Eu tinha dito ao FAL que um dia escreveria alguma coisa sobre o CDS. O CDS de que me fui desencontrando há já alguns anos, desde que a luta pelo poder o fez relativizar os seus valores na via de um populismo qualquer.No Verão de 1975, ainda jovem imberbe, imigrei do PDC de Sanches Osório - acabadinho de “extinguir” pelo Conselho da Revolução (!) - para o CDS no Largo do Caldas. Era aqui que o meu pai, já saneado da Torre do Tombo, militava e fazia uns biscates para levar algum sustento para a criançada.
Foi nessa casa que passei o tal Verão histórico. Cumpria diariamente o meu turno a ajudar na recepção ou na distribuição de víveres e kits de sobrevivência aos retornados acabadinhos de chegar à Portela - sabe Deus como... Lembro-me até de uma conversa de um “exilado” do FNLA: O homem, de ar espavorido, vinha, não recolher o seu saco de batatas e a lata de salsichas, mas oferecer os seus bélicos préstimos para lutar contra "o inimigo". Evidentemente, ficámos atónitos e logo foi recambiado, pois de facto ali não havia desses “empregos”.
Um dia vou falar de um equívoco “Centro” Democrático Social. Era neste centro que militava toda a direita “dos valores” seduzida pelo “modelo” democrata-cristão, que havia singrado e vencido por décadas em Itália. Uma direita condenada ao fuzilamento no Campo Pequeno, pelo camarada Otelo. Mas do Campo Pequeno chegou aos 16% em S. Bento nas primeiras legislativas, com a sua Alternativa 76 de boa memória.
Lembro-me bem das refeições feitas pela D. Celeste. E dos Pirolitos que vendiam no Bar. E daquelas noites quentes de Verão em que o povo acossado estava na rua. Do Boletim CDS onde o meu irmão José publicava os primeiros bonecos. Lembro-me de tumultos no Rossio ou em Belém. Noites em que fiquei ao lado do meu enorme pai, às vezes do “Adelino” ou do “Diogo”, todos apreensivos e “blindados” de janelas bem trancadas ali “no Caldas”. Enquanto esporádicos estouros se ouviam ao longe e as bocas sussurravam o último boato.
É por estas e por outras, com tanta vida e tanta história, que hei-de ter sempre um pouco do meu coração com o CDS.
E é por isso, caro FAL, que me custa tanto ver aquela gente, ou aquela “casa”, a arrastar-se sem identidade à procura do futuro.
E, afinal, já escrevi o que queria sobre o CDS.
E escreveu muito bem, está excelente. Uma prosa sentida, com sentido histórico (não sabia que você tinha andado pelo PDC, não pára de surpreender...) e, ao mesmo tempo, bem humorada. Será que ainda vendem Pirolitos no bar do Caldas?
ReplyDeleteAbraço
Pois é, João. E nós, que FIZEMOS política desde o início da adolescência, temos às vezes que aturar comentadores a dizer que não sabemos nada e eles, após aprofundada leitura de jornais, é que são grandes especialistas...
ReplyDelete"Uma direita condenada ao fuzilamento no Campo Pequeno, pelo camarada Otelo". Atenção, que esta frase atribuída ao Otelo resulta de um boato posto a circular na altura. Não que faltasse vontade a alguns de a tornar realidade, mas não foi o Otelo que a pronunciou.
ReplyDelete