Sunday, September 24, 2006

Ibéria, nossa salvação? (crónica)

Helena Vaz da Silva comentava uma vez comigo que o que é verdadeiramente salutar na vida é preferirmos sempre a estação do ano que atravessamos. Apreciar sempre o presente, as divinas dádivas de cada momento ou época. Contra o choradinho do “sol que me faz falta”, do “antigamente é que era bom”, ou da fraca psique que “não suporta a escuridão dos dias invernosos”. Falava da mediocridade. Vindo que quem veio, ficou-me como lição.
Veio-me à memória esta conversa por causa da sondagem apresentada ontem pelo Sol, que reflecte a opinião de um velho partido que vê na União Ibérica a solução, a viabilização da nossa felicidade colectiva.
Tenho a dizer que estes 26% de cidadãos portugueses põem definitivamente à prova a minha calejada sensibilidade democrática. Conheço o discurso vindo de circunstanciais convivas, com argumentos mais ou menos elaborados. Uns consideram inclusivamente a existência de Portugal como um fenómeno antinatural. Outros, quando os oiço destilar as suas obtusas justificações, indicam-me tão só a sua imensa ignorância, como se revelam impotentes frustrados que acusam a contingência da sua nacionalidade como causa das suas limitações. Não será que quem não sabe dançar parece-lhe o chão estar torto? Além disso nunca percebi bem se este lírico ensejo de unidade ibérica incluiria todas as províncias espanholas com os seus distintos estágios de progresso social e económico.
Enfatizar constantemente a bela relva do vizinho ou a gratuita “merdização” da Mãe Pátria e suas circunstâncias parece-me atitude algo doentia. Esse discurso acompanha-se normalmente com apelos a equívocas soluções messiânicas, sejam a Monarquia, Oliveira Salazar ou qualquer redentora Espanholização do país. A mim parece-me que estes compatriotas que habitam um inviável país de criminosos, incompetentes e corruptos justificam desta forma a sua medíocre inabilidade e falta de ambição. No seu imaculado e desresponsabilizante limbo, desgastam as suas preciosas energias em lamentos e ódios pueris, em vez de, pela força dos seus braços e pelo exercício da sua vontade, meterem as mãos à obra.
E porque há muito que fazer, uma atitude positiva é um factor decisivo, tanto aqui como em qualquer das espanhas que me queiram vender.

8 comments:

  1. Ilustre João Távora
    A monarquia não é uma solução messiânica (muito menos equívoca). É apenas uma forma de regime mais civilizada do que a república.


    a-a

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  2. Estoy de acuerdo contigo Joao, aunque como español,y pensándolo detenidamente, si fuera posible cambiar paises, y comunidades o regiones, como si de cromos se tratase, te diré que cambio desde ya Cataluña y País Vasco por los amigos portugueses; lo malo es que no sé quién querría quedarse con tan ex-imios ex-pañoles...!

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  3. Caro a-a:
    Concordo inteiramente consigo, a Monarquia é mesmo uma questão de requinte civilizacional.

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  4. Clap! Clap! Clap! (Aplauso de pé)Eu por mim, não quero ser espanhol, nem que o Dantas seja português!

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  5. Estou particularmente á vontade para falar deste assunto, pois sou descendente de espanhois.O desafio de Portugal não se põe no medo de Espanha mais sim nas oportunidades que Espanha oferece enquanto maior parceiro comercial,é preciso sim,deixae de ter medo de existir e complexos de inferioridade que á tantos anos nos apoquenta.

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  6. Acusação de q se trata de argumentos +/- obtusos, impotentes frustrados, etc., sabe a pouco para quem, precisamente, n se revê nessa acusação. E, João, para um monárquico assumido, seria fazer a dita acusação abarcar mts dos nossos monarcas, q (sem sucesso) bem tentaram ocupar o trono aqui ao lado...
    Frederico

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