Wednesday, August 8, 2007

Os Correios

Gosto da marca, gosto do logótipo. A silhueta em branco de um cavaleiro de trombeta na mão, a cavalo e a galope. Melhor mesmo só se fosse sobre fundo verde, que eu cá sou do Sporting. A vida cruzou-me demasiadas vezes com esta vetusta “instituição” nacional: os CTT, que em tempos tinham como missão pôr as pessoas em contacto, pô-las a contar, a namorar, a dizer de sua justiça. Para o bem e para o mal, recebíamos lá em casa cartas ou postais de parentes ou amigos, multas, as inevitáveis “contas”, extractos bancários, e, às vezes, publicidade: um gorduchinho envelope das Selecções do Reader’s Digest, ou uma brochura dalgum ingénuo editor que nos elegia como potencial cliente de um caríssimo fac-símile. Acontecia às vezes ir levantar um registo ou despachar correspondência ao meu pai, uma enorme estucha sem recompensa possível. Aquela senhora de óculos fazia tudo muuuito devagarinho, os outro quatro modernos guichets estavam sempre fechados, e o quinto era para chamadas internacionais. Assim que se perdia uma boa manhã a preguiçar nas férias. E mesmo assim, ao final da longa espera, arriscava um ralhete da empregada por não trazer trocos, ou voltar a casa em busca do BI do Sr. Marquês.
Anos mais tarde percebi que esta “instituição” não era uma condescendente benesse do Estado ao mal agradecido e insolente cidadão da república - que eu apesar de contrariado também sou. Descobri com alguma surpresa que os correios eram uma empresa que vende serviços a quem os queira comprar. Que precisavam de público, de mercado, de clientes, por Deus!
Bom mesmo, foi quando o posto de correios de Campo d’Ourique, ali na esquina da Domingos Sequeira com a Rua do Patrocínio trespassou virando cervejaria com moelas, sapateiras e imperiais a rodos. Mesmo na altura em que comecei a ter uns trocos e bons amigos para a noitada reinadia.
De resto, os CTT hoje são aquilo que se sabe. No correio não recebo cartas ou postais. Só contas e avisos de impostos para pagar, e... toneladas de publicidade. Como os demais 80% dos habitantes de São João do Estoril, trabalho e passo o dia noutro Concelho, pelo que os correios “da minha terra” pouco serviço me fazem. Sei que vendem pratos e medalhas dos “três grandes” da bola, livros em edições raras, brinquedos especiais, selos de colecção e muito “marchandaising”. Também se “destrocam” vales postais e as pensões aos reformados, que pouca mais gente lá vai. É que o estabelecimento abre às nove e fecha às seis e está fechado para o almoço das 12.30 às 14.00. É só para quem quer meeesmo. E eu fico chateado quando o correio é registado ou não coube na caixa do prédio: pela certa, como mais alguns desgraçados bananas, vou ter que tirar uma manhã de trabalho para ir aos correios, não se dê o caso de ser uma coisa importante, dos tribunais ou das finanças. E a propósito, amanhã sem falta tenho que lá ir “levantar” um misterioso aviso que está mesmo a caducar. E não me vou esquecer de levar uns trocos, não vá alguém zangar-se comigo.

6 comments:

  1. Não ficava nada mal,não senhor :)

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  2. Mas... Já se acabaram as ferias ?

    Um pena, enfim, tudo que é bom acaba depressa!

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  3. Desde que coloquei o autocolante amarelo na caixa do correio, deixei de ter publicidade, as contas vêm por e-mail... Agora só recebo postais ilustrados de todo o mundo, literalmente.

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  4. De facto tudo o que é bom acaba depressa.
    Quem terá imposto a moderação de comentários? Este "blogue" não é nem nunca foi malcriado e era um espaço de liberdade.
    Moderar não terá aqui a acepção de controlar?
    E ainda há quem fale de controleiros da CP!...

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  5. Caro João,
    Os correios são a instituição de que me merece mais respeito no mundo. Em Portugal desde que lançaram o correio azul, atrasaram o outro... mas continuam uma fantásticos e cheios de futuro. Os livros que me poluem a mente chegam-me sempre pelo correio. O meu trabalho "anda" imenso por correio. O continente entrega as compras em casa por correio, as pizzas, a comida chinesa e os bifes da portugália chegam a casa por correio. As cartas e os postalinhos acabaram, mas abriu-se um novo mundo. Os computadores Dell são montados pelos correios, o seu carro novo foi montado com peças enviadas pelo correio e mais tarde foi distribuido pelo correio. Os 184 emails que troquei com uma cliente resultam da existência de correios... melhor que isto só a invenção da roda.
    Quanto aos CTT, podiam tentar perceber que a função dos correios como distribuidor de cartas e postais acabou e aceitar-lhe o re-encaminhamento através do serviço SIGA (proposto acima) depois dos 2 primeiros dias de envio. Descanse que se eles não o fizerem rapidamente, o rapaz das pizzas ou das compras do continente começa a fazê-lo e os correios limitar-se-ão a mudar de cor... para um tom mais pálido!

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  6. João
    E por mais incrível que pareça não se pode pagar por multibanco.
    Ou será que agora já se pode?

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