Na minha opinião de leitor observador comum, a actual crise da imprensa “tradicional” e “de referência”, tão debatida, dá-se, não tanto ao nível da sua forma e conteúdo, mas muito mais por causa do caos reinante na definição e distribuição dos conteúdos pelos suportes “tecnológicos”. Mas irei opinar sobre as duas faces da mesma moeda, começando pelos conteúdos.No que diz respeito aos chamados jornais de referência, concordo com Fernanda Câncio (!), do DN, que numa crónica recente recusou a desesperada procura do público como saída da “crise”. Também me parece que não vale a pena tentar conquistar um público que não gosta de ler, disputando-o aos meios de comunicação audiovisual. Ambicionar a conquista de todos os nichos de mercado revelar-se-á um erro, por serem, em geral, inconciliáveis e de distintas exigências. Mas essa tentação persiste muitas vezes em manchetes duvidosas dos nossos jornais de referência. A primeira página e as manchetes serão sempre um factor crítico na afirmação de um qualquer jornal.

Concordo também com Pedro Correia, que defende uma alteração drástica do estilo de escrita: “não há mais lugar para a prosa fria e distante. Há que estabelecer efectivos laços de cumplicidade com o leitor. Num estilo personalizado, empático, afectivo”. Considero utópico e irritantemente anódino o jornalista “pretensamente” ausente. Porque não assumir-se enquadrado no terreno da sua pesquisa?
Além disso, e em atenção a um mercado tão pequeno como o nosso, seria bom que as linhas editoriais dos nossos jornais se definissem politicamente, como é comum nas mais antigas democracias ocidentais. Dá-me ideia que estão todos a escrever para o mesmo espectro social e ideológico, o enorme “Centrão”. E como, na verdade, não há “imparcialidade” ou independência totais, essa opção é equívoca.
Pessoalmente, gostava de ter um diário claramente posicionado no “centro-direita”, onde encontraria claramente as minhas referências ideológicas, e outro que fosse definitivamente de “centro-esquerda”. Uma vez por outra, até compraria os dois.
Ainda no que se refere aos conteúdos, apesar de ser reconhecida uma constante perda de público tradicional, é visível que nada se faz pelo “público do futuro”: as crianças. Nenhum dos jornais diários ou semanários (à excepção dos encartes de fim de semana do Diário de Notícias e do Público) reserva um espaço, pequeno que seja, para os mais pequenos, com BD, jogos e animação própria para a faixa etária dos 6 aos 12 anos. É um erro fatal, quando sabemos de uma grave contingência dos leitores e do público em geral: eles envelhecem e morrem! É preciso investir sempre nos futuros públicos. É verdade para o turismo, é verdade para a indústria automóvel e é verdade para os jornais. Pela parte que me toca, que bom destino seria dado a um pequeno destacável infanto-juvenil. Mas pronto, à falta de alternativa, os miúdos viram-se exclusivamente para a Internet. E aqui é que, quanto a mim, se gera o caos e surge a crise.
Já agora, e por falar em prosas frias. Lia muito o DN também pelos comentários vincados, corajosos e bem escritos dos mal-amados
ReplyDeleteOscar Mascarenhas e António Rêgo Chaves. Que lhes fizeram? Falta em carne, o que sobra em osso aos novíssimos comentadores do sub-35.
Das agendas e da qualidade do jornalismo também se fala hoje no Abrupto, através do comentário de um médico que me fez lembrar quase uma década de notícias sobre a pandemia da gripe das aves ou acerca dos níveis de ultravioletas. Agora é do paracetamol que se fala:
ReplyDelete«Mote do dia na área do alarmismo pacóvio: “O Paracetamol destrói o fígado” (diversos jornais on-line, rádios e logo à noite, provavelmente, na RTP e SIC e de certeza na TVI.
Diz, por exemplo, o “Portugal Diário” que “O medicamento mais vendido sem receita médica provocou, nos últimos três anos, meia centena de reacções adversas em Portugal, segundo o Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (Infarmed), e foi recentemente associado à destruição do fígado, mesmo quando tomado em doses recomendadas…Para o estudo foram utilizados 106 participantes, divididos por três grupos: dois tomaram diariamente quatro gramas de paracetamol ao longo de duas semanas, e o terceiro tomou apenas placebo…Entre quem tomou o «remédio falso» não houve problemas de fígado, mas cerca de 40 por cento dos restantes participantes revelaram indícios de danificação daquele órgão.”
PRIMEIRO: 4 gramas de paracetamol são OITO "Ben-u-rons" por dia. Vezes duas semanas dá a módica quantia de 112 comprimidos. O facto de só haver "indícios" de lesão hepática (algo muito subjectivo de analisar em termos médicos, uma vez que existem muitas outras coisas, a começar pelo álcool e gorduras que o podem fazer) é antes de mais uma mostra da inocuidade do produto. Do mesmo modo, 50 reacções adversas em Portugal (que muitas vezes são uma simples urticária e nenhuma grave foi comunicada à classe médica) em 3 anos, sendo que em cada dia são prescritas embalagens na ordem dos milhares (fora as adquiridas sem receita), mostra que as probabilidades de haver problemas são bem menores que as de ser, por exemplo, atropelado por um jornalista.
