Saturday, November 4, 2006

Janelas

Interrompo o trabalho no computador, levanto-me, espreguiço-me, e passando pela janela olho a praceta enlameada lá em baixo. Cruzo o olhar com o homem do bar vizinho que apanha umas folhas molhadas da esplanada. Intimidados, cada um recolhe “à sua vida”.
A Carolina, na janela da cozinha, sentada sobre o cesto da roupa suja, desvia a cortina e aí fica a ver o movimento da rua, as cores dos carros, a Marta que volta tarde da escola. A chuva copiosa que cai. Com sorte, ainda apanhará a mãe a chegar do trabalho.
No auge da minha inocência, tive direito às minhas janelas. Horas vagas ou de perguiça, intervalos de brincadeiras e de deveres adiados. Refúgios solitários, tempos de crescimento.

Em Campo d’ Ourique, no terceiro andar, a janela da sala da casa dos meus pais foi minha companhia de longas e íntimas horas. Contraditórios momentos de tédio e contemplação. Quantas esperas. Num qualquer Domingo de Inverno, à tarde, com o cachecol verde e branco de lã tricotada, sentado com o queixo no parapeito à espera do tio Manel, no seu mini cor de vinho, para irmos a Alvalade. Esperas intermináveis. Lá do cimo, via o gato fugir para baixo do "carocha" beije do meu pai. Via as vizinhas que esbracejavam uma qualquer conversa banal. À minha esquerda, ao longe, o panorama da Avenida Duarte Pacheco a debitar o veloz trânsito para Monsanto ou para as Amoreiras. E telhados de casa baixas, até ao pátio da Escola da Câmara logo ali em baixo. Do meu lado direito, a mercearia da Sra. Natália… frutas encaixadas, vidas do bairro, rua acima, rua abaixo. Ao fundo a Igreja do Sto. Condestável, com o seu enorme vitral neogótico, delimitava a minha vista. A televisão, atrás de mim, a passar o "TV Rural"…
Um dia qualquer em Junho, depois de passar no exame da quarta classe, abanquei nessa janela à espera da minha bicicleta, promessa antiga, que com a minha mãe comprara dias antes na Rua do Crucifixo. Se bem me lembro aí dediquei dois ou três dias de interminável espera e cogitação. Vinha uma carrinha de carga, o coração acelerava… repentinamente virava à direita para a Ferreira Borges… bolas! Quando iria ser finalmente feliz? Distraído, contava os carros e fazia secretas apostas. E forçava a recordação visual da bicicleta escolhida, verde metalizada… brilhante cor de sonho. Ironicamente, foi durante uma fortuita e mais demorada ida à mercearia, a recado da minha mãe, que chegou a encomenda. “João! Chegou a bicicleta!”, gritavam as minhas irmãs miúdas enquanto eu chegava a casa com as compras…
Depois, houve aquelas janelas sem vista, que me deixaram um chorrilho de memórias em sons. Pregões e pífaros de amolador, ou o cantar da passarada. As andorinhas e criançada a brincar. Assim era em Campo d’Ourique.

Outra janela da minha vida foi na casa da minha avó, na Avenida da Liberdade. Uma varanda, no caso. Ali, o que me animava era o movimento e trânsito intenso, os autocarros verdes e brancos, uns anunciando uma bebida de chocolate, outros uma qualquer marca de baterias. E o que me divertia ali do primeiro andar, a ver o ciclista estafeta da Marconi à pendura no varão da porta traseira do autocarro, subindo “a nove” a elegante Avenida. Uma artéria verdadeiramente cosmopolita, o “coração do império”, plena de actividade e animação. Com enorme excitação, lembro-me de assistir com tios e avós à passagem das Marchas Populares. Lembro-me das vistas das luzes, dos balões coloridos, e guardo ideia dos cheiros secos e quentes de início do Verão. E a abertura da Feira do Livro, que trazia àquelas vistas um mês de distinta animação: dezenas de barraquinhas e gente, muita gente, noite dentro. Com sorte, e mais vinte e cinco tostões, o meu irmão e eu ainda desceríamos as escadas para comprar um livro do Zé Colmeia ou do Bolinha em promoção.

Hoje, em minha casa, mal paro à janela. No máximo, quando está bom tempo, leio à varanda, que não tenho tempo para desperdiçar. Mas, da rua ao fim da tarde, ao chegar a casa, cumprimentando o merceeiro e a vizinha que passa, vislumbro a minha filhota, na janela da cozinha, de sorriso franco que me acena boas vindas. Feliz.


Fotografias daqui

9 comments:

  1. Texto bonito!Com nostalgia q.b.,compensada com o sentimento de felicidade no presente.

    (P.S.Gostei do pormenor do cachecol verde e branco).

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  2. Muito inspirado, caro João. Belo post, parabéns!

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  3. Assim era em Campo d’Ourique.


    Pois era caro João Távora...
    Confesso que lhe escrevo com lágrimas saudosas nos olhos.
    Vivo desde 1991 no estrangeiro (sempre a viajar) mas é dos anos 70 em Campo d'Ourique (e dos anos 80 na Lapa) que sempre terei nostalgicas saudades...

    Hoje em Londres resido por opção em Richmond, porque aqui reencontrei grande parte dessa muy particular "ambiência de bairro" (agora em Inglês...) a que também (e tão bem) se refere...
    É-me vital.

    Aqui confesso também que volto por vezes a Campo d' Ourique apenas por adorar passar umas horas a passear o cão por esse meu bairro, tomando café aqui e acolá, e para ir dormir mais uma noite na nossa casa de sempre, chez mes parents, em Campo d'Ourique...


    BEM HAJA pelo post.

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  4. Belíssimo post.

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  5. Caro João,

    que bonitas memórias partilha 'connosco'...

    vivi em campo d'ourique e deixe-me dizer-lhe que apesar do tempo da sua descrição já ir longe... ("assim era campo 'ourique") ... hoje esse bairro da 'minha' lisboa ainda conserva muito do que sempre teve.

    os tempos passam, mas campo d'ourique permanece um bairro acolhedor, cheio de vida, cheio de mistica.

    da minha janela pude 'viver' um pouco do que o João viveu. o bulício saudável, os velhos no jardim, as crianças no parque, as vizinhas de sempre... os aromas e as cores das mercearias( que hoje têm a companhia das lojas mais modernas...),
    os melhores restaurantes da cidade(ouso dizer!!), os eléctricos a deslizar rua abaixo até aos Prazeres, o amolador que em dias de Primavera ainda dá sinais de vida... as esplanadas ao sol, a saborosa sombra da Ferreira Borges em dias de Verão... a Estrela ali ao lado...

    fazem-nos acreditar que ainda é um privilégio viver (em) Lisboa.

    Dulce

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  6. Obrigado pelos simpáticos comentários.

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  7. Vai tarde, mas vai à mesma. Gostei muito desta crónica memorialística (incluindo o pormenor dos "livros do Zé Colmeia e do Bolinha", memória que partilho). Um dos melhores textos publicados até hoje no Corta-Fitas. Abraço, João.

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  8. Caro Pedro:
    O seu elogio é sempre uma honra para mim.
    Abraço,

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