Monday, August 20, 2007

A barbearia

Quando era pequeno, ir à barbearia do bairro era um ritual da minha masculinidade. Nem sempre voluntário, mas periodicamente inevitável, quando a juvenil guedelha hirsuta assim o exigia. Ao princípio ia com a minha mãe, que me entregava aos cirúrgicos cuidados do barbeiro e logo saía apressada, talvez pouco à vontade, talvez para fazer outras coisas úteis. Percebo perfeitamente, pois eu também não me sentia bem no território feminino, quando infortunadamente era obrigado a acompanhar a minha Avó ao cabeleireiro Brito & Brito, na Avenida da Liberdade. Eram momentos de sufocante opressão, com a ideia clara de que era um intruso naquele ambiente assexuado a cheirar a laca e a verniz. Espantavam-me aqueles estranhos capacetes espaciais, com as circunspectas senhoras debaixo, de dedos em riste pintados de fresco. Eram todos aqueles rolos, papelotes e turbantes na cabeça que me deixavam verdadeiramente intimidado, estarrecido.
O que me lembro do meu barbeiro ali na Rua Almeida e Sousa em Campo d’Ourique, era das suas mãos lavadas e relógio dourado no pulso. Sempre de impecável bata branca e de conversa fácil, com os seus dedos duros e frios a endireitarem firmemente a minha cabeça fugidia. Lembro-me das pinceladas de sabão morno, e do raspar da navalha afiada na nuca e nas patilhas inexistentes. Era parte dos procedimentos. Lembro-me do fatal calendário de “garagem” com uma loira bem curvada, do horário e dos diplomas emoldurados. Também sobressaiam, ao lado dos grandes espelhos, umas fotografias a preto-e-branco de garbosas e antiquadas cabeleiras, bem penteadas com Bel Hair ou Restaurador Olex. Fascinavam-me também os pesados cadeirões em ferro pintado, onde me sentava soerguido num caixote “adaptador” para as crianças pequenas. E do estofo de cabedal redondo, que com duas espanadelas, se virava do avesso para assento do cliente seguinte. Naquele pequeno espaço, os homens comentavam as banalidades da política e do futebol, ao som do Rádio Clube, com as tesouras sempre a cortar, a cortar, em golpes ritmados, tchic, tchic, tchic, tchic. Depois, vinha aquela pergunta redentora: “o cabelinho é para molhar?” Finalmente o sacrifício acabava, era tempo de voltar para as brincadeiras, para casa ou para a praceta, com os cabelos caídos a picar nas costas.
Um dia destes, aburguesado e imprudente com as pressas, descobri perto do escritório um moderníssimo Cabeleireiro de Homens, cheio de paninhos quentes e inauditas mordomias. Surpreendi-me logo com o pretensioso recepcionista, de modos efeminados, casaco fantasia e gravata Disney que confirmava a marcação. Sentado na sala de espera, procurei em vão literatura apropriada, o Record ou o Correio da Manhã para me entreter. Só descobri as brochuras dos milagrosos produtos capilares. Logo uma menina, de rabo bamboleante, se abeirou de mim perguntando-me se eu queria arranjar as unhas... Eu, arranjar as unhas?!? Notei também as conversas dum cliente com a manicura, talvez um bem sucedido gestor de Import - Export, que me soou excessivamente íntima. O homem emitia confiantes e bombásticas opiniões, sobre a política e as finanças “de cordel”. Quando, de cabelos lavados, cheguei às mãos da decotada cabeleireira, balbuciei que não queria modernices, o que a deixou visivelmente contrafeita. Depois, veio uma jovem estagiária oferecer uma massagem capilar... e um café. No final paguei 25.00€. Nunca me saiu tão cara uma bica...
Duas semanas depois, quando o cabelo mal cortado definitivamente não assentava mais, decidi-me a visitar o velho e fiel barbeiro aqui de S. João do Estoril. Decidi-me a perder uma manhã de Sábado a ler o Record e o Correio da Manhã, e cortar o cabelo como deve ser. Ouvindo o Jogo da Mala e o Bola Branca em ondas médias, sem paninhos quentes ou embaraçosas mordomias. Afinal um conservador é um conservador.

10 comments:

  1. Li com agrado a sua crónica. Excelente. E fez-me recordar o barbeiro (em Alcântara) que eu frequentava quando era adolescente. Termina sempre o corte com a mesma frase: «Está bom assim, ou quer mais comprido?»

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  2. Eu, pelo contrário, achei o post de uma nostálgica lamechice bacoca.

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  3. Adorei o seu postal: ele despertou na minha alma suaves recordações de infância, todo um passado que me interrogo onde ele estará, toda essa gente, essas ruas diferentes das de hoje, onde está esse respirar de tanta vida que Portugal tinha? E hoje tudo tão morto! (provavelmente o ruído e a confusão vivida durante o dia na cidade é para disfarçar o estado moribundo da nossa sociedade…).

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  4. E as saudades dos sapateiros, das varinas, do amolador,dos ardinas, dos engraxadores, do vendedor de leite e do burro a puxar a carroça, etc?
    Ai que saudades dessa Lisboa perdida!
    Indeed.

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  5. O "respirar de tanta vida que Portugal tinha"?!???
    Todos para o divã!

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  6. Este pessoal deve estar todo careca para terem tantas saudades dos barbeiros da juventude.

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  7. Agradeço os simpáticos comentários. Aos outros peço paciência...

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  8. Indeed? Acho que sei quem foi a anónima que passou por cá. Esta não tem saudades nenhumas do burro a puxar a carroça e nem é preciso explicar porquê!

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  9. Sou totalmente contra a exploração da carroça pelo burro.

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  10. Uma maçaroca de milho transgénico para o anónimo da 1.33pm que identificou a anónima das 12.14am, à qual será por outro lado oferecido um corte de cabelo na barbearia do Campo D'Ourique.

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