional, confesso. Com a tolerância à frustração nos mínimos dos mínimos, recorrentemente descompunha meio mundo (decididamente unido para me tramar), quase me divorciava e perdia o emprego. No início desse tempo de trevas, engordava só de olhar para os bolos na montra da pastelaria ou de ler a ementa do restaurante. Prescindira do prazer de fumar e chegara à plenitude dos “quarentas”. Simplesmente continuei jovialmente a gostar de Alheiras fritas, ou da bela Feijoada com pãozinho para molhar... sem esquecer uns deliciosos Ovos Moles ou um Suspiro de vez em quando. Não resistia a uma Fartura frita na feira ou a um belo Bacalhau à Braz ensopado em azeite lá da terra (nem sei qual, que eu sou de Lisboa). Ainda olhava com desprezo para todos os subprodutos light, "zero", magro, saladas e quejandos. Seria capaz de me inspirar nisso para escrever a mais mordaz crónica sobre a proliferação gastronómica para dondocas, anorécticas e metrossexuais. "Pela boca morre o peixe", e eu às vezes também me lixo.
Até há pouco tempo, o meu organismo sempre queimava desprendidamente a mais vasta gama de gorduras e guloseimas. Mas esse tempo lá se foi, fui inchando lentamente até começar a ficar com a roupa mais justa, apertar mal o casaco e o botão do colarinho. Estes foram os emergentes e dolorosos alertas. Depois de deixar de fumar, chegara a hora de deixar de comer.
Assim, há uns meses iniciei um exigente regime alimentar, tudo como mandam as regras. Primeiro, comecei por engolir o orgulho, o que suponho é do mais dietético que há; para logo de seguida me tornar freguês daqueles absurdos restaurantes de comida dita “saudável”. Até começar a encher o carrinho do supermercado com comida “a fingir” cheia de coraçõezinhos estilizados e silhuetas femininas na embalagem. Aqui nas Amoreiras, com total confiança na minha masculinidade, hoje circulo com surpreendente à vontade no meio das mais esbeltas ou escanzeladas figuras femininas. Todas elas fãs de queijos frescos e daquelas saladas cheias de nada e umas raspas de noz moscada. Agora também bebo aqueles sumos e sopas, mistelas indizíveis, a saber a pouco ou coisa nenhuma. Tudo isto para almoçar e ficar esganado de fome. Aliás é muito fácil comer poucas bolachas quando estas sabem a casca de árvore. E depois, já me oriento no supermercado no meio daquelas prateleiras cheias de comida Zen, "zeros" e lights, manteiga magra (!)... ou ainda aquelas infusões de ervas e águas amargosas, livres de calorias (!) mas com fibras e a bela carnitina... a fome acessível à endinheirada freguesia!
Ao fim-de-semana, com mais tempo, uma Dourada grelhada é que marcha mesmo bem... e depois p’rali fico, oprimido, a salivar pelos Bitoques dos miúdos e a ver a minha mulher feliz (mas culpada, eu sei!) a comer um delicioso Bolo de Claras.
Agora, estou quase a atingir o meu peso ideal, estou quase a acabar com o tormento, esta louca cruzada, de que me rio para não chorar. E sinceramente acho que vou voltar a comer aquilo que me apetecer. E que, com um pouco mais de ginástica, até vou controlar as coisas!

10 comments:

  1. Agora já ía umas papas de sarrabulho,a bem dizer.

    ReplyDelete
  2. Esta sua nova tendência alimentar entra em contradição com um post antigo escrito por si sobre os másculos barbeiros de bairro versus os modernos cabeleireiros unisexo que oferecem cafézinho e lhe perguntam se quer "fazer unhas" ou arranjar sobrancelhas ou, sabe-se-se lá, uma massagem ou uma depilação.
    Seguindo a lógica, devia fazer publicidade às tasquinhas de bairro com as iscas, o peixe frito, as alheiras, os torresmos, as febras etc.

