Tuesday, April 24, 2007

Esta festa não é minha

Mal terminada a festa, quando parecia conquistada a esperança, logo uma escumalha ressabiada e intolerante ocupou a praça, a estragar tudo. A turba em tons vermelhos e de punho erguido bradou à morte e incitou à guerra. A que chamavam luta. Iniciando então um impiedoso assalto ao poder que todos os dias nos roubava mais a liberdade. Então, a revolução de 74 abalroou a nossa vida, assaltou a casa dos meus pais. Para nos tornar em novos proscritos. Como foi possível tanto ódio?
Na época, eu era um imberbe e juvenil estudante, que por imitação do meu pai me tornara precocemente politizado e discursivamente assertivo. E foram muitas as angústias e apreensões vividas em família naqueles inesquecíveis tempos “revolucionários”.
Os sentimentos por mim experimentados na sequencia da revolução de Abril, as memórias que guardo daqueles protagonistas, as lembranças dos seus esgares e trejeitos fanáticos, das suas arbitrariedades e da minha total impotência, causam-me ainda hoje amargos sentimentos.
Reconheço na democracia conquistada a posteriori o melhor sistema político possível. Como cristão e democrata, bater-me-ei sempre com todas as minhas forças pela liberdade e pela justiça. Hoje como então.
Por mim, agradeço a liberdade pela qual afinal também lutei. Mas não me convidem para esta festa da qual fui excluído faz amanhã 33 anos.
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Ilustração daqui

10 comments:

  1. "AM said..."

    O problema aqui, é que estas "pessoas incapazes..." foram os novos sofredores no mesmo país, mas às mãos de novos algozes.
    Tivessem, o autor e a sua família, sido dos contemplados com tão "justo" e revolucionário tratamento e nunca se teria permitido escrever o que com tanta leveza escreveu. Ainda bem para si.

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  2. Os comentários até me dão vontade de rir. E rir, é a última liberdade de expressão possível no âmbito de um sistema político mais obsoleto que o Deus me livre. Força, comemorem «isto» !

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  3. Gonçalo Afonso DiasApril 24, 2007 at 6:28 PM

    Vocês e os vossos comentários "destrutivo-irónicos"... ( a palavra existe?!)
    Pois eu, na minha qualidade de cidadão angolano com bilhete de identidade verdadeiro e tudo, vou mais longe se me permitem; O meu caro amigo festeje o 4 de Fevereiro de 64 - dia do ínicio da luta armada pela Independência de Angola. Se não conhece a história eu explico: Um grupo de guerrilheiros do M.P.L.A. armados únicamente com catanas revoltou-se e atacou um quartel do exército Português munido de toda a artilharia.
    Foram todos mortos e as suas cabeças degoladas exibidas públicamente, penduradas em paus, para que servisse de exemplo e não voltasse a acontecer. Mas voltou a acontecer, com a inteligência e o engenho de quem está em inferioridade "teórica".
    O 25 de Abril veio "mesmo a calhar" porque a tropa portuguesa já estava em fanicos, a estrebuchar e com os dias contados.
    Depois, seguiu-se uma das mais miseráveis e mesquinhas descolonizações da História.
    Já agora festeje o 11 de Novembro -o dia em que em Luanda se ergueu a bandeira da República Popular de Angola! Independência e mais 30 anos de guerra.
    Hoje "entramos" em Angola "de mansinho" com a esperança de apanhar algumas das migalhas já que, a nossa atrofiada visão e os nossos recalcamentos e saudosismos neo-colonialistas, fizeram com que países sem laços afectivos aos angolanos nos passasem à frente; Os Estados Unidos, a França, a Itália, a China, a Holanda e por aí fora.
    Por fim. comemore o dia (não sei de cor) em que o nosso ministro Freitas do Amaral foi a Luanda resolver os "problemas diplomáticos" que a nossa inveja criou. E depois foi o "Engº", rodeado dos mais bem sucedidos empresários portugueses. Fazer negócio, pensavam eles...

