Wednesday, June 6, 2007

Postal (atrasado) de Cabo Verde

O jipe de marca japonesa percorre rápido a estrada antiga de calçada que serpenteia pelo interior de Santiago, a maior e mais populosa ilha de Cabo Verde. A paisagem revela-nos o mar, por entre as montanhas de assertivas e bizarras formas, sempre cinzentas cor de Jorra, a omnipresente rocha vulcânica aproveitada também na construção de casas e casebres por toda a Ilha. Nas bermas, assinaladas por pedregulhos pintados de branco, entre curva e contracurva, encontramos constantemente magotes de alegres crianças, fardadas com a cor da sua escola e que galgam quilómetros em constante brincadeira. Alegres, acenam-nos à nossa passagem, com simpatia. Isto é Cabo Verde, é Africa não há dúvida. Mais longe, nas ressequidas acácias, inclinadas e batidas pelo vento, resiste pouca folhagem. Pelas rochas, pedras e caminhos, passeiam-se indiferentes as cabras. Como as vacas e as galinhas que constantemente se nos atravessam indiferentes na estrada. Explicam-nos que sabem onde moram, conhecem os donos... Chegados ao Tarrafal depois de uma rápida visita à prisão, uma inevitável viagem aos infernos da história, às misérias da humanidade, desço à praia e dou um higiénico mergulho nas cristalinas águas tropicais.
De volta “a casa”, fazemos paragem numa estranha e pequena aldeia de frágeis cabanas, dos "Rabelados", um autêntico gueto de um povo que teimosamente nunca cedeu à miscigenação cultural. Resistem estoicamente à margem da sociedade, sem falar crioulo, pintando a óleo umas estranhas e esguias figuras, em telas ou tábuas, que vendem aos forasteiros.
Ainda parámos na Cidade Velha, o primeiro “porto de abrigo” dos portugueses e as suas ruelas e muralhas quase medievais. Pelo caminho, grupos de mulheres gingam as ancas sob os pesados recipientes de água. Ao jantar, enquanto degustávamos uma bela malga de sopa Rolon (sopa de peixe e milho), fui surpreendido e encantado por um nativo que cantava um Funaná di Gaita, uns estranhos e ritmados lamentos acompanhados por percussão e concertina, como um exótico género de blues. Sons de um povo de música, a tocar nas telefonias todo o dia, que é o que se gosta e gasta nesta terra: Morna, Funaná, Coladera.
A Praia, capital de Cabo Verde, é povoada por gente boa, de comércio e serviços, que vive hoje a expectativa de grandes investimentos e dinheiro novo. Possui um novíssimo aeroporto e projectam-se grandes investimentos em infra-estruturas. Que se espera traga mais bem-estar e perspectivas de futuro a este povo sem ressentimentos. Que o rápido progresso e a invasão dos euros não corrompam este seu espírito genuíno e hospitaleiro.
A cinco quilómetros da cidade da Praia, paramos o jipe no extremo da península de Ponta Bicuda, onde o mar e os céus infinitos nos cercam sobre uma agradável brisa. É para lá do horizonte que está todo o mundo, o stress e a agitação. E muita saudade, bem portuguesa.

8 comments:

  1. Olá, João. Gostei muito de "regressar" a Cabo Verde neste postal. Bela praia do Tarrafal, a que se vê na imagem. Tem uma estalagem belíssima, em cima da praia, onde apetece permanecer sem prazo de saída...
    Quando puder volto lá.
    Abraço

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  2. Que descrição maravilhosa!!!E tantas saudades!!! Mas, João, se gostou desta ilha, tem que dar um saltinho ao Fogo. É lindoooo e com muitas particularidades em relação às restantes ilhas!!!!Aquele povo é simplesmente único!!!

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  3. Gostei de Santiago, mas gostei ainda mais de São Vicente. O Mindelo é uma das grandes cidades da lusofonia. Inesquecível.

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  4. Não conheço Cabo Verde,mas alguns dos meus irmãos já lá foram(alguns deles várias vezes,e a mais do que uma Ilha)e vieram sempre encantados,antes do mais com o calor humano dos Cabo-Verdianos.
    E,como os que lá foram gostam de praia,ficaram clientes.

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  5. Um veículo todo-o-terreno deve ser inglês!

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  6. O Ponta Bicuda tem a prainha deliciosa ao lado. Já me banhei nessas cristalinas águas
    Nha Praia

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  7. Bem haja por uma crónica de viagem, que bem falta faz ao excelente Corta-fitas. Nem que seja para nos esquecermos das rotinas do dia-a-dia e do cinzentismo da praça política.

    Estão apontadas algumas das sugestões.

    Um abraço

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  8. Estive há pouco tempo em Cabo Verde.
    Só tive tempo de ver o Sal.
    Paisagem agreste.Bastante pobreza.
    Gente boa.Alegre.Humilde, mas hospitaleira.
    Praias lindas.
    O investimento está nas mãos dos Italianos com os seus resorts e outras infraestruturas turísticas.
    Jovens de outras ilhas vão trabalhar para aqui no turismo.Aprendem o Italiano.Alguns dizem querer vir para Portugal trabalhar na animação turística assim que arranjarem dinheiro para passaporte e passagem de avião. Não sabem que lhes pode calhar a construção civil.
    Gostam dos portugueses.E parece genuíno."Os portugueses ajudam-nos. Compram-nos as coisa" "Então e os outros turistas?"pergunto eu. "Esses têm muito mais dinheiro que os portugueses, mas são sovinas. Não têm coração."
    E depois o magnífico crioulo.E a música. Sempre a música.
    Nós por cá....falta-nos definitivamente o Funana, a Coladera. Temos o Fado que nem se compara à Morna.
    Espero que Cabo Verde não se torne num irmão Allgarvio.

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