    ReplyDelete
  3. solidária eu estou a pensar .. muito seriamente .. em abandonar este hábito que é o fumar ..
    vou reler tudo com mais atenção para ver se me convenço .. ou não ;)

    Gostei Sr. JT .. as usual

    ReplyDelete
  4. Permita-me algumas opiniões, certamente disparatadas: (i) a culpa não é da falta do tabaco, mas das alterações que o corpo sofre com a mudança de idade, agravadas certamente por excesso de sedentarismo.
    (ii) O apetite desmesurado resulta provavelmente de frustrações e de carências alimentares (lembro-me, muitos anos atrás, de ter lido em Josué de Castro, creio que o livro se chamava Homens e Caranguejos, que os nordestinos tinham a cabeça cheia de comida imaginária...).
    (iii) O exercício pode não ser a solução: em dose suficiente, emagrece, mas, por outro lado, tende a abrir o apetite... Por experiência própria, recomendo ao jantar um bom prato de sopa tradicional, daquelas em que o feijão não deixa a colher chegar ao fundo, e um copo de bom vinho tinto: satisfaz e não deve engordar muito. Por outro lado, a ginástica é geralmente pouco estimulante do ponto de vista intelectual, passada a fase da competição - que, normalmente, as pessoas abandonam pelos 25, 30 anos. Sugiro modalidade exigente tanto pelos desafios intelectuais como físicos: karaté, ju-jitsu, tai chi... dependendo da sua condição física e das apetências. Tenho 53 anos, 1 ou 2 quilos a mais (ah, as férias!) e desde que descobri o karaté, há quase 25 anos, nunca mais o larguei. À sua prática, continuada e regular, atribuo a boa condição física e a saúde de que tenho gozado.
    JCC

    ReplyDelete
  5. Pasmo com a sua ingenuidade: a coisa é mais ou menos como "Zé" diz.
    Eu dir-lhe-ei ainda que é uma luta sem ou com poucas tréguas e sem panache, como verificará quando se descobrir um dia de beiços besuntados, frente ao frigorífico, pela calada da noite.
    Há nisto tudo, alegrias: lembro-me de pasmar para esse novo mundo "light": a manteiga foi um choque, as natas motivaram-me reflexões filosóficas profundas. Hoje compro "béchamel light" e oriento-me no departamento do leite e yogurtes de soja com o à-vontade dos connaisseurs.
    Às vezes, porém, o desâmino toma-me e descubro-me, aparvalhado e trémulo, num «gourmet», com as mãos atafulhadas de latas de foie d'oie fraîche ou truffé e uma abjecta garrafa de Sauternes. Vou entrar para o mosteiro em Outubro. É misto, é o consultório do dietista da moda.

    ReplyDelete
  6. Ó João, não é de muito bom augúrio este texto a poucas horas de mais um jantar Cortas-Fitas.

    ReplyDelete
  7. Com a boa da convesa, aguenta-se melhor, caro Pedro! De resto agradeço os comentários simpáticos.

    ReplyDelete
  8. Hoje tem que fazer uma excepção!

    ReplyDelete
  9. pois é deixar de fumar, deixar de comer...
    a seguir é deixar de f...

    ReplyDelete
  10. Olha João eu não precisei de chegar aos 40. Com 33 aconteceu-me isso tudo…por outras razões que não são para aqui chamadas. Agora divido-me entre a dieta e o ginásio. Só com ginásio é impossível, isso já o comprovei. E só com dieta pensamos muitas vezes: valerá a pena este esforço? Um complementa o outro. E é tão bom! Depois de uma aula de RPM, pelo esforço (trabalho!!) que faço, era incapaz de comer um bitoque! Até por isso é bom. E sempre que me perco nos prazeres da carne, ou dos doces, lá vou eu dobrar o exercício regular que faço. É uma espécie de guerra interna…mas saudável.

    Grande abraço

    ReplyDelete

O espelho de Alcácer

O ruído da espuma dos dias nos noticiários cansa-nos, avassala-nos e, não raras vezes, anestesia-nos a alma. Por isso, a nossa primeira reaç...