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  4. José Luís MalaquiasApril 25, 2007 at 12:26 AM

    Sugiro-lhe que compare esta revolução e as suas "intolerâncias" com uma que aconteceu, mais ou menos pela mesma altura, no Chile. Nessa, os proscritos, não viveram para contar 33 anos depois, os incómodos e até as injustiças por que possam ter passado.
    É que é costume - e o Chile não foi excepção - nas revoluções derramar sangue, largar bombas e até punir inocentes. Nesse aspecto, acho que da de 25 de Abril ninguém tem muito que se queixar.
    É claro que não estou a sancionar os abusos que certamente os houve após a revolução dos cravos, como os há na confusão que se instala a seguir a qualquer revolução. Mas duas certezas eu tenho. Primeiro, no que toca a revoluções, esta não se conta entre as mais vingativas, sangrentas ou injustas e os benefícios claramente superaram os desaires. Segundo, que se formos a falar de injustiças e desmandos, o que se passou nos 50 anos que precederam a revolução foi seguramente pior do que o que se passou nos 2 anos que se lhe seguiram.
    Quanto ao facto de as injustiças e intolerância se deverem unicamente ao seu apelido, lamento se assim foi, sobretudo numa família que já foi sujeita a tantas arbitrariedades e injustiças noutros tempos. Mas, na minha família houve quem tenha sido preso só porque esteve presente numa reunião de um partido político. Noutras famílias, houve quem fosse assassinado por desafiar o regime. Valerá mesmo a pena vitimizarmo-nos pelos "excessos" de uma revolução que decorreu sem sangue e que, poucos anos depois, já permitia a uns e a outros debaterem de modo livre as suas ideias, mesmo contra-revolucionárias?

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  5. Cada vez mais sinto que passamos de uma ditadura "unipessoal" para uma ditadura "Sociedade Limitada".

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  6. Ao anónimo das 1:53 AM

    Faço minhas as palavras do comentário de José Luís Malaquias

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  7. Algumas correções historicas:

    No 4 de Fevereiro quem foi atacado foi a Prisão de Luanda, não foi nenhuma unidade militar e as manobras dos primeiros dias estiveram por conta da PSP... Reforçadas dias depois pelo Exercito claro está, quanto a artilharia em si só muitas semanas depois...

    Áh, Angola... Esse modelo de Democracia... E que o deve a algumas facções do Exercito sim é verdade (Alô Rosa Coutinho, Alô Otelo) Leia só simplesmente o que disse o Mario Soares sobre o Alvor...

    Ja agora esquecem-se do que sofreram e passaram os simples defensores da democracia pluralista aqui em Portugal desde o 28 Set 74 até ao 25 Nov 75, quando alguns Partidos de resultados minoritarios nas eleições quiseram impor uma nova Ditadura e que foram rechaçados.

    Apenas simples numeros - existiram mais presos politicos nesta altura do que os contabilizidados pela DGS (Ex-Pide) de 70 a 74 - Curioso ahn ?

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  8. Apesar de tudo o 25 de Abril foi muito brando, bem ao gosto dos portugueses.
    Felizmente não houve guerra civil, que esteve bem perto.
    Felizmente não somos tão agressivos como os espanhois...

    Se a "turba" não fosse portuguesa não teria havido "incitação", o que teria existido seria a guerra e a morte.

    Estou à vontade para dizer isto, porque o meu pai também foi saneado.

    A mim, o que me interessa, foi aquilo com que acabou.

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  9. Quisera eu divulgar um texto como o do João Távora antes do 25 de Abril (por exemplo, dizendo mal do 28 de Maio de 1926) e não o poderia fazer. Se ousasse seria preso. E depois venham lamentar-se do 25 de Abril...

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  10. Alguns comentários a este meu texto, reflectem quanto a mim uma incomensurável arrogância e mesquinhez. Eu explico: não sou jornalista nem historiador, e assim sendo esta foi uma abordagem à efeméride assumidamente intimista, obviamente subjectiva. Escusei-me deste modo a descrever experiências e FACTOS por mim vividos que guardarei para outros públicos. Limito-me a falar de sentimentos e sensações por mim vividos. Os meus sentimentos não são comparáveis qualitativamente ou quantitativamente com os de ninguém mais, foram tão só experiências pessoais únicas. Vivi esta revolução e não outra, através dos meus sentidos e não pelos de outros... naturalmente condicionado pela minha história e origem sociológica.
    De resto no meu texto assumo a benignidade da revolução grosso modo, de um ponto de vista racional e pragmático. De todo egoísta, e garantidamente democrático.

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