Sunday, April 15, 2007

O caminho

Sem repararmos, a tinta das paredes da nossa casa, há anos escolhida a preceito num catálogo de infinitas tonalidades, empalidece todos os dias. Os sofás, um dia estreados novos e reluzentes, num enxoval de expectativas, perderam o brilho. A torneira que de novo pinga e não veda. E o tapete turco qualquer dia também já vai a restaurar. Na caixa das memórias, as fotografias perdem cor, os papéis de pensamentos e antigos sentimentos, as cartas e os velhos postais, ganham tons de pergaminho. Significativos capítulos desta mesma, mas já antiga, história. O tempo, cego, tudo desagrega e corrompe.
Habituamo-nos a festejar os aniversários dos miúdos todos os anos, sem contar que a vida passa, sem pausarmos o filme por uns momentos. Para memorizarmos definitivamente aquela pele imaculada e aqueles olhos fundos e tão grandes, brilhantes de surpresa, tão cheios como toda a nossa vida. Os tempos passam marcados pelos rituais, com tantas conversas banais, novos projectos, trabalhos e tantas estações. Com roupas de Verão e roupas de Inverno. Mas ressuscitámos sempre o amor, ainda mais quando o frio apertava. Fazendo das misérias as fortalezas, para nunca morrermos nem um bocadinho. Sempre atentos juntando os pedaços, a compor e recompor o mesmo amor. Avidamente, juntando os sons e as harmonias, moldando uma obra divinal. Sem nunca desistir daquela nossa utopia de vencermos o tempo e o mal. Sem nunca desistirmos de ser gente feliz e maior.

6 comments:

  1. O João hoje acordou Poeta,pois este texto é verdadeira poesia em forma de prosa;um hino ao Amor,à Vida...

    ReplyDelete
  2. Excelente, João. Gostei muito. Abraço.

    ReplyDelete
  3. Quem sente assim, vence tudo. Há uma força inextinguível. Lindíssimo este texto.

    ReplyDelete
  4. Carissimo,

    Excelente Post!

    Ainda se admira o Pedro Correia de vocês ultrapassarem o Abrupto em Hits do Blogometro...

    :-)

    Abraco e boa semana,

    ReplyDelete
  5. fantástico este arrumar de letras Sr. JT .. passou acima de tudo o sentimento. Gostei muito.

    ReplyDelete
  6. Agradeço os simpáticos comentários.

    ReplyDelete

O espelho de Alcácer

O ruído da espuma dos dias nos noticiários cansa-nos, avassala-nos e, não raras vezes, anestesia-nos a alma. Por isso, a nossa primeira reaç...