SEGUNDO: nas recomendações de uso deste medicamento SEMPRE constaram avisos sobre os cuidados a ter em caso de toma prolongada ou em altas doses, sobretudo em relação ao fígado e rins. Não se percebe bem o porquê desta notícia ou "estudo" sobre uma coisa que não é novidade nenhuma, mas que pode ser alguma preparação para um novo produto a chegar ao mercado...
TERCEIRO: todos sabemos da papalvice e gosto pelo alarmismo de muito jornalista e da generalidade do público português. Fica então a sugestão: TODOS os medicamentos têm normas de utilização, taxas de efeitos secundários e contra-indicações, como poderá ser facilmente constatado, por exemplo, no Prontuário Terapêutico. Fazendo contas aos milhares de medicamentos comercializados, já viram o manancial de notícias assustadoras não devidamente aproveitadas? Vá lá senhores jornalistas: aproveitem a silly season, para lançarem uns belos pânicos. Já agora: se levarem os vossos filhos à consulta, cheios de febre, preferem que lhes dêem chazinhos?
Fernando Gomes da Costa (médico)»
olha, paracetamol era bom para o diário de notícias
ReplyDeleteUm jornal que não seja de centro-direita nunca identificaria todas as páginas dedicadas ao ataque do Líbano por Israel com a indicação: "Israel em Guerra". O "Público" identifica assim o assunto.
ReplyDeleteEste é só um exemplo, mas há muitos mais que provam a caminhada do centro-esquerda para o centro-direita que José Manuel Fernandes conseguiu empreender, com sucesso, no "Público".
Difícil decidir: melhor ter jornais alinhados, ou pretensamente neutros?
ReplyDeleteO alinhamento político é, talvez, a opção mais honesta mas questiono-me se será desejável em nome de maior transparência editorial prescindir do que deve, apesar de tudo, permanecer como a referência máxima do jornalismo: o distanciamento tão neutral quanto possível dos acontecimentos.
Ao defender um "estilo mais personalizado e afectivo" do jornalista também me parece que estamos a pisar um terreno muito escorregadio. Dispenso o jornalismo opinativo em que temos como exemplo mais paradigmático o estilo inconfundível de Manuela Moura Guedes.
A Imprensa, para sobreviver precisa de alterar os conteúdos, não a forma. Dêem aos leitores informação de qualidade, ou seja, bem inserida no histórico dos acontecimentos (a contextualização ajuda a compreender os factos, devolve ao público a memória que lhe falta e permite-lhe fazer um juízo crítico das notícias)e apostem no jornalismo de investigação, deixando o jornalismo de agenda por conta das televisões e rádios, a ver se não recuperam leitores...
João, gostei dessa sua reflexão, que dá pano para mangas, e também dos "bonecos" que escolheu. Concordo na generalidade excepto num ponto: os jornais generalistas não devem assumir simpatias politico-ideológicas, o que só faria diminuir ainda mais o número potencial de leitores. De resto, como o José Carlos Gomes observa, há já tendências em esboço na imprensa "de referência". Que, na minha opinião, não devem passar disso mesmo: de um esboço e nada mais.
ReplyDeleteFonte Próxima, no mundo da informação é impossível dissociar forma e conteúdo. Se pretender alterar conteúdos, terá também de alterar formatos ou a tarefa fica necessariamente incompleta. E vice-versa. É por isso que as simples "remodelações gráficas" postas em prática por todas as direcções de jornais mal tomam posse não resolvem só por si nenhuma questão de fundo. Por outro lado tentar reduzir o "estilo personalizado" em jornalismo aos trejeitos da Manuela Moura Guedes é matar a discussão à nascença. Quer estilo mais personalizado do que o do Ferreira Fernandes, por exemplo? E também lhe parece mal?
ReplyDeleteCaro Pedro: Obrigado pelo comentário. Mas parece-me curioso que a segunda parte deste post não tenha suscitado mais comentários… Repito que apesar de não ser matéria de “jornalismo” é seguramente uma questão de “Jornais”, de Marketing e de Gestão… mas insisto que é uma questão “chave”.
ReplyDeleteO Ni, entre muitas coisas de que discordo (para não variar), aponta uma questão importante: a evidente impreparação de muitas redacções de jornal para elaborar notícias que ultrapassem a linguagem fria, mecânica, previsível e muito incompleta das agências. Como dizia o outro, não há omeletes sem ovos...
ReplyDeletecaro pedro,
ReplyDeletehoje o problema do diário de notícias é exactamente esse: tem ovos mas não há omolete...